Daniela Reinehr, uma 'bolsonarista' que assume o governo de SC

Guilherme Caetano
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Alçada governadora interina de Santa Catarina após o afastamento de Carlos Moisés (PSL) pelo Tribunal Especial de Julgamento, na última sexta-feira, Daniela Reinehr (sem partido) tem a missão de evitar os problemas de articulação de seu antecessor e ao mesmo tempo reatar a relação entre o governo estadual e apoiadores de Jair Bolsonaro.

Moisés perdeu apoio de sua base na Assembleia Legislativa (Alesc) ao longo de um ano com problemas de diálogo entre Executivo e Legislativo e críticas ao bolsonarismo. Sem aliados, não conseguiu escapar do processo de impeachment.

Assim que foi salva pelo voto de desempate do presidente do Tribunal de Justiça, o desembargador Ricardo Roesler, Reinehr foi ao Facebook para agradecer.

"Felizmente a justiça se sobrepôs a posicionamentos e questões políticas e minha inocência foi reconhecida, algo que sempre confiei que aconteceria", escreveu, numa foto em que parece rezar na sessão que a absolveu.

Alguns aliados afirmam que balancear o diálogo com a Assembleia e os acenos aos conservadores mais radicais, segundo os quais Carlos Moisés deveria ter seguido à risca a cartilha bolsonarista de governar, não será fácil.

— O maior desafio de Daniela é encontrar o equilíbrio entre as suas correntes ideológicas e a postura frente as políticas sanitárias que persistem necessárias no estado. Imagino que ela deve ter nuances do bolsonarismo mais explícitas, mas esperamos que ela traga o tom do entendimento ao estado — declara a deputada Paulinha (PDT), ex-líder do governo na Alesc.

Reinehr, no entanto, já começou a ser cobrada pela ala bolsonarista do PSL na Alesc a revogar os decretos de Moisés para tentar frear a disseminação da pandemia no estado. Um dos recados é do deputado Jessé Lopes, fervoroso apoiador de Bolsonaro:

— Espero que ela faça exatamente aquilo que a gente espera de uma governadora alinhada ao governo federal. Ela vendeu essa ideia e acredito que ela tenha aprendido com os erros do governador. A começar por esses decretos. Acreditamos que eles sejam autoritários — disse ao GLOBO.

Reinehr nasceu em Maravilha, no oeste catarinense, em 1977. Vinda de uma família ligada ao agronegócio, ela se formou policial militar, mas precisou se afastar da carreira para cursar Direito na Universidade Comunitária da Região de Chapecó (Unochapecó).

Envolveu-se com o ativismo político na esteira dos protestos pelo impeachment de Dilma Rousseff, a partir de 2015. Naquela época, aproximou-se do Movimento NasRuas, grupo fundado pela hoje deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) que pedia a derrubada da então presidente.

Da mesma forma que Moisés, Daniela Reinehr nunca tinha participado da política partidária até as eleições de 2018. Quando o vereador Lucas Esmeraldino recebeu de Jair Bolsonaro a permissão para estabelecer o PSL em Santa Catarina, ela se apresentou como interessada em concorrer ao cargo de deputada estadual.

Amigo de Esmeraldino, Moisés foi indicado para concorrer a governador por improviso, já que o PSL, sem coligação, precisava preencher a ata eleitoral para todos os cargos. Presidente do PSL catarinense, Esmeraldino buscou por uma vice que complementasse os atributos de Carlos Moisés, um homem do litoral do estado.

Vice-presidente estadual do PSL e candidata a deputada federal, Caroline de Toni, hoje eleita, foi a primeira opção. Mas as chances de vitória para o governo do estado eram consideradas baixas, e Lucas Esmeraldino não conseguiu convencê-la a concorrer. Moisés, afinal, ilustrava baixas posições nas pesquisas eleitorais.

Somente após a recusa de outra candidata, Rutineia Rossi, é que Daniela Reinehr foi convidada para compor a vice de Moisés. O PSL procurava por uma mulher, ligada à área de segurança pública, do oeste catarinense, para ajudar a angariar votos no estado inteiro. E Daniela topou "largar o certo pelo duvidoso".

Surfando a onda Bolsonaro, a chapa do PSL foi eleita com a maior votação da história de Santa Catarina. De repente, Moisés e Reinehr, que nunca haviam ocupado cargos políticos na vida, receberam um estado para administrar.

Quando Jair Bolsonaro deixou o PSL, no fim de 2019, Reinehr também se desfiliou, num gesto de afastamento de Moisés, que vinha de críticas públicas ao presidente. Desde então, passou a articular a criação do Aliança pelo Brasil em Santa Catarina, junto de Carla Zambelli e Karina Kufa, advogada da nova legenda de Bolsonaro.

Além do próprio divórcio com o bolsonarismo, a falta de diálogo com a Assembleia Legislativa (Alesc) ajudou a minar o capital político de Carlos Moisés. Em janeiro de 2020, ele e sua vice foram implicados numa denúncia de improbidade administrativa pelo aumento salarial dado a procuradores do Estado em outubro passado. Rompido com sua base, o governador não conseguiu os votos necessários na Alesc para barrar a instalação do processo de impeachment.

Mais próxima do Palácio do Planalto, Reinehr teve ajuda federal para se livrar do impeachment. Carla Zambelli e Karina Kufa tentaram convencer os deputados do PSL a votar contra o prosseguimento do processo, em vão. A vice ao menos colecionou publicações de apoio nas redes sociais do entorno do presidente, inclusive do filho Eduardo Bolsonaro.

O processo correu até a última sexta-feira, na sessão em que o governador foi afastado por seis votos a quatro. Daniela Reinehr, no entanto, teve o apoio de Sargento Lima (PSL), o único dos deputados a votar a seu favor. O presidente do Tribunal de Justiça, Ricardo Roesler, proferiu o voto de Minerva para disassociá-la da denúncia.

Vista como uma mulher firme e geniosa, Daniela Reinehr assume nesta terça-feira como a primeira mulher à frente do governo catarinense. Vinda de uma trajetória similar a de Carlos Moisés até chegar ao governo, cabe a ela agora trabalhar para acabar não tendo o mesmo fim.