Datafolha: resiliência de Bolsonaro mostra que ele não chegou até onde chegou por acidente

Matheus Pichonelli
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Brazilian President Jair Bolsonaro gives the thumbs up during the opening of the Forum 'Control in the Fight against Corruption 2020' at Planalto Palace in Brasilia, December 9, 2020. (Photo by Sergio Lima / AFP) (Photo by SERGIO LIMA/AFP via Getty Images)
O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Sergio Lima/AFP (via Getty Images)

Quando tomou posse como presidente, em 1º de janeiro de 2019, Jair Bolsonaro levou para o centro do Palácio do Planalto uma legião de Bolsonaros anônimos.

Não foi dele que ouvimos pela primeira vez que todo mundo vai morrer um dia. Nem que o temor do vírus ou da morte é coisa de maricas. Da mesma forma, ele não foi o primeiro a associar o feminino a uma “fraquejada”. Ou a dizer que prefere um filho morto em acidente a um filho homossexual. Nem a afirmar que o mundo anda chato demais por não poder dizer em paz as barbaridades de sempre.

Isso tudo já ouvimos de parentes, vizinhos e amigos. As declarações podem causar arrepio às mentes supostamente mais ilustradas, mas calam fundo no coração de boa parte dos conterrâneos. Ninguém atravessa o século 21 com tantas tralhas de séculos passados apenas por acidente. É preciso muito esforço e muita convicção para conservá-las.

Todo mundo conhece quem cruzou o novo milênio e morreu convicto de narrativas particulares segundo as quais o homem nunca foi à lua, que vacinação é uma forma de implementar moléculas destruidoras no organismo do cidadão de bem, que a Terra é plana, que o mundo é dominado há anos por meia dúzia de pessoas que se reúne anualmente para decretar os destinos do planeta. Inclusive quem serão os ganhadores da Copa do Mundo. Se soubéssemos o que aconteceu nos bastidores da final do Mundial de 98, ficaríamos enojados, eles dizem. É tudo armação, garantem.

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Nascer e crescer não é um constante encontro e desencontro com a verdade e a sabedoria; dá para embrutecer muito com a idade e guardar no armário uma coletânea de teimosias sem qualquer relação com a realidade, do chupa-cabra ao ET Bilu, passando por obsessões sobre nióbio, medicamentos milagrosos e visões particulares de florestas, povos indígenas, minorias.

Quem saiu da toca após o período mais tenso da pandemia provavelmente já percebeu quanto é gritante o número de pessoas que circula convicta de que a China criou um vírus em laboratório para destruir as potências capitalistas ocidentais e assumir a dianteira do controle mundial. Não é um ou dois. São vários embaixadores dessa tese. Unidos no WhatsApp, as vozes dispersas viram multidão. E, como multidão, vira também força política --bem alimentada por gabinetes de ódio de todo tipo, diga-se.

Medo, desespero e desinformação são armas poderosas em tempos de crise. Elas permitem o surgimento de teorias da conspiração que oferecem sentido às convicções, ainda que sem relação com os fatos. Na conta entram também as manias de perseguição e a crença na salvação pelo milagre, da cloroquina aos imunizantes naturais de quem, olha lá, nada até em rio poluído e não acontece nada.

Bolsonaro não é o primeiro a expor tais ideias. Mas é quem levou essas ideias mais longe. É o presidente que escreve errado por linhas tortas.

As armas usadas aqui para trazer eleitores, leitores e espectadores para a realidade são inócuas. Elas trazem no léxico palavras como genocídio, fascismo, nepotismo, crime de responsabilidade, xenofobia, conflito de interesses. O esforço em direção à palavra certa pra doutor não reclamar parece não mover sobrancelhas nos estratos preocupados apenas com a sobrevivência --e que, no auge da pandemia, vê no presidente um defensor de seus interesses quando ele diz que não se pode obrigar alguém a ficar em casa sem poder trabalhar. Ou quando esse presidente ora posa como o poderoso protetor dos oprimidos pelo lockdown, ora posa como vítima de perseguição dos poderosos e seus interesses.

