Datafolha e Ipec explicam guinada de Bolsonaro na última hora: 'voto útil'

Segundo o Datafolha, Lula tinha 50%; de acordo com o Ipec, alcançava 51%. A margem de erro era de dois pontos percentuais para mais ou menos. O ex-presidente passou para o segundo turno com 48,4%. (Foto: Editoria de Arte/Yahoo Notícias)
Segundo o Datafolha, Lula tinha 50%; de acordo com o Ipec, alcançava 51%. A margem de erro era de dois pontos percentuais para mais ou menos. O ex-presidente passou para o segundo turno com 48,4%. (Foto: Editoria de Arte/Yahoo Notícias)

Os resultados do primeiro turno das eleições presidenciais mostram que os principais institutos de pesquisa do Brasil indicaram corretamente tendências importantes, que se confirmaram ao longo da disputa.

Ao mesmo tempo, algumas movimentações de última hora não foram captadas pelos institutos, já que as mais recentes pesquisas do Datafolha e do Ipec foram realizadas na sexta (30) e no sábado (1º) —e o pleito, como se sabe, ocorreu no domingo (2).

Datafolha e Ipec apontaram Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na liderança e Jair Bolsonaro (PL) em segundo lugar. Ambos muito à frente do segundo grupo, formado por Simone Tebet (MDB) e Ciro Gomes (PDT).

Os institutos também indicaram uma probabilidade importante de haver segundo turno na corrida para o Planalto, o que, de fato, ocorreu.

Segundo o Datafolha, Lula tinha 50%; de acordo com o Ipec, alcançava 51%. A margem de erro era de dois pontos percentuais para mais ou menos. O ex-presidente passou para o segundo turno com 48,4%.

A distância é maior, porém, quando considerados os votos em Bolsonaro. No Datafolha, o atual presidente registrou 36%; no Ipec, 37%, com mesma margem. Nas urnas, ele conquistou 43,2%.

"Pesquisa não é prognóstico. Cada pesquisa é a fotografia de um determinado momento. O resultado final é só na urna", diz Luciana Chong, diretora do Datafolha, que refuta a tese de ter acontecido algum tipo de erro metodológico.

"As pesquisas eleitorais medem a intenção de voto no momento em que são feitas. Quando feitas continuamente ao longo do processo eleitoral, são capazes de apontar tendências, mas não são prognósticos capazes de prever o número exato de votos que cada candidato terá", declarou a direção do Ipec em nota.

Segundo Chong, é bastante provável que tenha emergido nessas horas finais um voto útil pró-Bolsonaro oriundo dos eleitores que antes declaravam preferência por Simone Tebet e, principalmente, por Ciro Gomes. O temor de que Lula fosse eleito no 1º turno pode, segundo ela, ter contribuído para esse comportamento.

"Ao longo de toda a campanha, o Ciro ajudou a alimentar o antipetismo. Mas na hora do voto, parte dos eleitores movidos por esse aspecto desistiram dele e escolheram Bolsonaro", diz Chong.

A hipótese faz sentido quando observamos os números do candidato do PDT. A última pesquisa do Datafolha mostrou Ciro com 5%. Concluída a votação, ele ficou com 3%.

Além disso, lembra Chong, 13% dos entrevistados disseram ao Datafolha que poderiam mudar de voto. É provável que a maior parte desse grupo tenha votado no atual presidente.

Outro aspecto importante da movimentação de última hora, apontado em comentário na GloboNews por Mauro Paulino, ex-diretor do Datafolha, é que o primeiro turno de 2022 teve a menor taxa de brancos e nulos dos últimos pleitos.

"Especificamente com relação a estas eleições presidenciais, nossa última pesquisa mostrou que não era possível afirmar se a eleição acabaria ou não no primeiro turno. Assim se confirmou. A pesquisa Ipec apontava Lula como o candidato que ficaria melhor posicionado no 1º turno. Isto também se confirmou", afirmou a direção do Ipec em nota.

Ainda segundo o Ipec: "Já o presidente Jair Bolsonaro obteve 6 pontos a mais do que a pesquisa mostrava. Em nossa avaliação, isto ocorreu por tendências também já apontadas pela pesquisa: 3% que ainda estavam indecisos; Ciro Gomes, que na pesquisa aparecia com 5% e obteve 3% dos votos na apuração; além do índice de Simone Tebet que também ficou um ponto abaixo do que a pesquisa mostrava (obteve 4% na apuração vs. 5% na pesquisa). Tais fatores já demonstravam uma provável migração de votos desses dois candidatos para Jair Bolsonaro".

