Datafolha derruba mito de 'país dividido' após cenas de terror em Brasília

A view shows the damage caused following Brazil's anti-democratic riots, at the Supreme Court building in Brasilia, Brazil, January 10, 2023. REUTERS/Amanda Perobelli
Foto: Amanda Perobelli/Reuters

Pesquisa Datafolha feita logo após o quebra-quebra promovido por bolsonaritas radicais nas sedes dos Três Poderes em Brasília, no último domingo (8/1) mostra o que já havia percebido quem acompanhou a repercussão das agressões via redes sociais: a ação foi um fracasso de crítica e público.

A ponto de os mais encarnados bolsonaristas irem a público negar o óbvio: que os radicais alimentados e dispostos a ir para a luta em nome de Bolsonaro eram, na verdade, opositores infiltrados. Uma história que não para de pé, mas repetida à exaustão com ajuda de fotomontagens (algumas) e fake news (muitas).

Segundo o instituto, 93% dos brasileiros condenam a invasão promovida pelos radicais.

Para 46%, todas as pessoas que participaram dos atos de vandalismo devem ser presas – outros 41% defendem a medida para a maioria ou pelo menos para alguns dos vândalos.

(Só 42%, no entanto, acreditam que haverá penas duras contra a turba).

A grande maioria (77%) dos entrevistados quer também a prisão de financiadores dos atos.

Para quem imaginava que a reação do governo federal e do Judiciário contra os criminosos havia sido desproporcional, a pesquisa apontou que 82% dos brasileiros apoiam a intervenção federal na segurança do Distrito Federal; outros 39% acham que Lula (PT) fez o que deveria ser feito – 37% acham que deveria ter feito até mais.

A maioria dos entrevistados acredita que tanto o governador Ibaneis Rocha (MDB-DF), afastado do cargo por ordem do STF, quanto as forças de segurança locais fizeram menos do que deveriam para conter os atos – 61% e 63%, respectivamente.

Após os atos, a pedido da Polícia Federal, o STF determinou a prisão do secretário de Segurança do DF, o ex-ministro da Justiça Anderson Torres, e do comandante da PM no dia da ação.

Pelo visto, os detidos pela balbúrdia podem continuar compartilhando aos montes os vídeos de sua situação durante a triagem até a carceragem da PF: a maioria dos brasileiros não se comove e quer punição para eles.

Vão ter que inventar mais fakes sobre velhinhas mortas no caminho da carceragem para amolecer algum coração.

A pesquisa pode modular a ação de deputados da própria base bolsoarista, que correm o risco de se queimar na fogueira da opinião pública caso saiam em defesa de seus seguidores mais radicais.

Eles se tornaram tóxicos demais para merecer defesa pública, embora (e isso seja sempre bom ressaltar) mereçam, como todos os brasileiros, passar por todos os crivos do devido processo legal. Aquele papo de direitos humanos que o chefe da turba dizia só servir como esterco.

A contundente rejeição manifestada pela opinião pública aos atos de terror só pode ser aferida, na mesma semana da tentativa frustrada de golpe, porque os criminosos não tiveram sucesso em sua jornada.

Se o golpe tivesse dado certo, uma das primeiras vozes a serem caladas era justamente a da maior parte da população, expressa em institutos como o Datafolha – alvo de radicais bolsonaristas antes, durante e depois da campanha.

Durante anos, a ditadura militar vendeu por aí, com base em fotografias da mobilização de uma minoria barulhenta, a ideia de que o golpe de 1964 contou com amplo apoio dos brasileiros.

Com os anos, e os dados disponíveis mas ofuscados já na época, soube-se que esse apoio não passava de uma mentira.

A tentativa frustrada de golpear a democracia conseguiu, até aqui, reunir a classe política e a comunidade internacional em torno do governo Lula e do Judiciário.

É graças à liberdade e aos pilares da democracia, valores atacados no domingo, que o repúdio à violência pode agora ser impresso (e auditado) pelas pesquisas de opinião.