Das consagradas às novatas das pick-ups: conheça mulheres que arrasam no comando da pista

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Em 2016, Van Müller — 35 anos, 12 como DJ — começou a notar uma mudança em festas, clubes e festivais. As mulheres, que costumavam ser minoria, comandavam cada vez mais as pick-ups — fosse um espaço pop, funk ou eletrônico. “Mas já ouvi que menina tinha que tocar na abertura da noite porque não era forte o suficiente para estar nos principais horários”, aponta Van, que junto com Karol Figueiredo, de 29, e Lizi Soares, de 27, forma o trio Latinas. “Até hoje, percebo olhares de julgamento. Consigo enxergar o questionamento: Será que ela sabe mesmo?”, acrescenta Lizi, no mercado desde 2018.

A carioca Bruna Strait, de 24 anos (seis na cena), chegou a elencar mais de 60 DJs mulheres em seu Instagram para mostrar que opção tem, mas faltam oportunidades. Uma das colegas listada foi a conterrânea Laura Atalla, de 27. “Num evento com oito DJs, temos, no máximo, duas mulheres”, diz.

Bruna cita outro drama noturno: o assédio. “Já fui vítima tanto do público quanto de produtores. E precisei ter jogo de cintura para não sair tachada de louca”, comenta.

Driblando preconceitos, as meninas têm de lidar com a pandemia. Quando as coisas pareciam voltar a uma certa normalidade, surge a Ômicron. “Minhas datas fechadas em Belo Horizonte caíram. Já fui avisada que alguns shows fora do Brasil podem ser cancelados”, conta a baiana Anne Louise, de 36.

A seguir, um time de craques das carrapetas contam como enxergam a cena num ambiente ainda dominado por homens.

Latinas

Até janeiro de 2020, quando começaram a arquitetar o projeto Latinas, a goiana Karol Figueiredo, a baiana Van Müller e a gaúcha Lizi Soares não eram próximas. Acompanhavam o trabalho uma da outra pelas redes sociais — e só. Foi o agente em comum que fez a conexão. “Existia um medo se a coisa iria funcionar. Afinal, somos três mulheres de personalidades diferentes, porém especialistas em tribal house. Mas o conjunto deu muito certo”, avalia Lizi.

Karol afirma que ela e as colegas, que recorreram até a um coreógrafo para formatar o show atual, querem mostrar no palco a união e a força feminina: “Nossa intenção é abrir caminhos por meio da música. E proporcionar uma experiência única”.

Depois da Ômicron, vamos dançar ao som de... “‘Latinas en fiesta’, assinada por nós.”

DJ Larii

Dia desses, a caminho do trabalho, Larissa Carvalho, a DJ Larii, de 29 anos, pediu ao motorista do Uber para aumentar o som. Essas viagens, conta ela, funcionam como uma espécie de laboratório. “Falei que precisava ouvir a música porque iria tocar numa casa. Ele ficou espantado. Avisei que nós, mulheres, estamos cada vez mais presentes nesse métier”, diz.

Carioca de Vila Isabel, Larii estreou na profissão há mais de um ano, em meio às restrições da pandemia. “Era conhecida na night do Rio há uma década. Incentivada por uma ex-namorada, fiz um curso de DJ, larguei meu emprego como vendedora e as coisas foram acontecendo. Fico arrepiada quando consigo levantar a pista. Acho que isso é amar o ofício. Hoje, vivo desse trabalho.”

Depois da Ômicron, vamos dançar ao som de... “Rainha da favela”, de Ludmilla. “É ‘jogação’ na certa.”

Nathália Filgueira

Nathália Filgueira, de 29 anos, tem um ritual: chega religiosamente duas horas antes de assumir as pick-ups para sentir a energia da festa. “Preciso saber o que meus colegas estão tocando para não repetir música”, avisa a carioca, que fez sua estreia na cena eletrônica em outubro de 2019. “Em menos de seis meses, tive de pisar no freio por causa da pandemia. Já tinha o hábito de fazer lives, mas intensifiquei o recurso para não ser esquecida. Cheguei a protagonizar três no mesmo dia. Nesse retorno, percebo um público exigente ao extremo, avalia nossa técnica e a forma como nos portamos no palco.”

