Datafolha: o que explica a queda de rejeição de Jair Bolsonaro?

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    38.º presidente do Brasil
SAO PAULO, BRAZIL - AUGUST 12: President of Brazil Jair Bolsonaro (R) and Brazil's former President Michel Temer, designated to represent Brazil in the mission to help Lebanon, stand the plane's door during a visit to BASP (Sao Paulo Air Base) to accompany the Brazilian delegation's departure to Lebanon on August 12, 2020 in Sao Paulo, Brazil. Last week, an explosion in the port area of Beirut, the capital of Lebanon, left at least 160 dead and thousands injured. The delegation's mission is to deliver food, medicine and hospital supplies, including 100,000 surgical masks and mechanical respirators. (Photo by Alexandre Schneider/Getty Images)
Jair Bolsonaro e o antecessor, Michel Temer. Foto: Alexandre Schneider/Getty Images

Pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira 13 mostrou que o presidente Jair Bolsonaro atingiu sua melhor avaliação desde o início do mandato. Na semana em que o país ultrapassou a marca dos 100 mil mortos por coronavírus, a avaliação positiva do presidente cresceu cinco pontos em relação ao último levantamento, realizado no fim de junho.

A rejeição caiu dez pontos, de 44% para 34%.

No levantamento anterior, ainda estampavam nas manchetes a prisão de Fabrício Queiroz, o ex-faz tudo dos Bolsonaro preso na casa do advogado da família em Atibaia (SP), e a fuga do ex-ministro da Educação Abraham Weintraub para os EUA. O Brasil atravessava o terceiro mês da pandemia com interinos da Saúde e da Educação e ainda digeria a saída de Sergio Moro, um dos pilares de um governo que se remodelava em meio a uma guerra de versões sobre interferência ou não na Polícia Federal.

Diferentemente da pandemia, o inferno astral do presidente, que ainda contraiu covid-19 entre uma pesquisa e outra, havia atingido o auge no fim de junho, e não o platô.

O que mudou?

Algumas hipóteses:

O alcance do auxílio emergencial

Pesquisas anteriores já apontavam que a base de apoio do presidente estava em processo de mutação. Bolsonaro deve isso ao Congresso, que rejeitou de pronto a proposta da equipe econômica de distribuir, aos grupos impactados pela crise sanitária e econômica, raquíticos R$ 200 em auxílio emergencial. Deputados bateram na mesa e sugeriram que o auxílio fosse de R$ 500. Prestes a ser dobrado, o governo trucou e elevou o auxílio a R$ 600. O auxílio removeu temporariamente da extrema pobreza 72% dos domicílios brasileiros nesta situação, segundo o Ministério da Economia. Estima-se que mais de 4,2 milhões de mulheres negras tenham saído da miséria com o programa emergencial.

Nas rodas de conhecidos, é comum ouvir relatos de pessoas em situação precária que conseguiram desafogar a situação graças à “ajuda do Bolsonaro”.

Entre os que receberam o pedido, 42% avaliam o governo como ótimo ou bom -- entre os que não precisaram do recurso, o índice é de 36%.

No Nordeste, um reduto da oposição, 45% dos moradores foram contemplados pelo benefício -- 5% a mais do que a média nacional. E a a rejeição a Bolsonaro caiu de 52% para 35% na região, segundo o Datafolha.

Essa é a boa notícia para Bolsonaro. A má é que parece cada vez mais claro que sua popularidade cresce quanto mais se afasta do ideário de Paulo Guedes. O desempenho político e eleitoral do presidente, já pensando em 2022, passa pela transformação do auxílio emergencial em renda básica. Dos entrevistados, 44% dizem que esta é hoje sua única fonte de renda, e 53% afirmam que ela é usada para comprar alimentos.

Os conflitos entre a ala desenvolvimentista, que quer ampliar gastos também com obras, e a ala capitaneada pelo (aparentemente ex) superministro da Economia são evidentes, e explicam a debandada de dois secretários durante a semana.

Mudança de postura?

