Daminhão Experiença, flerte fractal (1935-2016)

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Morreu uma das figuras mais originais da música brasileira, Daminhão Experiença (ou Damião, Daimeão, Experyença, Expériyença). Parecia um artista-mendigo, visto nas ruas do Rio, particularmente em Ipanema. Mas ostentava uma impressionante discografia de mais de 30 títulos. A posição mais corrente é de que sejam 36 – ainda que seja difícil confirmar o número exato, porque muitos se perderam e outras razões que já comentarei.

Outra coisa difícil de descrever é a estética do cara, que varia desde a “fase 1”, acústica, de violão de poucas cordas e gaita, cantada num dialeto inventado (“Linguagem do Povo do Infinito ao Universo de Rose de 1999”, álbum Planeta Lamma, 1974), até discos de hard blues funk psicodélico com banda completa, cantados em português (a “fase 5”, provavelmente da segunda metade dos anos 1980). Mas sempre característica. Não achei nenhum vídeo de meu álbum predileto (?) dessa fase (?), Cemitério Nazismo, que traz a imperdível “HHitlereevabbrawn”, mas “Veado + Zebra”, de Planeta Guerrilha, cuja data desconheço, é um exemplo dessa sonoridade.

Tudo parte da mitologia do tal Planeta Lamma, cujo único iniciado vivo seria o próprio Daminhão. Segundo o meu amigo, o pesquisador Sérgio Pinto, em seu texto Não se Faz Mais Música como Antigamente – Três Paisagens Sonoras Introspectivas e Três Improvisos Livres Para Pessoas Singulares, “mesmo com todos os elementos primitivos presentes em sua música e com sua capacidade de articular a linguagem musical de uma forma extremamente particular e fora dos cânones, Damião se expressa com todos os meios midiáticos. A iniciativa de gravar é sua, assim como a arte das capas. Mais que em apresentações, foi através do meio fonográfico que se comunicou com o mundo. Meio esse reservado ao mercado profissional e aos artistas consolidados. Mas é somente dessa maneira que sua música faz sentido e é nisso que reside o seu brilho” (Ofício do Compositor, org. Livio Tragtenberg, ed. Perspectiva; o belo texto de Sérgio aborda, além de Daminhão, Tony da Gatorra e um chileno anônimo, músico de rua, relacionando-os com a arte conceitual de vanguarda e com a arte do inconsciente, proposta por Nise da Silveira).

Essa mistura sempre sedutora de disfuncionalidade e eficiência (de onde saiu o dinheiro para 36 prensagens?! Adiante comento o que se especula), de experimentalismo radical e espontaneidade ingênua, de comunicabilidade contemporânea e pulsão ancestral, desafia a tentativa de descrever Daminhão. A informação sobre ele nos chega sempre fragmentária, mas sua emissão é intrigantemente monolítica, provida de uma inquestionável coerência interna.

O que parece ser correto sobre ele: nascido Damião Ferreira da Cruz em 1935, em Lauro de Freitas (BA), fugiu de casa rumo aos Rio em 1949, onde viveu como cafetão e operador de rádio da Marinha. Seu estado mental estaria associado a uma queda de um mastro, ou à solitária por deserção – a primeira versão parece coerente com sua condição de reformado desde 1963. Em “Forro de Janeiro”, do disco de estreia de Luiz Melodia, são dele os gritos ao fundo. Há quem diga que ele dividiu apartamento com músicos mais convencionais, e que poderia ter feito carreira (já ouvi mencionarem o próprio Melodia como housemate, ou de alguma relação com os Novos Baianos, mas não sei se essas informações têm alguma confiabilidade – de qualquer modo os seus gritos desencontrados nessa faixa de 1973 parecem ser já do Daminhão que conhecemos).

Depois do comunismo (na Marinha?) e do meretrício, o ambiente contracultural (uma espécie de pós-hippie-pré-punk) parece ser sua referência, pelo menos no modus operandi de começar a prensar e distribuir seus discos por conta própria (com o dinheiro da pensão e/ ou da gigolagem). Além de confeccionar as colagens de suas artes de capa, suas roupas sobrepostas e adereços. Esses discos hoje, se encontrados em sebos ou sites de venda, valem entre R$ 200 e R$ 1000. Não que ele tenha se mantido comunista; ao contrário, passou a citar Hitler, Isabelita Peron, os Estados Unidos e a Rússia (“vou para Havana plantar cana, encontrar uma moça cubana/ o russo é o maior cérebro do mundo”) em pé de igualdade positiva.

