Daniel Arap Moi, que governou o Quênia com mão de ferro por duas décadas, morre aos 95 anos

O ex-presidente queniano Daniel Arap Moi em 12 de dezembro de 2002 em Nairóbi

Daniel Arap Moi, ex-presidente do Quênia que governou o país com mão de ferro entre 1978 e 2002, morreu nesta terça-feira (4) aos 95 anos.

"Com profunda tristeza, anuncio a morte de um grande estadista africano, Sua Excelência Daniel Toroitich Arap Moi, o segundo presidente do Quênia", anunciou o atual presidente do país, Uhuru Kenyatta, em um comunicado oficial.

Moi, um professor, sucedeu o pai da independência do país, Jomo Kenyatta, quando este faleceu em 1978.

"Foi um dos líderes na luta pela independência do Quênia e um fervoroso pan-africanista", afirmou o atual presidente. "A herança do falecido Moi o coloca sem nenhuma dúvida entre os maiores africanos", completou.

O presidente ordenou um luto nacional até o "funeral de Estado", que ainda não teve a data divulgada.

O ex-presidente faleceu durante a madrugada de terça-feira em um hospital de Nairóbi, ao lado da família.

Um dos filhos de Moi, o senador Gideon Moi, confirmou o falecimento. "Morreu de maneira calma. Estive a seu lado e, como família, aceitamos (sua morte)".

O longo mandato de Moi foi rapidamente marcado pelo aumento da repressão contra os dissidentes, as detenções arbitrárias, tortura de opositores e a corrupção.

Ele ajudou a estabelecer um sistema de partido único em 1982, pois se declarava um fervoroso oponente da política multipartidária, que terminou por restabelecer sob pressão do clero, da sociedade civil e da comunidade internacional para as eleições gerais de 1992.

As principais vítimas de seu governo foram as elites culturais, os ativistas dos direitos humanos e os defensores do meio ambiente, como o escritor Ngugi wa Thiong'o ou a ativista Wangari Maathai, que venceu o Nobel da Paz em 2004.

"Os cidadãos comuns se tornaram alvo da repressão estatal. A tortura e a prisão se transformaram em algo normal", escreveu o analista Daniel Branch, da Universidade de Warwick no Reino Unido, em seu livro sobre a política pós-independência no Quênia.

Ao mesmo tempo, Moi é reconhecido por ter contribuído para manter a paz em um país localizado em uma região que é cenário de conflitos violentos, incluindo o genocídio em Ruanda e guerras civis no Burundi e na Somália.

O governo prolongado de Moi foi marcado por denúncias de corrupção e desvio de recursos públicos.

Em um relatório publicado na década de 2000, a empresa de gestão de riscos Kroll afirmou que as empresas fantasmas de Moi e seus associados desviaram um bilhão de dólares do país durante os 24 anos de governo.

Grande parte do dinheiro desapareceu por meio de um sistema de falsas exportações, conhecido como o caso "Goldenberg", pelo qual Moi nunca foi realmente investigado.

Os quenianos também sofreram com o desemprego e a inflação.

Nos últimos anos, analista lamentavam a lenta reabilitação da figura de Moi, que recebia com frequência a visita de importantes líderes políticos, que buscavam seus conselhos.