Há quem atribua o renascimento do presidente a um paradoxo. Ele sai melhor na foto quando se cala. Essa é antes uma sugestão do que um fato mensurável, embora esteja desenhada em falas recentes de seus porta-vozes, do centrão ao primogênito Flávio Bolsonaro, que jura não querer mais briga. Em entrevista recente, o senador, alvo de investigação no caso das rachadinhas, garantiu que essa postura de distensionamento do pai “não vai ser provisória”. “Ele está consciente de que isso é importante e quer manter um diálogo aberto com todos. Menos atritos com o STF, com o Legislativo... Rusgas são muito ruins. Ninguém quer uma ruptura”.

Conversa ou conversão?

Bolsonaro pode até não aparecer mais em ato declaradamente golpista, mas não deixou de falar bobagens, como quando mandou um país inteiro tocar a vida quando os mortos na pandemia chegaram a 100 mil.

Amarrado ao centrão, Bolsonaro segue convicto de seu terraplanismo sanitário, jogando os corpos no colo de governadores, dizendo-se perseguido pela mídia e pelo “sistema” e insistindo na ideia de que só morreu esse tanto de gente porque esse tanto de gente não tomou cloroquina, como ele.

Ele faz isso enquanto terceiriza a gestão para os profissionais, satisfeitos com os cargos de segundo escalão, com muita verba e pouca visibilidade, muda o comando do Congresso, cumpre agenda de inaugurações pelo Brasil, vê o gabinete do ódio desmilinguir e promete respeitar o teto de gastos enquanto abre a carteira para os novos aliados. Agora até Michel Temer recebe afagos. Em troca de…? Fica para os próximos capítulos.

Bolsonarismo-raiz

Com ou sem Sergio Moro, com ou sem ataques a Lava Jato, com ou sem Paulo Guedes, o bolsonarismo dá sinais de resiliência mesmo sem os tripés que, dizia-se, o sustentariam até aqui. À medida que se transforma naquilo que sempre atacou -- um político comum, que precisa negociar para governar -- Bolsonaro segue falando com uma parcela da população que, desde o princípio, criou ojeriza à ideia de isolamento social. Em outros países, lideranças que tomaram medidas duras neste sentido viram a popularidade crescer.

No Brasil, Bolsonaro parece ter mantido o apoio tanto do trabalhador informal, que fora das ruas não se sustenta, quanto do empresariado -- esquece o bilionário da capa de revista; o empresário que mais se identifica com o bolsonarismo hoje é o que perdeu os cabelos diante da possibilidade de fechar seu pequeno comércio, como academias e barbearias, durante a quarentena. Bolsonaro comprou a briga deles ao peitar os governadores, que levaram a dupla pecha de inimigos dos comerciantes e empreendedores e de incompetentes em brecar o avanço do vírus.

Ainda em abril, o Datafolha mostrou que 46% dos brasileiros defendiam a volta ao trabalho, contra 37% no início de abril. É uma parcela sedenta para cair no colo de quem os defenda, ao menos no discurso. Seria interessante saber como anda este índice após cinco meses de isolamento e cansaço.

Oposição? Que oposição?

Antes do último levantamento, institutos de pesquisa já apontavam queda de apoio de governadores. No início da crise, quando São Paulo estava mais perto do lockdown do que do relaxamento observado hoje, João Doria despontava como a grande referência anti-Bolsonaro. Aos poucos essa imagem foi se desbotando, por razões que ainda precisam ser mais bem avaliadas. Em parte do eleitorado, colou a conversa bolsonarista de que gestores municipais e estaduais se aproveitavam da crise para drenar recursos públicos com compras emergenciais e sem licitação. Os maus exemplos corroboraram o discurso. No Rio, Wilson Witzel está no bico de um processo de impeachment após uma devassa realizada pela Polícia Federal, que ainda bateu às portas de opositores no Pará e em São Paulo.

Em tempo

Bolsonaro deixou de ser o presidente mais mal avaliado a essa altura do mandato -- o troféu agora é de Fernando Collor. Mas é ainda o presidente em quem 76% dos brasileiros nunca confiam ou confiam só às vezes. Pouco, muito pouco, para o desafio histórico de reconstruir um país após a hecatombe da covid-19.

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