Datafolha mostra que Bolsonaro conseguiu um feito

O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Andre Borges/NurPhoto (via Getty Images)

Um levantamento do jornal O Globo, publicado em 11 de maio, mostrou que oito de 12 líderes globais tiveram aumento da popularidade desde o início da crise do coronavírus. 

Na Alemanha, a moral de Angela Merkel com os eleitores cresceu 14 pontos e  Ela tinha 69% de aprovação em janeiro e, em meados de abril, o índice chegava a 83%.

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Em período similar, o presidente Alberto Fernandez, da Argentina, saltou de 50% para 67%.

Mesmo líderes polêmicos, como o premier Boris Johnson, da Grã Bretanha, melhoraram sua imagem junto ao público interno. Ele tinha 42% de aprovação em janeiro e em abril era bem avaliado por 66%.

Giuseppe Conti, da Itália, também saiu da lona dos 39% para 59%.

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No Brasil, o presidente eleito com 55% dos votos há menos de dois anos conseguiu um feito: em sua chance de unir o país, abandonou e foi abandonado por boa parte dos eleitores.

Na largada de seu governo, 65% dos entrevistados pelo Datafolha diziam que ele faria um governo ótimo ou bom.

Veio a realidade e, nas primeiras semanas da quarentena, o índice de aprovação era de 32%. Um ponto por cento a menos do que o número apontado na pesquisa mais recente divulgada pelo Datafolha, em 28 de maio.

À primeira leitura, o número de apoiadores parece revelar que Bolsonaro mantém a sua resiliência com um eleitorado cativo, mesmo tendo perdido três ministros, dois deles da Saúde, em um momento delicado da pandemia, no qual todas as suas apostas (era só uma gripezinha, não chegaria aqui com força, já estava indo embora e poderia ser curada com um medicamento já descartado por estudos científicos e a Organização Mundial da Saúde) foram moídas pelos fatos.

Nos detalhes, a situação se deteriora.

Num momento que pedia união e esforços conjuntos, Bolsonaro perdeu a confiança de eleitores que só esperavam um sinal dele para aderir ao grupo de apoiadores.

A chance de mostrar grandeza no momento histórico foi queimada com picuinhas, brigas internas, aposta na radicalização e passeios de jet ski. Isso sem contar o desdém com as vidas que começavam a ser pedidas com o famoso “e daí”. 

Hoje sua aprovação passa longe da de outros líderes globais. 

E a reprovação, que até outro dia figurava num empate triplo com o índice dos que o avaliavam seu governo como bom ou regular, já formou maioria. Hoje 43% dos eleitores o veem como ruim ou péssimo, mas o índice chega a 53% entre os que assistiram ao menos um trecho da reunião com seus ministros do dia 22 de abril. 

Não é a tragédia que até mesmo aliados esperavam diante da condução errática da crise. Mas a pesquisa mostra que o presidente está longe de respirar aliviado -- ainda mais quando um inquérito do Supremo Tribunal Federal já ameaça asfixiar sua claque virtual.

No momento em que o país contabiliza mais de mil mortes por dia na pandemia, a maioria dos brasileiros (52) diz que Bolsonaro não tem capacidade de liderar o país (contra 45% dos que dizem contrário) e 44% afirmam não confirmar nunca nas declarações do presidente. Outros 32% dizem confiar apenas às vezes, contra 21% dos que confiam sempre.

Também é alto o número dos que afirmam que o presidente nunca se comporta de forma adequada: 37%. Apenas 13% dizem o contrário.

Está certo que o presidente se esforçou bastante para sair assim na foto. 

Sob Luiz Henrique Mandetta, o Ministério da Saúde de seu governo era bem avaliado por 76% dos brasileiros em meados de abril. Mandetta caiu, Nelson Teich entrou, caiu também, e hoje a pasta tem índice de 45% de ótimo/bom -- ainda assim, bem acima dos 27% de aprovação de Bolsonaro na condução da crise.

Nas regiões mais populosas, e mais afetadas pela pandemia, como o Sudeste e o Nordeste do país, 52% avaliam o trabalho do presidente no combate ao coronavírus como ruim ou péssimo (índice que chega a 62% entre os mais ricos e 57% entre os mais instruídos).

Para 53% dos entrevistados, Bolsonaro é de alguma forma responsável pela curva de infecção do coronavírus (“muito responsável” para 33%) que transformou o país em pária sanitário na comunidade internacional e levou o presidente dos EUA, Donald Trump, a fechar as portas aos brasileiros. 

No dia em que a Polícia Federal bateu na casa de apoiadores suspeitos de financiar e serem financiados em um suposto esquema criminoso de fake news, ele preferiu subir o tom contra o Supremo e amarrar uma cenoura com um cordão à frente de seu possível acusador, o procurador-geral da República, Augusto Aras, aventando a possibilidade de indicá-lo a ministro da Corte -- isso, reiterou, se nenhum integrante atual do Supremo “desaparecer”.

Para bom entendedor, meio ato falho basta.

Quem observa os números de longe imagina que Bolsonaro manteve a fidelidade da base que o elegeu em torno dos 30%. Não é verdade.

Quase um terço de seus apoiadores atuais sequer votaram no ex-capitão em 2018. Desses, mostra o Datafolha, a maioria entrou com pedido de auxílio emergencial (aquele que, se dependesse de sua equipe econômica, seria de minguados R$ 200, e não R$ 600, como acertado com o Congresso).

Se dependesse apenas da satisfação de seus eleitores, o apoio de Bolsonaro estaria hoje em torno de 22%.

Há uma mudança, portanto, na base de seu eleitorado fiel, como já sinalizava a pesquisa anterior. E uma rejeição que se cristaliza entre quem manifestava neutralidade em relação a seu governo até outro, dia.

Na pandemia, Bolsonaro mirou o discurso em parte do eleitorado que não foi ou não se sente atingido pela pandemia e acredita que a hecatombe sanitária será menor do que a econômica. Entre os que dizem estar levando uma vida normal nesta quarentena, 53% aprovam a gestão Bolsonaro, e 22% a reprovam. Já entre os que estão tomando cuidados, mas ainda saindo de casa, a aprovação fica em 40%, enquanto os que dizem estar totalmente isolados a aprovação cai para 24% e a reprovação fica em 50%.

No dia seguinte à pesquisa, o IBGE divulgou que o tombo na atividade econômica chegou a 1,5% do PIB no primeiro trimestre, que se encerrou ainda no início da pandemia.

Até aqui, o efeito mediato da ação do Supremo contra o suposto gabinete do ódio montado no Planalto só foi observado nas redes, o seu território preferencial. Segundo a colunista Mônica Bergamo, a partir de dados da consultoria AP Exata, a atuação dos perfis ligados no bolsonarismo despencou. É como se a ação do STF tivesse atingido o sistema de disseminação de informações infladas por esses perfis.

No Twitter, Bolsonaro teve mais menções negativas do que positivas (53% a 47%).

A aposta é que, sem a atuação desses perfis, Bolsonaro terá mais dificuldade de imprimir sua própria narrativa nas redes, onde tem nadado de braçada desde antes da campanha eleitoral.

Os gritos na frente do Planalto dizendo “basta” podem não ser demonstração de força, e sim de desespero.