Além do poder político, questões da sexualidade e da condição humana em geral são livremente misturadas nas suas letras e teorias. Uma das fontes sobre ele é o livro também chamado Planeta Lamma, que alguns receberam encartado em seus discos. Para Rogério Skylab, a proposito da lamma, “O mundo de Damião é tão subjetivo, que está longe de qualquer inserção ao mundo moderno. Em seu livro, que se repete em suas músicas, suas afirmações contra o aborto e contra a nova igreja (teologia da libertação) estão na contramão da história. Poderia-se mesmo, diante desse anacronismo, construir-se um mundo reacionário, anti-moderno, não fosse a sua linguagem de bas-fond, cheia de palavrões e sexo. Impossível um discurso lógico em sua fala, ao contrário do Mangue Beat. É aí que talvez pudéssemos aproximá-lo a Bispo do Rosário com sua técnica de assemblage e seu amor à taxonomia”.

Ainda Skylab: “Psicótico e também marinheiro, como havia sido Damião, Bispo retirava do lixo os seus materiais, o que dava a seu trabalho uma conformação ao tempo. Ambos foram contemporâneos. Se o discurso de Bispo esvaziava-se de uma lógica narrativa, uma vez que a ideia de coleção retira o privilégio de determinados materiais em relação a outros, o discurso de Damião também o fazia”. Skylab não menciona, mas Daminhão desenvolveu o transtorno da acumulação de lixo, como os eventuais visitantes de seu apartamento ao pé do morro do Cantagalo puderam constatar – mas o que recolhia era mantido arrumado e, surpreendentemente, limpo.

Skylab, que aliás compôs a música “Fátima Bernardes Experiência”, conclui: “Não é à toa o nome ‘Damião Experiença’. A palavra ‘experiência’ tem em Damião um status tal e qual a palavra ‘lama’. E se pensarmos bem, ambas se equivalem. Aliás, sua biografia está quase toda nas canções (…) Mergulhar no seio da experiência, desarticulando qualquer possibilidade de discurso, é aonde nos leva as canções de Damião, alguém de olhos e ouvidos bem abertos ao seu tempo”. Já para mim, essa lamma lembra a cultura racional que Tim Maia abraçou durante um tempo, que explica que uma parte do racional superior regride, precipita e forma corpos de goma (cinzas + água). A mim soa como se houvesse algum estranho fragmento de verdade ou de sabedoria misteriosa nisso.

Outro compositor-filósofo-orgânico que me vem à mente é Adão Dãxalebaradã. Preso a uma cadeira de rodas depois das dezenas de tiros que tomou em diversas ocasiões, e tão inventivo quanto Daminhão, o grande Adão ficou, por assim dizer, à mercê da “produção branca” (Walter Moreira Salles, Antonio Pinto). Conseguiu lançar um único álbum muito bem acabado, Escolástica, em 2003. Que no entanto não veio a tempo, sequer, de ter um show de lançamento, apesar do compositor estar cercado de músicos de rock animados para acompanhá-lo. Com a saúde já muito debilitada, Adão morreria logo em seguida, em janeiro de 2004.

De volta a Daminhão. Seu sentido de busca de ordem cumulativa expressou-se inicialmente nas cordas de seu violão: começando com uma única, no primeiro disco, diz-se que a cada álbum ele ia acrescentando as outras, chegando a cinco ou seis. O que sinaliza uma notável noção de projeto artístico. E então as capas – associadas à vendagem e à rotulagem –, entraram no ciclo oposto, de dissociação entre embalagem e conteúdo.

Parece que de um determinado álbum vieram menos capas que vinis, e Daminhão então “dessincronizou” os dois componentes, passando a fazer diferentes capas genéricas que podiam receber qualquer disco, o que levou à sua crescente discografia uma sensação ainda mais confusa. Isso ainda que os selos fossem estritos na identificação do álbum, das músicas e autoria, mesmo quando há várias músicas numa única faixa – na imagem abaixo, um selo com uma anotação à mão do endereço onde podia ser adquirido, o da loja Modern Sound, então a melhor loja de música da cidade. Como sempre, Daminhão se movia em todas as direções ao mesmo tempo, simultaneamente mergulhando no caos e se se afastando dele.

