Daniel Ortega está enterrando nossos sonhos na Nicarágua, diz escritora ex-sandinista

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BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Houve uma época na Nicarágua em que o sandinismo era um movimento repleto de artistas e intelectuais. Eram os anos 1970, e a luta contra a ditadura de Anastasio Somoza (1925-1980) unia vários setores da sociedade nicaraguense.

A Frente Sandinista liderou a revolução, com um ideário inspirado nas transformações em Cuba e atraindo escritores, teólogos e cantores populares, entre os quais Ernesto Cardenal, morto em 2020, Sergio Ramírez e Gioconda Belli, ambos exilados na Espanha. A Nicarágua se transformava numa referência para a esquerda mundial, e os artistas, seus porta-vozes.

"Nunca pensei que fosse viver duas vezes em uma ditadura", diz Belli em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, por telefone. "É muito frustrante ter lutado tanto, ter acreditado tanto numa revolução e agora ver a Nicarágua voltar a estar sob a opressão de outro regime totalitário."

Em seus tempos de sandinista, a escritora chegou a realizar treinamento guerrilheiro em Cuba. Perseguida na Nicarágua, fugiu para o exílio, mas voltou com a revolução e construiu uma carreira na literatura.

Belli vê as eleições presidenciais realizadas neste domingo (7) com "tristeza e frustração" --ela falou à Folha antes do pleito. O ditador Daniel Ortega, ex-líder do sandinismo, vem realizando uma perseguição contra opositores. Já são 39 políticos presos nos últimos seis meses, incluindo os sete candidatos que poderiam ameaçar sua reeleição, além de jornalistas, empresários e outros ex-aliados do movimento.

*

Pergunta - A senhora já esteve no exílio antes. Como é estar na mesma situação novamente?

Gioconda Beli - Muito duro, porque, naquela ocasião, saí sabendo que voltaria pela revolução, pelo fim da ditadura de Somoza. E eu era mais jovem, tinha muita esperança. Fiquei fora nos anos de 1975 e 1976.

Desta vez, eu não saí pensando que seria um novo exílio, saí para visitar minhas filhas, que vivem nos EUA. Fui com uma mala com roupas de verão, porque pensava que ia voltar. De repente, as coisas ficaram feias na Nicarágua. Meu irmão foi chamado para dar depoimento, e nós sabemos que esse é o primeiro passo para ser preso. Depois, veio uma busca e apreensão em sua casa, levaram várias coisas. E soube que estavam me procurando. Meu irmão saiu do país, e eu não voltei.

Sinto que abandonei minha casa, onde estão meus livros e meus cachorros. Desde então estou viajando, ficando em casas de amigos, e devo me instalar aqui na Espanha. Não há a possibilidade de voltar para a Nicarágua agora. Também sinto uma sensação de injustiça muito grande. Porque Ortega está enterrando nossos sonhos, nossa luta. Uma verdadeira traição contra os que lutaram pelo fim da tirania.

A escalada de Ortega era esperada?

GB - De alguma forma, sim. Era essa a tendência se olharmos para 2018 e para a repressão que se desatou contra os protestos populares. Ortega não se conforma até hoje de ter perdido a eleição para Violeta Chamorro [em 1990] e vem ficando cada vez mais obcecado com permanecer no poder. Ele vem contra nós, contra os ex-aliados da Frente Sandinista, porque não quer competição, porque nós sabemos que ele inventa essa história de que foi ele quem nos libertou em 1979.

Naquela época, Ortega nada mais era que um membro de um grupo de nove pessoas que levaram adiante o projeto depois da queda de Somoza, e não era o membro mais brilhante nem o mais influente. Nós o conhecemos, e por isso ele agora nos persegue. Ele diz que nós abraçamos o imperialismo.

Mas não esperávamos a perseguição tão descarada aos opositores. Achávamos que era possível haver fraude nas eleições, mas não que saíssem a prender os candidatos sem julgamento. Preocupa-me que exista uma esquerda na América Latina que ainda veja Ortega como um líder de esquerda. A ideologia não deveria fazer com que as pessoas fechassem os olhos em relação aos abusos de direitos humanos. Se alguém ainda o vê com simpatia, precisa entender que a vida dos nicaraguenses está em jogo.

