Das cores às torcidas: Fluminense e Vélez Sarsfield veem laço histórico de amizade se fortalecer na Libertadores

Marcello Neves
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O Vélez Sarsfield sabe que terá o apoio do Fluminense quando for enfrentar o Flamengo, nesta terça-feira. Assim como os tricolores terão a torcida dos 'Fortineiros' ao desafiarem o River Plate, na quinta. A relação Brasil-Argentina que une os dois clubes foi reforçada após o sorteio dos grupos da Libertadores, que os colocaram frente aos rivais do 'co-irmão', mas essa improvável amizade vem de anos atrás.

Qual o motivo para esse elo? Inicialmente, as cores. O Vélez foi fundado em 1910 por imigrantes italianos que desembarcaram em Buenos Aires. Se hoje o “V” azulado é o uniforme mais tradicional, o primeiro teve listras verticais com as cores vermelho, branco e verde, devido à origem europeia.

A primeira relação direta com o Fluminense que se tem registro aconteceu em 1969, quando os argentinos enfrentaram o Santos de Pelé em amistoso para inauguração da iluminação artificial do Estádio José Almafitani. De acordo com o site oficial do Vélez, a equipe utilizou os uniformes originais do Fluminense, que foram comprados no Brasil após uma viagem de férias de um funcionário do clube.

"Nossa camisa italiana tem um bela anedota. Após a visita do Santos de Pelé, em 6 de dezembro de 1969, que o Vélez voltou a vestir tricolor. Como conta o livro 'História do Vélez' (para o 70º aniversário), eram os uniformes do clube carioca Fluminense, que Ramón Garcia havia comprado após uma viagem para terras brasileiras", diz o site do Vélez Sarsfield.

— Existe uma amizade de anos entre clube e torcidas, inicialmente por causa das camisas. Quando Vélez vai jogar no Brasil, tem o apoio da torcida do Fluminense e vice-versa. Depois, os clubes passaram a se aproximar institucionalmente. Creio que essa irmandade será mantida nesta Libertadores, principalmente devido aos grupos em que eles foram sorteados — afirma Juan Meza, setorista do Vélez na 'Radio Continental'.

Anos se passaram e o laço histórico chegou nas arquibancadas. Existe uma divergência dentro das torcidas do Fluminense sobre quem iniciou a parceria, mas todas vão de encontro com 'La Pandilla de Liniers', a principal barra brava do Vélez Sarsfield. O ponto inicial aconteceu na semifinal da Libertadores de 2008, quando o tricolor empatou em 2 a 2 com o Boca Juniors, em Avellaneda.

Nas arquibancadas, os tricolores contaram com o apoio dos argentinos dentro e fora do estádio — ajudando como guias e para evitar possíveis emboscadas. O ato se repetiu em 2011, quando o Fluminense voltou ao país para enfrentar os Argentinos Juniors. A relação cresceu tanto que, hoje, os únicos uniformes aceitos para entrar na sede do Vélez são os da seleção argentina e o do Fluminense.

— Antes do jogo [diante do Argentinos Juniors], um membro da torcida deles foi responsável pela logística de chegada do nosso ônibus. Eles abriraram o estádio e conhecemos o clube. A única camisa aceita lá, além da do Vélez, é a do Fluminense [e da seleção argentina]. Hoje essa amizade cresceu — conta Pedro Muller, torcedor do Fluminense.

Nas redes sociais, a ligação também teve pitadas de bom humor. Torcedores do Vélez provocaram o Flamengo e aproveitaram a ligação com o Fluminense para pedir que o clube usasse o uniforme tricolor quando os fortineros fossem jogar no Maracanã.

Aproximação institucional

Em 2012, a diretoria do Fluminense assinou um acordo de colaboração recíproca com o Vélez. O então presidente tricolor, Peter Siemsen, e o dos fortineiros, Miguel Pablo Calello, assinaram o documento que visa a estreitar as relações entre os clubes. Este acordo permitiu a troca de experiências com a capacitação de seus profissionais, realização de treinos e jogos de integração das escolas esportivas e das equipes profissionais e visitas dos times aos locais de treinamento do outro clube para treinamentos conjuntos.

O convênio também previa, entre outros, eventos para que sócios de Flu e Vélez possam comparecer e a participação dos grandes jogadores dos clubes em ocasiões especiais. Siemsen recebeu de Calello uma placa parabenizando o Fluminense pelo tetracampeonato brasileiro. Também houve troca camisas personalizadas e flâmulas entre brasileiros e argentinos.

— Estou muito contente. Isso começou quando nos visitaram no Vélez e, na oportunidade, havíamos falado e pensando nessa possibilidade de um acordo entre as duas instituições. As duas torcidas estão bem ligadas por causa das cores e momentos. Acho que pode ser o início de uma relação futura de intercâmbio de jogadores, buscaremos uma maneira de cada vez mais ampliar o contato — frisou o então presidente do clube argentino.

Campeão da Libertadores em 1994, o Vélez retorna ao torneio sul-americano após sete anos ausente. O time lidera o Grupo B da Copa da Liga Argentina, com sete vitórias em dez partidas. Em seu último compromisso, derrotou o Huracán, na sexta-feira passada, por 2 a 0, com direito a um gol do ex-meia rubro-negro Mancuello. O outro foi marcado pelo atacante Lucero.