Datafolha: por que Bolsonaro patina e (ainda) não colhe efeitos da PEC Kamikaze?

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Bolsonaro e os neoaliados do centrão, Arthur Lira e Ciro Nogueira à frente; presidente não colheu nesta Datafolha os frutos da aliança e aprovação da PEC Kamikaze. Foto: Adriano Machado/Reuters
Bolsonaro e os neoaliados do centrão, Arthur Lira e Ciro Nogueira à frente; presidente não colheu nesta Datafolha os frutos da aliança e aprovação da PEC Kamikaze. Foto: Adriano Machado/Reuters

Desde a divulgação da pesquisa Datafolha de junho, Jair Bolsonaro (PL) abriu uma espécie de caixa de ferramentas para tentar reverter na marra a vantagem de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na preferência dos eleitores.

Entre os artefatos estavam a redução de impostos dos combustíveis e a bomba contida na PEC Kamikaze, que rasgou a legislação eleitoral e o arcabouço fiscal para distribuir R$ 41 bilhões em benefícios como a ampliação do Auxílio Brasil (de R$ 400 para R$ 600), o vale-gás e um auxílio para caminhoneiros.

O pacote de boas notícias praticamente não alterou o cenário apurado pelo Datafolha há pouco mais de um mês. De lá para cá, Lula manteve 47% das intenções de voto e Bolsonaro oscilou apenas um ponto para cima, chegando agora a 29%.

Veja como foram as últimas pesquisas eleitorais de 2022:

Quem vinha (bem) atrás ficou praticamente na mesma, o que dá à atual pesquisa a sensação de déjà vu. Ciro Gomes (PDT) segue com os mesmos 8% de junho. Simone Tebet (MDB) tem 1%.

Todos os candidatos estão oficialmente na pista da sucessão. Pelos votos válidos, Lula já soma 52% e poderia vencer já no primeiro turno. (A vantagem do petista em um eventual segundo turno é de 20 pontos percentuais — 55% a 35%).

A próxima pesquisa, de agosto, deve radiografar com mais precisão o impacto das benesses governistas no bolso dos eleitores.

O que começa agora é uma corrida contra o relógio. Bolsonaro terá menos de três meses para mostrar aos eleitores, por meio da campanha oficial e a propaganda na TV, as suas digitais no pacote de bondades e mudar a rejeição dos 53% dos eleitores que não votariam nele de jeito nenhum.

Em relação à penúltima pesquisa, o atual presidente cresceu três pontos percentuais entre a fatia dos que ganham até 2 salários mínimos –faixa correspondente a 53% dos eleitores. Mas segue comendo poeira nesse segmento. Soma 23% das preferências, contra 54% do rival petista.

O que deu errado, até agora, nos planos de Bolsonaro?

A resposta é complexa –mais do que sugere o capitão e seu estafe.

Em seus tempos de deputado, Bolsonaro se referia a programas de distribuição de renda, como o Bolsa Família, como “bolsa-farelo” e instrumento para "voto de cabresto".

Uma vez na presidência, ele não deixou de pensar o que pensa sobre política distributiva; apenas pensou que podia usá-la em seu favor.

Só que a lógica do eleitor não funciona como pensa o capitão. Seja o eleitor que ganha até dois salários mínimos ou de dez a mais. É isso o que as pesquisas (e o histórico das eleições) apontam e Bolsonaro não parece compreender.

Quando a campanha esquentar, cada nova medida do pacote de benefícios anunciado pode ser desconstruída pelos adversários a postos para apontar o caráter oportunista de quem só se preocupou com as camadas mais vulneráveis da sociedade –os que mais sofreram na pandemia, os que mais sofrem com a inflação, com os efeitos do aquecimento global e com a precariedade do mercado de trabalho – quando percebeu que poderia perder a eleição. As benesses tem data e hora para acabar.

Há um grande ponto de interrogação a partir de janeiro de 2023 e os eleitores sabem disso. Isso contribui para a má avaliação do governo, que chega hoje a 45% de ruim e péssimo.

Bolsonaro pouco cresce para além de sua base porque já não existe a confiança de que em algum momento desse último semestre que lhe resta do mandato ele vai apresentar o que prometeu na campanha de 2018: o combate implacável à corrupção, o fim das relações fisiológicas com o Congresso, um ministério de notáveis (e não de lunáticos), sem espaço para delírios autoritários e ideológicos. Nada disso ele entregou.

Hoje parece piada, mas houve um tempo em que se acreditava que Bolsonaro poderia ser moderado por sua equipe.

Julho de 2022 foi o mês em que Bolsonaro apresentou seu pacote de bondades, é verdade.

Mas no período ele também mostrou que não se importa com a segurança de ativistas e protetores da floresta, que tem ascendência sobre malucos armados dispostos a matar em seu nome, que pretende jogar fogo no parquinho caso as eleições não sejam tuteladas pelas Forças Armadas (leia-se ele, seu líder supremo).

Os sinais em direção às urnas apontam que Bolsonaro cansou e cansou os eleitores, sobretudo os que ainda podem se organizar para assinar manifestos defendendo um pouco de paz e civilidade até pelo menos outubro. Não é pedir muito. Ou não deveria ser.

Bolsonaro deixou um país inteiro com déficit de normalidade e cansado de ameaças. É isso o que as pesquisas apontam no momento.

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