Protocolos de combate à epidemia podem ter sido eficazes em diversos países. Aqui, as particularidades são outras, a começar pela informalidade do trabalho e por aspectos também culturais, que fazem boa parte da população esquecer dos riscos da aglomeração e lotar festas e bares com ou sem as recomendações da Organização Mundial da Saúde, entidade bombardeada por quem vende teimosia como soberania.

Tudo isso desemboca num quadro confuso como o desenhado pela pesquisa Datafolha divulgada neste domingo. O instituto mostra que, apesar de todos os esforços para liderar a corrida de pior liderança do planeta na gestão da pandemia, o governo Bolsonaro ainda tem a aprovação de 37% dos brasileiros, ante 32% que o consideram ruim ou péssimo. É ainda a pior avaliação de um presidente em primeiro mandato desde Fernando Collor, mas ainda assim é um sinal de resiliência e tanto.

Por ironia, 37% é também o número de brasileiros que dizem nunca confiar no presidente, contra 39% dos que confiam às vezes e 21% dos que confiam sempre. Não é motivo de regozijo, mas não deixa de espantar que 2 em cada 10 brasileiros acreditem que a pandemia esteja no finalzinho e que, se não estiver, ainda temos a cloroquina como salvação. Provavelmente acreditam também que churrasqueiros amigos da família foram parar por acaso no sítio do advogado da família ou que os esforços para estancar a sangria de investigações contra os filhos, com uso de equipamento e dinheiro público, sejam movidos por patriotismo.

Entre os brasileiros que confiam sempre em seu presidente, 35% são empresários --parte deles diretamente impactados pelas medidas de isolamento, que os impedem de abrir suas lojas, bares, restaurantes ou centros de serviço caso as autoridades estaduais, com quem Bolsonaro rivaliza, acentuem as restrições. Entre os empresários o governo Bolsonaro tem 56% de aprovação. Todos estão no corre para não deixar a fonte de renda secar.

A mesma pesquisa mostra que, para 52% dos entrevistados, o presidente não tem culpa nenhuma pelo total de mortos por coronavírus. Ele é apontado como um dos culpados por 38%, enquanto 8% dizem que ele é o principal culpado. Quantos deles sabem que, não fosse o Congresso, medidas como auxílio emergencial sequer sairiam do papel? Ou que parte dos recursos de combate à pandemia foi parar em projetos da primeira-dama?

O Brasil é um dos países onde mais se morre de coronavírus do mundo. Poucos se lembram dos prognósticos do governo de que a pandemia mal faria estragos por aqui, que seria como um vírus da gripe comum, que os estragos na economia seriam maiores do que no sistema de saúde, que dois ministros da área foram demitidos e o terceiro só está onde está porque é obediente e não contesta o chefe quando este manda boicotar os esforços de adversários políticos em torno da vacinação ou espalha mentiras sobre o imunizante no país onde só 73% pretendem se vacinar (contra 89% em agosto, quando a eficácia da produção não estava em xeque pelo presidente).

No caso da vacina chinesa, apenas 47% dos brasileiros dizem que pretendem tomá-la, contra 50% que se negam. O nome disso é preconceito e Bolsonaro pode até surfar na sinofobia, a rejeição a tudo o que vem da China. Mas não foi ele quem a inventou. Para entendê-la, é preciso resgatar o imaginário criado sobre os povos chineses desde Hollywood.

Em 2017, uma pesquisa do instituto Ipsos Mori, da Grã Bretanha, mostrou que num ranking de 38 países o Brasil ficava à frente apenas da África do Sul em capacidade de perceber a própria realidade em diversas questões.

É neste contexto que Bolsonaro e congêneres moldam não a realidade, mas a narrativa sobre a realidade, em canais próprios que não só desdenham dos filtros da ciência e dos fatos como os atacam diariamente. É o que permite negar os riscos da pandemia da mesma forma como se nega o racismo no país em que negros são estatisticamente a maioria dos mortos pela violência.

Não se pode dizer que Bolsonaro não tem sido bem-sucedido até aqui. Quatro em cada dez brasileiros estão fechados com ele. Pensam como ele e não se espantam com o que pensam.