Daniela Mercury gostaria de ver mais avanços na luta LGBTQI+ e fala da quarentena com Malu: 'Mais apaixonada'

Desde que se casaram em 2013, Daniela Mercury e a mulher, Malu Verçosa, viraram porta-voz na luta pelas conquistas da comunidade LGBTQI+. Ao revelar seu amor por uma mulher, a cantora deu visibilidade à causa, usando a força do seu nome para diminuir o preconceito. Neste domingo, 17, Dia Internacional da Luta Contra a Homofobia, Daniela falou ao EXTRA, reconhecendo avanços nas conquistas dos direitos, mas reconhecendo também que ainda faltam ainda muitas outras.  Em quarentena em Salvador, na Bahia, com a família, ela conta  como tem sido atravessar o período de isolamento social. E o amor parece ainda mais forte. "Estou mais apaixonada", declara.

 

Como você vê a questão da representatividade na classe artística? Ainda mais levando em consideração que, atualmente, cada vez mais artistas falam abertamente sobre sua sexualidade?

Sim, hoje vemos mais artistas que falam de suas relações, de sua sexualidade com mais tranquilidade e isso é muito bem-vindo para a gente conseguir transformar essa sociedade num lugar melhor para todos. Eu fico feliz de ver que tantas pessoas estão falando de suas relações e, com certeza, estão fazendo porque não é só importante para a vida delas mas também como um ato político. Todos que falarem, famosos ou não famosos, de suas relações homoafetivas ajudam muito a transformar essa sociedade num lugar melhor para todos. É algo que celebro. Muitas pessoas que falam do seu trabalho militam pela causa.

Pela lente que você enxerga o mundo, nós caminhamos para um quadro mais livre de preconceito? Que pontos, em sua opinião, ainda precisa ter atenção especial?​

Houve uma humanização da comunidade LGBTQI+. Não posso dizer que não houve avanços, tivemos muitos avanços.  A questão da diversidade tem sido um tema abordado por muitos meios de comunicação. Estamos discurtndo os direitos civis, a violência, apesar de não termos pesquisas ainda que sejam específicias para essa comunidade, porque precisaríamos ter um olhar mais profundo. Então é muito difícil falar, temos que falar com  percepções gerais. Queria chegar mais esperança, queria enxergar mais avanços. Não quero deixar de celebrar os avanços que a comunidade teve, mas, diante de uma pandemia, sabemos como estão vulneráveis os travestis, os transexuais. Todos que já sofrem há muitos anos, que tem dificuldade de conseguir emprego. Todas as políticas públicas nesse sentido são muito bem-vindas. Já está havendo uma mobilização para pedir mais atenção para esse grupo, o mais vulnerável dos mais vulneráveis. É preciso que tenham mais compaixão. E espero que o Brasil deixe de ter o título de país que mais mata homossexuais. Me causa horror os políticos  ainda terem uma visão tão discriminatória.

 


​Nesse processo, tornar público o seu relacionamento com a Malu teve um impacto importante...

Muita gente pode ter ficado surpresa com o fato de eu ter me casado com Malu. Mas esse impacto, em termos de transformação social, foi muito bom. Eu já era uma artista querida, próxima, as pessoas já me conheciam, já sabiam como eu era como pessoa. Então o fato de eu casar com Malu trouxe à tona a questão da homofobia na nossa sociedade e a gente pôde falar sobre esse assunto de uma maneira mais clara. Trazer luz para esses assuntos, quase sempre tratados como algo muito complicado, num lugar obscuro. Tudo que é relacionado ao sexo é difícil de se falar abertamente, mesmo em 2020. A gente sabe o quanto isso impacta em tudo. Foi muito importante. A nossa atuação ajudou na conquista de mais direitos civis. Em termos de visibilidade da questão acho que foi muito bom.


Como tem sido o período de quarentena? Você e sua mulher têm passado o período de isolamento juntas? ​

Estamos juntas na quarentena, como estamos juntas na vida, para tudo, para o que der e vier. Estamos em casa, eu, Malu e as meninas. As nossas filhas Bela, de 10 anos, Alice, de 18, e Márcia, de 22. Temos convivido com muita intensidade. Difícil mesmo é esse medo, esse limite, a possibilidade da perda de alguém traz um impacto emocional. Faz com a gente revise tudo que a gente sente. Tenho me aproximado mais de Malu, nos conhecendo mais, exercitando essa maternidade, minha e de Malu, ser amiga delas também, no sentido de entender um pouco mais delas como pessoa. Estou mais apaixonda. A quarentena tem servido para a gente se olhar mais no olho, entender mais, que no cotidiano às vezes a gente não tem tempo. Está sendo um tempo muito rico, e, aos mesmo tempo, muito cansativo emocionalmente por conta do que está acontecendo, do medo, da tristeza, com as pessoas morrendo e esse caos político.

Do que mais você tem sentido saudade?

Sinto saudade de um tempo em que não havia pandemia, do palco, do carnaval. Até aquele momento a gente não sentia esse medo, essa tristeza, essa preocupação. Quando faço as lives em casa essa tristeza vai embora um pouco, a música é nossa conexão com o sonho, uma chance de ter contato com nosso melhores pensamentos. Sinto saudade da rua cheia de gente, das pessoas brincando, alegres. Sonho muito com a gente passando por esse momento, com o mínimo de perdas possíveis, se recuperando, se recompondo, e podendo celebrar a vida juntos. Mas não dá para ser feliz com tanta gente passando dificuldade. Estou completamente conectada com as questões da humanidade.

Que mensagem você gostaria de deixar neste dia 17?

Quero pedir carinho, amor, solidariedade, compaixão, respeito, acolhimento para a população LGBTQI+. Veja quem está perto e que você pode apoiar. Existem muitas correntes de solidariedade. Lembrem-se  que amor salva. Abraço e carinho salvam a gente. É muito ruim viver com medo. Se está todo mundo hoje com medo do coronavírus, imagine viver com medo, imagine o que é uma comunidade que vive com medo de sofrer violência, de morrer. Que todos que estão experimentando essa sensação do medo, terrível agora, possam se colocar no lugar das pessoas que sofrem na nossa comunidade, que estão sempre uma situação de risco. Ter suas vidas celebradas, no sentido de serem valorizadas.