Datafolha mostra que estratégia de Boulos, mostrada no Roda Viva, surte efeito

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Guilherme Boulos e Bruno Covas no Roda Viva. Foto: Nadja Kouchi
Guilherme Boulos e Bruno Covas no Roda Viva. Foto: Nadja Kouchi

A pesquisa Datafolha divulgada nesta terça-feira (24) mostra como tem surtido efeito a estratégia de Guilherme Boulos (PSOL) de se apresentar ao grande público --o que nem sempre acessa as redes sociais-- e explorar, agora com tempo equivalente na TV, as vidraças da gestão tucana à frente da Prefeitura de São Paulo. A seis dias da votação, Bruno Covas (PSDB) tem 55% das intenções de voto, uma vantagem ampla, mas cada vez mais reduzida em relação ao adversário, que já tem 45%.

No debate/sabatina promovido pelo Roda Viva, na TV Cultura, essa estratégia do desafiante foi observada em diversas ocasiões.

Alvo do adversário por conta da falta de experiência, Boulos trouxe para a dança já na primeira música (ou pergunta) a sua candidata a vice, a ex-prefeita Luiza Erundina. Na TV, ele não tem poupado tempo nem espaço nem tempo para falar da gestão, hoje saudosa, da sua companheira de chapa.

Sem confronto direto entre os rivais, os questionamentos foram direcionados pelos jornalistas da bancada, que instigaram o psolista a explicar declarações recentes, como sua proposta sem nexo, apresentada em debate anterior, sobre Previdência do município, e sua atuação como líder de movimento social.

Covas, por sua vez, teve a chance de falar sobre a escolha do seu vice, acusado de agredir a companheira e de ter influência mais que devida sobre as creches da capital paulista, além de um suposto plano com medidas drásticas guardado para depois da eleição para combater o coronavírus.

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Como pílulas, trechos do programa, o assunto mais comentado do Brasil no Twitter a certo momento, ganharam ampla repercussão no noticiário e tendem a acirrar a disputa cabeça a cabeça da corrida na reta final.

Como em eventos anteriores, o atual prefeito, embora tenha dito que preferia uma vice mulher, saiu em defesa de Ricardo Nunes (MDB), atribuindo a ele a votação expressiva obtida na região sul da capital, o reduto do aliado, o “representante da frente que montamos”.

Ele foi questionado sobre a viabilidade da criação de uma espécie de “Lava Jato Paulistana”, bandeira da ex-adversária Joice Hasselmann (PSOL) que ele decidiu abraçar agora, após o anúncio de apoio da deputada. Não ficou muito claro como uma nova força-tarefa se sobreporia ou não a mecanismos já existentes, como a Controladoria Geral do Município, mas foi a brecha para o candidato dizer que não tem rabo preso com ninguém, não teme investigações e que pretende ampliar a participação popular no controle das contas públicas. A ver.

Sobre uma nova segunda onda de covid-19, ele se apoiou em dados recentes produzidos pelas autoridades sanitárias para dizer que não há indício de que está havendo uma explosão de casos. O aumento das internações, segundo ele, é resultado da retomada de antigos hábitos das classes A e B, como frequentar bares e restaurantes, além do número de pessoas vindas de outras cidades em busca de tratamento.

Covas disse também entender a aflição dos pais das crianças a respeito do retorno às aulas, mas que prefere aguardar uma segunda ordem das autoridades.

Prometeu ainda que não haverá aumento da passagem de ônibus e disse que não houve abandono das faixas de ciclistas na cidade, onde uma ativista foi atropelada há alguns dias. Por fim, deu detalhes de seu tratamento contra um câncer e afirmou que os prognósticos dos médicos são animadores em relação à redução de um tumor remanescente graças à imunoterapia.

O contraste com o rival vinha já no figurino. Covas fez um discurso baseado em números que parecia guardar no paletó. Boulos optou por uma camisa social e estilo despojado, pelo qual tem levado ao eleitor a mensagem de que é preciso voltar a se apaixonar pela política. Nas redes, houve quem comparasse o duelo entre um discurso humanizado ao de um robô programado.

Enquanto o tucano bate na tecla da experiência, Boulos tem reforçado o alinhamento com sua vice e trazido à baila o seu histórico de mais de 20 anos em contato com a periferia. Disse ainda estar cercado de especialistas de todas as áreas, de urbanistas a médicos.

