Bolsonaro tem dois grandes entraves para 2022. Lula e seu governo

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Brazilian President Jair Bolsonaro speaks during the 'Socio-environmental Actions and Adherence to the Adopt a Park Programme' event at Planalto Palace in Brasilia, on May 12, 2021. (Photo by Sergio Lima / AFP) (Photo by SERGIO LIMA/AFP via Getty Images)
O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Sergio Lima/AFP (via Getty Images)

Seu Aníbal, velho amigo da família, é daqueles que vê numa crise um leque de oportunidades —assim mesmo, no plural. Uma delas é a de transformar o risco projetado em estrago contido. Para ele, prejuízo baixo diante das circunstâncias é lucro.

O seu Aníbal nunca foi ouvido em pesquisas qualitativas nem foi consultado sobre estratégias políticas em Brasília. Deveria.

Bom observador, ele entende algumas coisas e não outras. Não entende, por exemplo, como um presidente com 35% de aprovação com pouco mais de um ano de mandato não conseguiu interpretar os sinais das pesquisas de opinião da época e finalmente decolar.

Uma delas, divulgada pelo Datafolha em 3 de abril de 2020, dava ao chefe do Executivo 33% de ótimo/bom em sua condução da pandemia. Era menos da metade da moral do Ministério da Saúde, então sob comando de Luiz Henrique Mandetta: 76%.

O seu Aníbal nunca entendeu por que Jair Bolsonaro rifou seu ministro dias depois. Seu Aníbal nunca leu Freud nem Maquiavel, mas acredita que a explicação para a fritura passe antes pelo pai da psicanálise do que da ciência política.

Seu Aníbal nunca entendeu também por que Bolsonaro decidiu rivalizar com os governadores, que em geral tinham a aprovação de 58% da população. Eles estudavam medidas de isolamento social enquanto o presidente passeava de jet ski e estimulava aglomerações. Era o exato oposto do que os chefes de Estado mais preparados faziam. Muitos deles saíram maiores da crise. Bolsonaro, não.

O velho amigo desconfia que o Brasil não chegaria a 430 mil mortes por coronavírus se o presidente tivesse compreendido os sinais lá atrás. Ele nunca caiu na conversa economia x vidas. Sabe dos prejuízos no bolso da família se ele caísse de cama, adoecido, durante três ou quatro semanas. Ele sabe fazer as contas e multiplicar por 15 milhões no placar de recuperados. Dos mortos ele nem arrisca.

Seu Aníbal conhece alguns apoiadores do presidente.

Não são poucos. Ele sabe que, numa roda de conversa, pode falar o que quiser do pai e da mãe dos cidadãos, mas não se arrisca a desabonar o capitão diante deles. Ao primeiro sinal de Bolsonaro, estima que eles entrariam no armário, trancariam as portas, defenderiam o uso de máscaras e o distanciamento social a plenos pulmões; só sairiam de lá quando o vírus estivesse extinto.

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Bolsonaro preferiu usar a moral com a tropa para mandá-los ao massacre. Alguns desertaram quando os primeiros parentes e amigos próximos, convencidos de que era só uma gripezinha que estava no finzinho e que não cairiam em conversinha, se infectaram. Nem todos voltaram do hospital.

Desconfiado, seu Aníbal ficou em casa. A imunização de rebanho era a tática do abate.

Os estrategistas do Planalto talvez estranhem por que Bolsonaro chega a maio de 2021 com 24% de aprovação no Datafolha e por que um ex-presidiário, como os fãs do capitão se referem ao ex-presidente Lula, teria chances reais de ser vencer em primeiro turno se a eleição fosse hoje. Segundo o instituto, o petista lidera a corrida com 41% das intenções de voto no primeiro turno, contra 23% do presidente e sua máquina de governo. No segundo turno, o placar se dilataria para 55% contra 32%.

Seu Aníbal sabe que tem muita água (suja) para correr até lá. Mas o atual estado das coisas para ele é tão claro quanto matemática.

Ele faz as contas. Enquanto oito em cada dez brasileiros manifestavam o desejo de se vacinar, Bolsonaro mandava eleitores comprarem imunizantes na casa da mãe. O seu Aníbal lembra com nitidez o dia em que leu nas redes do presidente que a vacina produzida em São Paulo em parceria com uma fabricante chinesa provocava morte e invalidez. Ou quando orientou o governador paulista, João Doria (PSDB-SP), a encontrar “outro trouxa” para comprar a Coronavac, hoje responsável por imunizar quase oito em cada dez compatriotas.

Muita gente pensa que Bolsonaro não sabe fazer amigos. O velho amigo da família tem outra tese: ele escolha mal seus inimigos.

O seu Aníbal pode não ter formação na área, mas sabe que não é fácil, para depoentes na CPI, dizer agora que sempre apostaram na vacina e na saúde da população quando só não há mais registros de declarações em contrário do que valas no cemitério, uma das poucas atividades que se expandiu de um ano pra cá.

Dos amigos ainda leais ao bolsonarismo poucos batem no peito para dizer que o capitão estava certo desde o começo. Uns já andavam quietos desde as trocas nos Ministério da Saúde e da Justiça e as mudanças na Polícia Federal no auge da crise. Outros foram aos poucos percebendo que o mago das finanças aclamado como Posto Ipiranga era só um ventríloquo de Caco Antibes com suas tiradas sobre o filho estudante do porteiro, a empregada que viaja para a Disney e o aposentado que quer não morrer antes dos 70.

Os que viam no presidente uma redoma de honestidade cercada de falcatruas por todos os lados até tentam, mas se enrolam para justificar as andanças de Fabrício Queiroz, as casas e passeios de luxo dos filhos do capitão e o vazamento de R$ 3 bilhões no orçamento para ajudar a digestão de aliados no Congresso.

Não teve mito na mitologia bolsonarista que ficou em pé em menos de dois anos e meio de governo. Nem a do presidente honestão nem a do orador chucro mas simplão.

Quando viu, na quarta-feira 12, o resultado da pesquisa Datafolha, o nosso amigo se espantou apenas com o fato de 24% dos brasileiros ainda darem nota acima do corte para o presidente. Estranhou também a presença na lista de dois nomes que, ele aposta um braço, não serão candidatos: Luciano Huck e Sergio Moro. Então ele observa os números com cautela. Ele ainda acha que, quando a campanha começar e João Doria, se candidato, começar a rodar o país com um adesivo de pai da vacina, há fermento no bolo para crescer. A ver.

Por enquanto o adversário de Bolsonaro é um só e seu Aníbal desconfia por quê. Ele ouviu, semanas atrás, um discurso do ex-presidente Lula, de quem nunca foi entusiasta, apelando à memória afetiva dos eleitores que tomavam cerveja e comiam picanha em seu governo.

O discurso veio à memória em dois momentos no último fim de semana. O primeiro quando bateu e voltou no mercado ao ver uma peça singela do corte vendida a R$ 92. O segundo quando o presidente ostentou uma embalagem da peça com seu rosto e óculos escuro.

Seu Aníbal gosta de dizer que não entende nada de política, mas sabe quando debocham da sua cara.