Datafolha atesta que delírio autoritário não tem endosso popular

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SAO PAULO, BRAZIL - JULY 03: People take part in a demonstration against the Brazilian President Jair Bolsonaro's handling of the COVID-19 pandemic in Sao Paulo, on July 3, 2021. Thousands of Brazilians took to the streets Saturday to protest against President Jair Bolsonaro, who faces an investigation over an allegedly corrupt Covid vaccine deal. (Photo by Cristina Szucinski/Anadolu Agency via Getty Images)
Foto: Cristina Szucinski/Anadolu Agency (via Getty Images)

O levantamento do instituto Datafolha sobre a opinião dos brasileiros em relação ao governo Bolsonaro, feito entre os dias 7 e 8 de julho, é mais do que uma polaroid do instante político atual. Pode e deve servir como documento histórico caso escalem para termos reais as ameaças de golpe colocadas na praça pelo presidente e seus discípulos armados.

Durante anos, apoiadores do golpe de 1964 se escoraram na falácia de que os militares apenas atendiam ao clamor popular expresso na rejeição a João Goulart e as imagens de marchas como as da família, com Deus, pela liberdade. Hoje se sabe que o presidente na época tinha grandes chances de ser reeleito caso houvesse eleições em 1965. O resto é história.

Para conter a ameaça externa e o risco de o país se curvar a uma improvável ditadura comunista, os militares instauraram uma ditadura à brasileira que deveria ser provisória, durou 21 anos, sufocou as liberdades de opinião, perseguiu, cassou, prendeu, torturou e matou adversários.

Os brasileiros só voltariam a eleger presidente em uma eleição direta em 1989, mas ainda assim há quem queira convencer os nascidos antes e depois do golpe que tudo isso foi para o nosso bem e contou com nosso beneplácito.

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Daqui a 21 anos, se alguém usar imagens das motociadas de Bolsonaro para atestar que ele tinha apoio popular, e que transformar o Congresso e as cortes superiores do Judiciário em estacionamento de supermercado era parte do clamor das ruas, a pesquisa Datafolha, se devidamente guardada, poderá servir como prova do crime a desmentir os torturadores dos fatos versão 4.0.

Com exatos dois anos e meio de governo, Bolsonaro é hoje um presidente rejeitado por 51% dos eleitores, um recorde desde o início do mandato.

O número é puxado pelos eleitores que antes consideravam sua gestão regular. Basicamente quem o achava um chucro, porém honesto. Essa mitologia tem sido desautorizada também por rastros suspeitos deixados por ele, familiares e amigos antes e durante seu mandato como presidente. Envolvem supostas rachadinhas, em seus tempos de deputado, e estranhas transações envolvendo a compra de vacinas no auge da pandemia.

Sua atual aprovação é de 24%. Guardem este número caso alguém diga, daqui a algumas décadas, que “o país” estava nas ruas, sob duas rodas, em defesa do capitão.

Mais do que isso, Bolsonaro é visto pela maioria dos eleitores como pouco inteligente (57%), autoritário (66%), incompetente (58%), indeciso (57%), falso (55%), despreparado (62%), desonesto (52%).

As impressões foram agravadas das últimas pesquisas para cá. Só como exemplo, o número dos que consideravam o presidente desonesto era de 40% em junho. Escalou 12% em pouco mais de 30 dias, quando a CPI da Covid passou a investigar mais ostensivamente se as falhas na condução da pandemia foram resultado de incompetência, oportunismo ou os dois.

A pesquisa deixa claro que, se as eleições fossem hoje, Bolsonaro estaria longe da reeleição. Por isso sua nova obsessão é atacar o sistema de voto eletrônico que elegeu o capitão e sua prole nas duas últimas décadas. Ele insiste, porém, que só o voto impresso resultará em eleições limpas em 2022. Conversa.

No jogo jogado, suas chances eleitorais hoje são mínimas.

Emporcalhar o campo e pedir a suspenção da partida depois de furar a bola é a estratégia que restou.

Falta saber quem está disposto a ir a campo com ele. A estes é recomendável ler as pesquisas antes da conversão dos delírios autoritários em golpe de fato. Podem fazer o que quiserem, mas não em nome do clamor popular. Este já perdeu a paciência com o chefe de governo que, em 2018, prometeu jogar dentro das quatro linhas e queimou seu capital político com passeios de barco, jet ski, moto, cavalo e outras obsessões que levam do nada a lugar algum, a não ser a destruição. 

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