Datafolha apontou onde está o calcanhar de Aquiles de Lula e Bolsonaro

People walk past presidential campaign materials depicting Brazil's former President Luiz Inacio Lula da Silva and President Jair Bolsonaro on the first day for political campaigns, in Brasilia, Brazil, August 16, 2022. REUTERS/Ueslei Marcelino
Fotos: Ueslei Marcelino/Reuters

Em aspectos gerais, os institutos Ipec e Datafolha apresentaram cenários parecidos do grid de largada da corrida presidencial.

Nas duas pesquisas divulgadas nesta semana o atual presidente aparece em segundo lugar, com 32% das intenções de voto. Lula lidera no Ipec com 44% e, no Datafolha, com 47%. Em ambas os candidatos do pelotão de trás seguem comendo poeira. Quem chega mais perto dos favoritos é Ciro Gomes (PDT), com 6% em uma pesquisa e 7% em outra.

Os dois levantamentos mostraram que Bolsonaro abriu distância para Lula entre o segmento evangélico. No Ipec, o capitão tem 47% contra 29%. No Datafolha, 49% contra 32%.

Os resultados são uma radiografia sobre os pontos fracos de cada candidato.

Veja como foram as últimas pesquisas eleitorais de 2022:

Os da chamada “terceira via” (que já somam dez postulantes ao todo) residem no índice de decisão de votos. Segundo o Datafolha, 75% dos eleitores estão totalmente decididos sobre sua escolha.

Os números chegam a 83% para Lula e 80% para Bolsonaro. Apenas 17% de quem hoje vota no petista e 20% no atual presidente dizem que ainda podem debandar. Ou seja: não importa a artilharia lançada contra eles, o alcance será apenas residual.

Para se ter uma ideia, 64% dos eleitores de Ciro Gomes dizem que ainda podem escolher outro candidato. A maior parte (34%) tem em Lula a sua segunda opção.

De maio até agosto, Lula apenas oscilou na preferência dos eleitores. Bolsonaro cresceu e diminuiu a distância ao ganhar terreno no Sudeste e em alguns segmentos-chave do eleitorado.

Nos últimos meses o presidente abriu sua caixa de ferramentas. Ele e seus aliados subiram o tom contra o principal adversário, colocaram o demônio na pista, e esperavam colher os resultados das batalhas vencidas no Congresso — para aprovar um pacote de bondades de R$ 41 bilhões e bancar a engorda do Auxílio Brasil — e também contra a Petrobras para reduzir o preço dos combustíveis.

Lula segue (bem) à frente entre os mais pobres (55% contra 23%, segundo o Datafolha), mas viu o ex-capitão crescer sete pontos percentuais e chegar a 41% das preferências entre quem ganha de dois a cinco salários mínimos. Neste grupo, que forma 33% da amostra, Lula tem 38% das intenções de voto.

Aqui o Datafolha aponta uma possível sobreposição de estratos, segundo a Folha de S.Paulo, já que parte do eleitorado evangélico (25% dos entrevistados) se encontra nessa faixa de renda.

Não faz muito tempo, Lula e Bolsonaro empatavam entre os evangélicos. Agora ficou evidente que Lula precisará fazer aceno mais claros para o segmento na tentativa de estancar a sangria. Faz parte dessa estratégia a dobradinha com o neoaliado André Janones (Avante), que desistiu de sua pré-candidatura ao Planalto para reforçar a comunicação digital do petista.

Veio de lá o slogan recém-lançado segundo o qual "Bolsonaro usa Deus e Deus usa Lula".

Já Bolsonaro viu nas pesquisas um retrato bastante mundano de suas dificuldades.

A melhor notícia para ele é que as chances de Lula vencer já no primeiro turno estão agora no limite do limite da margem de erro. Se empurrar um pouco mais, essa possibilidade cai de vez.

Em uma disputa apenas com o petista, ainda segundo o Datafolha, Bolsonaro ganharia apenas cinco pontos entre um turno e outro. Lula ganharia sete além dos que já tem.

Se a eleição fosse hoje, o petista venceria assim com 54% contra 37%. Uma vantagem ainda considerável para quem vê pelo retrovisor o farol em luz alta de um automóvel turbinado com Auxílio-Brasil, vale-gás e outras benesses.

A explicação para a dificuldade de Bolsonaro tomar a dianteira é a mesma de sempre: 52% dos entrevistados dizem que nunca confiam no que diz o presidente, número parecido com seu índice de rejeição (51%, ainda bem superior aos 37% de Lula).

Se Bolsonaro tem vantagem sobre os 25% dos eleitores que se declaram evangélicos, Lula segue em primeiro em outros segmentos religiosos e também entre as mulheres, que formam a maioria dos eleitores.

Aqui Bolsonaro conseguiu uma ligeira melhora desde que escalou a primeira-dama como uma espécie de testemunha de que o marido tem cara feia mas é gente boa. Ele tinha apenas 23% dos votos femininos em maio e agora tem 29%. Mas Lula apenas oscilou entre as mulheres no mesmo período (de 49% para 47%), num sinal de resiliência e também de que o atual presidente não tem mais onde buscar votos se tudo seguir como está até outubro.

Até lá o fator novo será o início da campanha dos candidatos na TV. Será um teste de fogo para o presidente que busca um figurino de rapazinho responsável para o público moderado enquanto nas redes e em encontro com aliados ataca as urnas, ameaça botar fogo no parquinho e a cai em provocação barata de qualquer um que fure a bolha de seu cercadinho.