Datafolha aponta tendência, mas não uma ‘onda’ de voto útil para Lula. Não ainda

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Apoiador posa com máscara do ex-presidente Lula durante comício em Curitiba. Rodolfo Buhrer/Reuters

Confirmando a tendência já apontada pelo Ipec, no começo da semana, o ex-presidente Lula (PT) oscilou dois pontos para cima em sete dias e alcançou 47% das intenções de voto apuradas pelo Datafolha. A pesquisa foi divulgada na quinta-feira (22).

Jair Bolsonaro (PL) segue com os mesmos 33% da semana anterior.

Apesar de ter ampliado a distância em relação ao atual presidente, ainda não se pode dizer que Lula já colhe os frutos de sua estratégia em busca do chamado voto útil.

A menos de dez dias da votação, os eleitores de Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (MDB) que podem definir o jogo já no primeiro turno, ainda não deram sinais consistentes de que vão debandar, apesar do anúncio de voto em Lula feito por diversas personalidades, como os ex-ciristas Tico Santa Cruz e Caetano Veloso, e tucanos, como Fernando Henrique Cardoso (em seu meio-anúncio, é verdade), nos últimos dias. Para eleitor "comum", a decisão ficou para a última semana.

O pedetista oscilou um ponto para baixo e ainda tem 7% das preferências; a emedebista soma 5%. Soraya Thronicke (União Brasil) aparece com 1%.

Se Lula conseguir um naco desses 13%, é possível que a disputa seja encerrada já em 2 de outubro.

Por enquanto, no entanto, a estratégia petista mais afugenta do que atrai eleitores de seu ex-ministro da Integração Nacional—com em tese já larga com alguma afinidade.

Em uma simulação de segundo turno, Lula já não herda a maioria absoluta (51%) dos votos de quem manifesta preferência por Ciro hoje. O índice é de 43% – Bolsonaro leva 28%, quatro pontos percentuais a mais do que no último levantamento.

O Datafolha aponta que Lula teria hoje os 50% de votos válidos para vencer a disputa já. Mas o índice segue no limite da margem de erro e faz com que qualquer erro ou detalhe mude todo o cenário –ainda que o instituto aponte um amplo favoritismo do petista no segundo turno (ele bateria Bolsonaro por 54% a 38%).

Nessa reta final, Lula precisa convencer seus eleitores, sobretudo os mais velhos, de que precisa deles no dia 2. O medo de agressão, em um momento em que os casos de violência política se avolumam contra candidatos e eleitores, e a sensação de que o jogo está ganho podem servir como fatores de desmobilização.

Bolsonaro não conseguiu o que queria até aqui ao abrir a carteira para uma série de ações eleitoreiras de seu governo.

Suas chances de reeleição esbarram na rejeição apontada por 52% dos eleitores (mesmo índice dos que dizem jamais confiar no que ele diz). Lula tem 39% – um número alto, mas que já mostra que o antibolsonarismo é hoje uma âncora maior do que o antipetismo.

A rejeição ao candidato à reeleição é superior à má avaliação de seu governo (44% de ruim e péssimo), o que confirma um descolamento entre a imagem do candidato, que nos últimos dias cometeu uma série de presepadas ao transformar uma viagem ao funeral da rainha Elizabeth II em comício, e a de sua gestão.

Apesar do esforço para trazer Michelle Bolsonaro para o centro da campanha, o presidente ainda amarga distância considerável em relação a Lula entre as mulheres. O petista tem 49% e ele, 29%.

Uma boa notícia para o capitão é que ele tem se aproximado do petista na região Sudeste, onde concentram-se os maiores colégios eleitorais do país. A distância em maio entre eles era de 13 pontos percentuais a favor de Lula; hoje é de 5 (41% a 36%).

O Datafolha apontou que Bolsonaro conseguiu abrir vantagem entre quem ganha de dois a cinco salários mínimos (tem 43% contra 36% de Lula), segmento mais impactado tanto pela campanha aberta de pastores nos templos alinhados ao bolsonarismo quanto pela queda dos combustíveis a cada nova rodada de pesquisa desfavorável ao capitão.

O presidente também segue à frente entre evangélicos (50% a 32%), mas não conseguiu chegar a dois terços desses eleitores como previam alguns de seus aliados.

Em compensação, Bolsonaro estacionou, após leve alta, entre os eleitores mais pobres. Ele permanece com 24% das intenções, contra 57% de Lula. Até aqui, já é possível dizer que não surtiu efeito nem o aumento do Auxílio Brasil nem o esforço para pintar o cartão do benefício com as cores de sua campanha.

O discurso petista de que os programas são temporários, com hora para acabar, possuem viés eleitoreiro, não atingem boa parte dos eleitores em situação de pobreza e não são suficientes para ampliar o poder de compra por causa da inflação tem funcionado até aqui.

A pesquisa mostrou também a falta de aderência do discurso anticorrupção de Bolsonaro.

No dia em que o jornal O Estado de S.Paulo revelou que pastores ligados ao Ministério da Educação cobraram propina, a ser guardada em um pneu de caminhonete, para facilitar acesso de um empresári a recursos públicos, 69% dos entrevistados diziam que há, sim, corrupção no atual governo. O discurso moralizante foi um dos motores da campanha bolsonarista em 2018. Não é mais.

Criticado por setores que hoje apoiam Lula ou o voto útil no petista, Ciro manteve sua rejeição em 24% no grosso do eleitorado. Mas ainda segue longe de alimentar qualquer pretensão em uma campanha com dois favoritos claros e um cenário de estabilidade que não se via desde 1994.

As cenas dos próximos capítulos são previsíveis: Ciro e Bolsonaro vão aproveitar a provável ausência de Lula no debate entre candidatos no SBT para esvaziar as últimas cartelas de seu arsenal contra o hoje candidato favorito.

Lula não pode pensar em submergir se quiser liquidar a fatura daqui a dez dias. Foi o que o levou a transformar uma entrevista que tinha tudo para ser tensa no programa do Ratinho, um território bolsonarista, em papo de boteco, com direito a lembranças dos tempos em que o apresentador vivia mais bem-humorado e o convidava para tomar cachaça e comer rabada em sua casa.

É nessa imagem dos bons tempos, em que tudo era mais leve, menos carrancudo e menos violento, que Lula pretende insistir até o fim. Até aqui, tem funcionado.