O cientista político Alberto Carlos de Almeida, autor do livro "A Mão e a Luva - O que Elege um Presidente" (ed. Record), faz avaliação semelhante à de Luciana Chong.

"Uma hipótese para essa diferença de Bolsonaro das pesquisas para as urnas são os votos de última hora dedicados a ele, votos que antes estavam sendo declarados em Tebet ou Ciro. Tanto que esses dois obtiveram nas urnas um pouco menos do que apareciam no último Datafolha e no último Ipec", afirma Almeida.

De acordo com o cientista político, como a pesquisa é divulgada com muita proximidade da apresentação dos resultados oficiais, são poucos entre aqueles que acompanham a disputa eleitoral que imaginam a chance de mudanças expressivas na última hora, mas essas alterações podem, sim, acontecer.

SÃO PAULO

No caso da disputa pelo governo paulista, o Datafolha de sábado (1º) mostrou Fernando Haddad (PT) com 39%; segundo o Ipec, ele tinha 41%. O candidato petista passou para o segundo turno com 35,7%.

Tarcísio de Freitas (Republicanos), por sua vez, obteve 31% no Datafolha e no Ipec. Nas urnas, ele conquistou 42,3%.

De acordo com Chong, muito provavelmente o eleitor que até então declarava voto em Rodrigo Garcia (PSDB) decidiu mudar para Tarcísio na última hora, também impulsionado pelo antipetismo -no caso nacional, um movimento contra Lula; no estadual, contra Haddad.

O Datafolha já havia identificado na mesma pesquisa que o eleitor de Garcia era o mais propenso a escolher outra opção -31% admitiam mudar de voto. No caso de Tarcísio e Haddad, o percentual era de 23%. Havia ainda um percentual importante de indecisos (8%).

RIO DE JANEIRO

O Datafolha apontou Cláudio Castro (PL) com 44% dos votos válidos. No Ipec, ele apareceu com 47%. Fechadas as urnas, o atual governador fluminense conquistou 58,6%.

Marcelo Freixo (PSB) obteve 31% dos votos válidos no Datafolha e 28% no Ipec. O resultado final mostrou o candidato como 27,3%.

"No caso do Rio, há um problema territorial, com situações de intimidação nas áreas dominadas pelas milícias. Em São Gonçalo, por exemplo, uma pesquisadora foi ameaçada por milicianos", afirma Luciana Chong, do Datafolha.

Um dado chama a atenção na pergunta espontânea de voto no Rio, quando o Datafolha não apresenta o cartão com os nomes dos candidatos. Segundo o instituto, 35% estavam indecisos, o que revela a consolidação do voto de parte expressiva dos eleitores apenas na reta final do 1º turno.

AGRESSÕES

A diferença entre os números da pesquisa e os da votação, que em maior ou menor grau acontece em todas as eleições, tem sido usada como pretexto para o presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores atacarem os institutos, com o objetivo de coibir sua atuação e a divulgação de informações.

"Eu acho que se desmoralizou de vez os institutos de pesquisa", afirmou o presidente ao ser questionado sobre se houve fraudes nas urnas, após o resultado ter sido divulgado pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral). "Isso tudo ajuda a levar voto para o outro lado. Isso vai deixar de existir, até porque eu acho que não vão continuar fazendo pesquisa."

"Depois do escândalo que cometeram, todos os eleitores do presidente Bolsonaro só tem (sic) uma resposta às empresas de pesquisa: não responder a nenhuma delas até o fim da eleição!", tuitou Ciro Nogueira (PP), ministro da Casa Civil.

Para a diretora do Datafolha, os ataques recorrentes de Bolsonaro aos institutos de pesquisa, que criaram um clima de hostilidade em relação a eles, com casos de agressões a pesquisadores, podem ter tido "alguma influência" no levantamento mais recente.

No último dia 20, um pesquisador do Datafolha foi agredido com chutes e socos por um bolsonarista em Ariranha (a 378 km de São Paulo), em uma escalada de hostilidade contra profissionais do instituto em meio ao processo eleitoral. Relatos de pessoas que passam gritando, acusando o instituto de ser comunista ou tentando filmar os entrevistadores como forma de intimidá-los têm sido comuns.

"Orientamos e apoiamos todos os nossos pesquisadores que estão nas ruas, mas é possível que existam situações em que eles tenham ficado intimidados na hora de abordar um determinada pessoa", afirma ela. "Sem essa hostilidade, talvez a gente [Datafolha] tivesse conseguido captar melhor o aumento do Bolsonaro nessa reta final".

da Folhapress