Datafolha mostra retrato desolador para Bolsonaro

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SAO PAULO, BRAZIL - JULY 03: People take part in a demonstration against the Brazilian President Jair Bolsonaro's handling of the COVID-19 pandemic in Sao Paulo, on July 3, 2021. Thousands of Brazilians took to the streets Saturday to protest against President Jair Bolsonaro, who faces an investigation over an allegedly corrupt Covid vaccine deal. (Photo by Cristina Szucinski/Anadolu Agency via Getty Images)
Foto: Cristina Szucinski/Anadolu Agency (via Getty Images)

Sempre que contrariado, Jair Bolsonaro costuma dizer que não acredita em pesquisas de opinião.

Em setembro 2019, o presidente atacou o instituto Datafolha após a divulgação de um estudo mostrando a rejeição de sete em cada dez brasileiros à indicação de seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), à embaixada do país em Washington, nos Estados Unidos.

“Pelo Datafolha eu não sou presidente”, mentiu o ex-capitão, provavelmente esquecido de que na véspera de sua vitória nas urnas o instituto apontava a sua vitória por 55% dos votos válidos contra 45% do petista Fernando Haddad. As urnas deram 55% a 44%.

Para sua plateia, Bolsonaro diz que prefere acreditar em mula sem cabeça, saci-pererê e Papai Noel a se fiar nas projeções do instituto apelidado por ele de “Datafake”.

O fato é que, depois da pesquisa em 2019, ele desdenhou dos talentos diplomáticos do filho e desistiu da indicação.

Durante a campanha, Bolsonaro tentou mostrar ao grande público que tinha dentes afiados mas não mordia. Acreditou quem quis.

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Sua ausência dos debates fez com que cada eleitor completasse como queria as lacunas deixadas sobre pontos estratégicos de sua futura gestão. Hoje tanto o capitão quanto seu governo são rejeitados pela maioria dos brasileiros. O que significa uma reprovação quase certa no vestibular eleitoral do ano que vem.

Não por acaso, a nova obsessão do presidente não é mais o nióbio ou a cloroquina, e sim o voto impresso. Como sabe que não haverá tempo para a sua implementação até 2022, já tem sua conversa (fiada) pronta para usar em caso de derrota.

Se restar alguma inteligência em seu entorno, é bom prestar atenção no que aponta o Datafolha. No ano que vem, uma hora dessas, ele estará em campo na disputa pela reeleição. Hoje, já recebe inúmeros alertas de que o desempenho nas provas não será suficiente para a média final. Até aqui, ele prefere reagir mastigando os boletins.

Da primeira à última pergunta feita pelo Datafolha aos eleitores, não tem uma linha que seja minimamente animadora para o presidente.

Os números apontam que a reprovação de seu governo chegou a 51%, que a maioria dos brasileiros já defende seu impeachment (54%), que mais da metade dos entrevistados (55%) nunca acredita no que Bolsonaro fala e que outros 63% o consideram despreparados para liderar o país.

A ampliação do desgaste vem da percepção, manifestada por 70% dos eleitores, de que há corrupção no governo. Isso em meio às notícias sobre negociações suspeitas da compra de vacinas envolvendo o Ministério da Saúde. Essa história, como se sabe, não acabará em áudios de querubins patrióticos mostrando as boas intenções com seu país.

A aposta do presidente até aqui é ampliar os coices e mostrar alinhamento com os militares e vice-versa. Só que a maioria do eleitorado também rejeita essa aliança explícita. Para 62%, militares não deveriam participar de atos políticos, como o que levou Eduardo Pazuello a um palanque de campanha antecipada do capitão, no Rio; outros 58% dizem que fardados não deveriam sequer ter cargos no governo. Quanto mais avançam as linhas, mais riscos os associados correm de morrer abraçados para a opinião pública. A mensagem é essa —e não adianta sumir com o corpo dos mensageiros, como quer o advogado presidencial quando a notícia é ruim ou expõe a ruindade da turma.

O retrato desgastado ajuda a explicar por que hoje, em um eventual segundo turno contra o ex-presidente Lula, Bolsonaro perderia de lavada por 58% a 31%.

O presidente pode fingir ou dar de ombros para os números, mas a bifurcação do que será seu governo nos próximos meses está dada.

Ou ele maneira o tom e retoma a fantasia de cordeiro apresentada em 2018 ou dobra a aposta da estratégia suicida que pode dinamitar, inclusive, os efeitos de uma até agora incerta retomada econômica e da vacinação em massa.

Essa aposta no radicalismo é a aposta no isolamento do país no tabuleiro internacional. Se já é difícil manter os laços diplomáticos e comerciais com quem falha em conter o coronavírus e o desmatamento, será ainda mais complicado fazê-lo com quem falha nos compromissos e ainda manda uma banana para quem cobra postura de gente grande.

Há quem já tenha jogado a toalha, aqui e lá fora. Para esses, o impeachment, que zeraria a disputa para o ano que vem, já não seria tão má opção assim diante da polarização entre Bolsonaro e Lula. É a chance que uma terceira via à direita, menos indigente e emocionalmente esfacelada do que a que aí está, teria de vencer.

Principal beneficiário da saída de Bolsonaro, alvo de um inquérito na Polícia Federal por suposta prevaricação no caso Covaxin, Hamilton Mourão garante que vai haver eleições em 2022. Com ou sem urna eletrônica. Mais distante do capitão, impossível.

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