Para ele, colar nele a pecha de radical em razão de seu envolvimento por luta por moradia e acesso a saúde pública só mostra o quanto o Brasil recuou no debate sobre direitos humanos em tempos recentes.

Questionado se voltaria a minimizar possíveis depredações como fez durante um protesto contra o teto de gastos em 2016 na frente do prédio da Fiesp, segundo ele a representação de tudo o que havia de ruim na cidade, esquivou-se, dizendo que a pergunta lembrava a posição de quem lamentava pelas vidraças quebradas nos protesto decorrente pela morte de um homem negro no Carrefour, esta sim razão para revolta. Pode não ter ganhado o eleitor que aprecia uma boa vidraça e palavras de ordem, mas certamente não perdeu o apoio colhido até aqui.

Boulos teve a chance também de contestar uma reportagem recente da Folha de S.Paulo a respeito de uma ocupação em área de proteção ambiental. A apresentadora, Vera Magalhães, queria saber por quem sua possível gestão intercederia caso tivesse de decidir entre a militância e a preservação ambiental. Ele afirmou que os ativistas eram acusados injustamente, já que a preservação ambiental era prioridade nos assentamentos citados pela reportagem.

Sobre a reforma da Previdência, disse ter se expressado mal ao falar que o déficit seria resolvido com mais contratações. Não explicou exatamente qual sua ideia para o fundo previdenciário municipal, mas aproveitou a brecha para deixar clara uma de suas principais diferenças em relação ao rival. Boulos promete reforçar a gestão direta, com mais concursos e contratações, enquanto Covas tem apostado na gestão via Organizações Sociais.

Diante das críticas relacionadas a um possível afrouxamento nas contas públicas, soltou a frase mais “viralizável” da noite: a de que responsabilidade fiscal não é sinônimo de irresponsabilidade social. Também prometeu um cartão para estudantes da rede pública acessarem a internet em tempos de isolamento.

Apesar de prometer mais contratações, o psolista jurou que não fará caça às bruxas nas OSs que tiverem bom desempenho, sobretudo as dedicadas à educação infantil.

O formato do programa permitiu que o debate fosse marcado pelo tom propositivo, mas nem por isso faltaram cutucadas entre os candidatos.

Boulos, a certa altura, defendeu o papel de líder político do prefeito da maior cidade do país. Disse que essa liderança não pode ser alguém que recebe orientação do Palácio dos Bandeirantes, numa referência ao apadrinhamento entre Covas e o governador João Doria (PSDB), a quem criticou por protagonizar uma briga sem CRM com o governo federal em torno de questões médicas.

Ele voltou a afirmar que gostaria de morar na cidade “colorida” e “maravilhosa” apresentada pelo adversário na propaganda da TV, acusou o tucano de usar a máquina pública para fazer terrorismo contra a sua campanha e disse que, em sua gestão, pretende ampliar o diálogo sem cair no “toma-lá-dá-cá”.

A certa altura, disse que protestos na cidade eram uma forma de a militância ser ouvida num contexto em que o diálogo com o poder público está sempre travado e que não é justo atribuir a ela o trânsito na cidade. Esses protestos, prometeu, não acontecerão em sua gestão porque estará aberto ao diálogo. (Aqui, vale ressaltar o efeito didático que este segundo turno tem provocado no eleitor médio, que tende a demonizar movimentos de demandas legítimas como as relacionadas a questões de moradia, ou cair em clichês para minimizar/justificar o racismo no país. Já volto a este ponto).

Covas, em suas considerações finais, conclamou os eleitores a avaliarem os currículos dos candidatos e disse que a opção por ele era uma opção “sem radicalismo ideológico”, com “pés no chão”, “respeito à democracia” e a “decisões judiciais”, enquanto o adversário representava a “ilusão” --e, como tentou inserir nas entrelinhas, a rebelião contras leis.

Diferentemente da disputa no Rio, ataques abaixo da cintura, do tipo “pior prefeito da história”, “pai/madrinha da mentira” e “ele vai levar a pedofilia nas escolas” não têm sido observados na campanha para a Prefeitura de São Paulo. Apesar das diferenças, os candidatos chegam à reta final como candidatos também a serem adultos na sala.

Talvez porque nem Covas nem Boulos representem o modo de falar e fazer política que se instalou no Planalto e criou raízes em outras praças além da dos Três Poderes.

É o que permite, por exemplo, pontos de concordância, como o de que o racismo é estrutural, é um problema grave e requer atitudes do poder público, como a montagem de gabinetes mais diversos.

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