Bolsonaro não errou nenhuma? Não é o que mostra o Datafolha

Matheus Pichonelli
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A person gestures out of a car's window as supporters of Brazil's President Jair Bolsonaro protest against the quarantine measures, amid the coronavirus disease (COVID-19) outbreak, in Sao Paulo, Brazil May 17, 2020. REUTERS/Amanda Perobelli     TPX IMAGES OF THE DAY
Foto: Amanda Perobelli/Reuters

Se as 2.798 mortes reportadas nas últimas 24 horas não serviram para franzir a testa de Jair Bolsonaro, a pesquisa Datafolha divulgada na noite de terça-feira 16 talvez cause algum arrepio ao presidente que não errou nenhuma ao longo da pandemia.

O levantamento mostrou que mais da metade da população (54%) já avalia como ruim ou péssima sua gestão de combate ao vírus - seis pontos percentuais a mais do que o registrado em janeiro.

Somam 22% os que acham que está tudo certo. Mantida assim, a distância entre uns e outros pode custar o que mais importa para o presidente desde que assumiu: a reeleição.

A estratégia de proibir no governo a discussão de medidas de isolamento e atacar prefeitos e governadores por tudo o que aconteceu até aqui já não cola. Para 43% dos brasileiros, ele é o maior culpado pela fase aguda da crise, contra 17% dos que apontam o dedo para governadores e 9%, para os prefeitos.

A cada dia que passa fica mais difícil dissociar a gestão da crise da avaliação do próprio governo, hoje aprovado apenas por 30%. O índice dos que consideram sua administração ruim ou péssima é de 44%.

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A essa altura do primeiro mandato, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff tinham números melhores. Bolsonaro só ganha de Fernando Collor, que nessa fase do governo já se encaminhava para o abate do impeachment.

Os números do Datafolha mostram que são minoritários, embora barulhentos, os brasileiros dispostos a sair às ruas em defesa do capitão que em novembro chamou de “conversinha” a possibilidade de haver uma segunda onda de contaminações por covid.

Meses depois, o país enfrenta hoje o pior momento da pandemia, aproximando-se das 3 mil mortes diárias e tirando de cena um dos últimos grandes panos que apoiadores usavam para limpar a barra do governo: o número de mortos por milhão de habitantes.

Numericamente o Brasil é o segundo país onde mais se morre pelo “resfriadinho” que não causaria mal às populações da região Norte porque a população estaria “vacinada” com a cloroquina.

O primeiro país em números absolutos ainda são os EUA, onde a carnificina se tornou o maior legado da gestão Donald Trump. Lá, porém, os índices de mortes e contaminação estão em queda desde que o país tirou da presidência, pelo voto, seu negacionista-mor. Em março, a média móvel de novos casos de Covid-19 diminuiu 74,9% em comparação ao pico registrado em janeiro.

Por aqui, a queda de braço entre achismo e razão não oferece perspectiva nem de melhora significativa da economia, pilar onde Bolsonaro se apoia, nem do fim do morticínio. Dados da Fiocruz apontam que o país já atravessa o maior colapso sanitário e hospitalar da sua história.

Experiências internacionais mostram que, na ausência de um plano de vacinação em massa, medidas drásticas de isolamento social são a única ferramenta capaz de derrubar o número de contaminados. É o que perceberam os gestores municipais que, no momento mais crítico, deixaram de ouvir os panelaços para dar ouvido aos cientistas. E viram, afinal, o número de internações cair.

No plano federal, a preocupação é outra, como relatou a médica cardiologista Ludhmila Hajjar após ser cogitada para assumir o Ministério da Educação. “Se você fizer lockdown no Nordeste vai me foder e eu perco as eleições”, teria dito o comandante.

Prioridades são prioridades.