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É por essa ocasião que Daminhão também estava próximo de roqueiros mais jovens, que passaram a gravar com ele, dando a massa sônica que ele buscava, ainda que trazendo uma certa familiariedade sonora (na fase 3, ele tinha tentado obter isso simplesmente sobrepor mais e mais camadas de vozes, violões e marimbas, o que não deixa de ser um procedimento conceitual).

E, em seguida, no início da década de 1990, começa a se estabelecer um culto mais nítido ao artista. O radialista e fotógrafo Maurício Valladares o coloca para tocar em festas (primeiro em 1992, depois em 2000); o mesmo Valladares o leva a fazer uma participação no disco de 1994 da banda Professor Antena; surgem cópias em CDR de alguns discos de Daminhão à venda nas galerias de São Paulo; colecionadores gringos começam a se dar conta dele e a disputar seus (poucos) discos nos sebos; em 2007 é feito um curta sobre ele.

Nesse período que ele grava seus últimos três discos, Comando Planeta Lamma em 1992 e os acústicos Amorzinho 1914 e Sarafina 1937 (aparentemente dedicados a seu pai e mãe, de quem tinha escapado quase 60 anos antes). Há convites para tocar no Sesc SP, primeiro o Pompéia, num ciclo de contracultura em 2008, show que não acontece, e finalmente um no Sesc Santo André, ao lado de Walter Franco e da banda experimental Supersimetria, que dá certo. Rogério Skylab tenta uma entrevista para seu programa na TV Brasil em 2012, que ele recusa, como de hábito.

Nos episódios do Professor Antena e do Sesc Pompéia, o que cria uma certa confusão é a peculiar noção de integridade de Daminhão. Ele não recebeu o cachê do disco porque se recusou a assinar contrato. E o show do Sesc Pompéia foi desmarcado porque o artista ficou furioso com o pedido de tirar uma carteira da Ordem dos Músicos – já o Sesc Santo André, alertado, conseguiu com a OMB uma liberação especial para artista de tradição popular, poupando-o do assunto burocrático que o tirava do sério. Um cara para quem um contrato roubava a alma.

Já a proximidade com o pessoal do Supersimetria levou à criação do site damiaoexperiença.net, do qual Ronaldo Camacho era o webmaster, e começou a organizar e disponibilizar para download a obra do artista. O site infelizmente hoje está fora do ar, assim como não foi finalizado (ou distribuído) o documentário Marinheiro Só, e não avançou a dramatização O Mendigo do Planeta Lamma, ambos da mesma produtora de Brasilia que fez o curta, a AKY Filmes, de Jimi Figueiredo e Ricardo Movits.

Eu mesmo tinha ouvido falar de Daminhão pela primeira vez em 1984, através da baterista da minha banda N°2, Marinella Setti, que tinha o primeiro, ou um dos primeiros discos, se bem me lembro. Ao longo do tempo consegui dois ou três, não sei bem como (presente do Miranda, que o tinha conhecido e visitado na década seguinte?). Por volta de 2000, eu estava andando de ônibus no Rio, à minha frente uns dreadlocks grandes e meio podres e uns fones de ouvido emendados com silvertape. Era a nuca de Daminhão Experiença. Só quando ele desceu (em Ipanema) é que eu vi quem era, tarde demais para pular atrás.

Ele morreu no sábado, depois de uma hospitalização de uma semana, aos 81 anos, e foi enterrado ontem, segunda feira; consta que acompanhado só por uma vizinha e um único fã. A sua rede de admiradores não foi avisada a tempo. O corpo volta à lama (no cemitério São João Batista, não no cemitério Nazismo).Mas o espírito voa para a constelação do Planeta Lamma, Planeta Roça, Planeta Guerrilha, Planeta Mendigo, Planeta Cachaça, Planeta Lavoura, Planeta Galinha, Planeta Guerra 1914, Planeta Quentão. Uma constelação, afinal, familiar.

(Um apanhado de vídeos de Daminhão aqui. discografias parciais aqui e aqui.)

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