Das fezes à morte: já acirrado, cenário político deve piorar até eleições

Apoiador de Jair Bolsonaro segura cartazes em formato de arma; discurso de violência antes das eleições preocupa especialistas (Foto: SERGIO LIMA/AFP via Getty Images)
Apoiador de Jair Bolsonaro segura cartazes em formato de arma; discurso de violência antes das eleições preocupa especialistas (Foto: SERGIO LIMA/AFP via Getty Images)

Já era previsto que as eleições presidenciais de 2022 seriam marcadas por um acirramento dos ânimos da sociedade brasileira. O cenário de “polarização”, no entanto, não é mais suficiente para descrever a situação política do país.

O sinal amarelo estava aceso, mas a preocupação ficou ainda mais latente quando, em 15 de junho, um drone sobrevoou um evento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de Alexandre Kalil (PSD) em Uberlândia, Minas Gerais. O aparelho despejou um produto mal cheiroso sobre os apoiadores de Lula que estavam no evento. Ali, era claro que os limites da disputa eleitoral tinham sido ultrapassados.

Em um período de um mês, uma bomba caseira com cheiro de fezes foi jogada em apoiadores do ex-presidente em um evento no Rio de Janeiro e, além disso, Marcelo Arruda, tesoureiro do PT em Foz do Iguaçu, foi assassinado durante a própria festa de aniversário, após um apoiador de Jair Bolsonaro (PT) entrar no local e atirar em Arruda.

Uma morte parece o pior que pode acontecer, mas, segundo especialistas, a tendência é que o cenário político fique ainda mais tenso e acirrado.

Para Deysi Cioccari, doutora em ciência política e colunista do Yahoo! Notícias, a deterioração da normalidade já estava posta, na realidade, desde a posse do presidente Jair Bolsonaro. “Os prenúncios estão aí desde que começaram os ataques às instituições, o incitamento ao ódio, ao tumulto no 7 de setembro e às minorias. O Estado de tensão provocado desde o dia 1 desse governo, quando Carlos Bolsonaro foi armado à posse do presidente, tem sido potencializado toda semana”, avalia.

“Se as instituições não agirem fortemente, se os candidatos não se posicionarem moralmente contra os ataques, veremos mais mortes”, diz Deysi Cioccari.

Cientista político da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Rodrigo Prando acredita que os casos da bomba de fezes e do drone já mostravam o clima político exacerbado e violento que havia no país.

“São vários elementos que compõe um mosaico que mostra que a cultura brasileira é uma cultura assentada sobre a violência, violência política, violência contra mulheres, contra negros. É uma sociedade violenta e na política essa violência também se reflete e temos que ficar atentos ao que é prenuncio”, afirma.

Para o cientista político, o papel das instituições é fundamental para frear novos casos de violência.

“Infelizmente, para mim, a tendência é de um aumento da violência, sem dúvida nenhuma. Ou as instituições – mas não apenas as instituições, também os indivíduos – passam a valorizar o diálogo e o confronto de ideias e não o embate físico, ou podemos passar a ter um aumento sensível de casos de violência, o que é péssimo para a democracia e péssimo para o clima eleitoral”, diz Prando.

Culpa de Bolsonaro?

Oposição culpa discurso de Jair Bolsonaro por acirramento da violência no período pré-eleições (Foto: Andre Borges/NurPhoto via Getty Images)
Oposição culpa discurso de Jair Bolsonaro por acirramento da violência no período pré-eleições (Foto: Andre Borges/NurPhoto via Getty Images)

Marcelo Arruda foi assassinado por Jorge José da Rocha Guaranho. O homem chegou na festa de aniversário de Arruda, cujo tema era PT, ofendendo os presentes e dizendo palavras de apoio a Jair Bolsonaro.

O caso deu força à discussão sobre a responsabilidade do presidente da República sobre episódios de violência. Bolsonaro nega qualquer envolvimento e, inclusive, alegou que, ao sugerir “metralhar a petralhada”, falava em sentido figurativo.

Deysi Cioccari e Rodrigo Prando concordam que a responsabilidade de Bolsonaro não é direta, mas concordam que há uma banalização do discurso de ódio.

“As falas do presidente Bolsonaro não têm responsabilidade direta quando pensamos da perspectiva objetiva e jurídica. Juridicamente e objetivamente, a responsabilidade é do atirador, que teve sua prisão preventiva decretada, então, ele responderá pelo ato, será levado a julgamento pelos tiros desferidos, que levaram à morte o outro indivíduo”, define Rodrigo Prando.

Por outro lado, ele fala em responsabilidade política. “O presidente Bolsonaro jamais respeito aquilo que se chama de ‘liturgia do cargo’. Institucionalmente, na condição de presidente, ele, em tese, governa para todos os brasileiros. O presidente sempre deixou claro na sua retórica a dimensão da sua fala, do seu discurso era aquela do confronto permanente, uma forma de fazer política que eu tenho chamado ao longo do tempo de ‘presidencialismo de confrontação’, em que ele confronta, elegendo inimigos. Ou seja, ele transforma os adversários em inimigos e essa retórica do presidente é uma retórica não raro muito violente. Por isso, ele tem, sim essa responsabilidade polícia e moral sobre aquilo que ocorre e aquilo que ele fala.”

Deysi Cioccari aponta para outra problema: a incitação ao uso de armas de fogo. “Evidentemente, nesses 4 anos de governo, é uma potencialização do discurso do ódio e um incitamento à utilização de armas. O atual presidente normalizou a visão de que se alguém pensa diferente de mim eu não o reconheço. Democracia sempre foi dissenso, mas nesse governo vimos a liberdade de expressão ser confundida com liberdade de agressão. Você agride quem não concorda. Houve, certamente, uma banalização do ódio.”

Após a morte de Marcelo Arruda, Jair Bolsonaro afirmou que rejeita o apoio de pessoas como Jorge José e, em seguida, culpou a esquerda pela violência. A esquerda, por sua vez, culpou o presidente por incitar o ódio. A cientista política afirma que é preciso que todos os candidatos se manifestem contra a violência, sem acirrar os ânimos.

“O presidente e todos os candidatos têm o dever de se posicionarem fortemente contra qualquer ataque em seu nome. Chega de discursos nas entrelinhas, de aplausos a agressores, de procurar culpados. A hora é de apaziguar os ânimos e falar de planos para melhorar o país. Uma linha muito séria na história da democracia foi cruzada. Se atitudes contundentes não forem tomadas, viveremos o caos”, prevê.

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