Qual o papel de Rosario Murillo [mulher de Ortega e atual vice-presidente] no regime?

GB - Quando ela entrou em cena, ele ficou mais confiante no seu projeto, isolou-se mais. Os dois são responsáveis pelo avanço contra a Justiça e contra as leis, que eles mudaram para que ele possa se reeleger indefinidamente.

Ela encarna essa ideia de que o lugar das mulheres na revolução não é ser protagonista, lutar de modo independente, mas, sim, ficar ao lado dos maridos --como ela ficou ao lado dele quando surgiram as denúncias de sua filha, Zoilamérica, de que ele teria abusado dela.

Em vez de protegê-la, Murillo desculpou o marido, ficou com ele, o apoiou e obrigou a própria filha ao exílio. Muita gente se sente identificada com essa história terrível, porque esse tipo de abuso é muito comum na Nicarágua. Numa sociedade machista, a escolha de preservar o marido, de ficar ao lado do macho, é popular, mesmo quando a vítima é a sua própria filha.

Por outro lado, ela seduz por ter garantido lugar para as mulheres em empregos públicos, no Congresso, em empresas, mas são mulheres doutrinadas, nomeadas por ela, então não se trata de uma conquista feminista. Murillo e Ortega exercem juntos um poder patriarcal na Nicarágua.

Nesse sentido, houve retrocesso em relação ao que as mulheres conseguiram na revolução?

GB - Retrocesso enorme, a mulher nicaraguense sempre foi protagonista nas nossas lutas históricas, assim como na Revolução Sandinista. Ortega e Murillo reforçaram os laços com o setor mais tradicional da Igreja Católica, e vários direitos das mulheres estão retrocedendo. O aborto era permitido em caso de estupro na Nicarágua, já não é mais. E é um governo que incita o preconceito contra homossexuais e mulheres.

Percebo na narrativa de Murillo um projeto de trocar o discurso revolucionário pelo esoterismo. As armas pela sedução verbal, pela magia. Murillo também é quem distribui as fake news nas quais se sustenta o regime, essa narrativa falsa sobre a revolução, um estímulo ao anti-imperialismo, a ideia de que os que se rebelaram em 2018 realizavam ritos satânicos. É tudo muito sombrio.

A senhora crê que os problemas da Nicarágua estão esquecidos pela comunidade internacional?

GB - Sim, durante muito tempo, mas creio que nos últimos meses isso vem mudando. Vários atores internacionais estão se pronunciando contra essa escalada autoritária, e os EUA colocaram mais sanções contra funcionários do regime. O que me pergunto é se isso adianta, porque Ortega está se isolando, fechando a Nicarágua, e, com isso, tem mais liberdade para exercer a repressão. No que eles chamam de eleição, neste domingo, não houve jornalismo, porque os veículos foram fechados, os jornalistas, expulsos ou presos, e correspondentes internacionais, impedidos de entrar no país. Nem observadores internacionais, que o regime não deixa entrar no país. Por enquanto, não vejo saída.

Qual a sua principal preocupação hoje?

GB - Os presos políticos. Espero que Ortega tenha a nobreza de soltar pelo menos os opositores que foram colocados atrás das grades para que ele ganhasse a eleição. E o ideal era que todos os que estão privados de liberdade devido a perseguição política saiam, porque não foram julgados nem condenados e estão tendo seus direitos básicos desrespeitados.

Raio-X

Gioconda Belli, 72

Poetisa, nasceu em Manágua, capital da Nicarágua, em 1948. Cursou parte dos estudos nos EUA e na Espanha. Integrou a Frente Sandinista de Libertação Nacional, contra a ditadura de Anastasio Somoza e, em razão da militância, teve de se exilar até o movimento revolucionário tomar o poder em 1979.

É autora de obras como "A Mulher Habitada", "O País sob Minha Pele" e "O País das Mulheres". Com a escalada autoritária da ditadura de Daniel Ortega, que também integrou a Frente Sandinista, teve de se exilar novamente, desta vez em Madri, na Espanha.

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