Ex-professora de balé para crianças, ela usa a dança para atrair os olhares do público enquanto se apresenta. Também recorre a costureiras para montar looks “bafônicos”. “Ainda faço introduções exclusivas para deixar o set mais interessante. E detalhe: algumas batidas, nada muito elaborado, são produzidas por mim. Nunca estou satifeita, sempre desejo mais.”

Depois da Ômicron, vamos dançar ao som de... “‘When love takes over’, de David Guetta com Kelly Rowland. A energia é ótima.”

Laura Atalla

Laura Atalla sempre foi uma figura da noite. Batia ponto semanalmente nas principais baladas cariocas, mas como espectadora. “De repente, veio o estalo: por que não produzir minha própria festa?”, relembra a carioca. A primeira edição do evento, há três anos e meio, na Ilha da Gigóia, na Barra da Tijuca, foi um sucesso de público: 600 pessoas. “Quis ir além e fiz um curso de DJ...Caí de amores pela profissão e larguei os bastidores.”

Não demorou para crescer no segmento e passar a ser escalada para casas importantes do Rio, como Pink Flamingo, Pipper Club e Portal. “Investi pesado em redes sociais e figurino. Mas acredito que meu maior trunfo é o carisma. Meu prazer é ver as pessoas felizes, curtindo meu set, cheio de pop e funk”, aponta Laura. “No entanto, percebi que a nova variante afetou nosso business. A pista está mais vazia.”

Depois da Ômicron, vamos dançar ao som de... “‘Movimento da sanfonia’, da Anitta. Ou vocês pensaram que eu não iria rebolar?”

Anne Louise

A baiana Anne Louise, formada em Direito (“Virei advogada por insistência da família”) é tida como um dos maiores nomes da cena eletrônica no Brasil e no mundo. Com agenda cheia até 2023, já tocou nos Estados Unidos, Canadá, México, Espanha, Portugal e Israel. Pilota também uma marca de beachwear e outra de acessórios (o leque da foto é de sua grife), além de ensinar o ofício de DJ pelo país.

“Quando comecei, 15 anos atrás, existia a necessidade de provação. Eu sou gay, mas me apresentava em balada hétero, e sempre achavam que tinha conquistado o espaço porque estava enrolada com o dono da casa. Não levavam em consideração minha capacidade técnica”, diz Anne, que fez parte da banda de Claudia Leitte e shows para 50 mil pessoas no Villa Mix Festival. “E pensar que meu envolvimento com música começou na infância, com o piano clássico.”

Depois da Ômicron, vamos dançar ao som de... “‘Agora’, que fiz com o DJ Thiago Costa. É para nos lembrarmos que não devemos projetar a felicidade no futuro nem no passado, mas no presente.”

Bruna Strait

Dois mil e vinte um terminou da melhor maneira possível para Bruna Strait. A DJ, conhecida por sua energia e mudanças de cabelos, abriu o show de Anitta, no Rio, tocando para uma plateia animada por mais de uma hora. Só parou minutos antes de a cantora entrar no palco. Também tem no currículo uma turnê pela Europa com Gloria Groove e apresentações ao lado de Karol Conká.

“Em tempos normais, sem pandemia, tenho três festas por semana, no mínimo”, anuncia Bruna. “Esse ofício apareceu na minha vida do nada, sem planejamento.Fotografava eventos e fui convidada para assumir as carrapetas. Depois desse passo, resolvi comprar a controladora usada do vizinho para treinar. Gosto de me jogar nos sets. Não fico parada. Atiro com minha bazuca de CO2, danço... Uma verdadeira performance.”

Depois da Ômicron, vamos dançar ao som de... “‘Break free’, da Ariana Grande.”

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