David Diop se torna o primeiro escritor francês a vencer o International Booker Prize

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O escritor David Diop se tornou, nesta quarta-feira (2), o primeirofrancês a ganhar o International Booker Prize, um dos prêmios literários maisprestigiosos do mundo. Anualmente, o International Booker elege o melhorromance traduzido para o inglês e publicado no Reino Unido. Diop venceu com“Irmão de alma”, traduzido por Anna Mocschovakis. Os dois vãodividir o prêmio de £ 50,000 (mais de R$ 360.000). A presidente do júri, ahistoriadora Lucy Hughes-Hallett, chamou “Irmão de alma” de “extraordinário” e “aterrorizante”.

Publicado no Brasil pela Nós, “Irmão de alma” é um romance de guerrapsicológico, narrado por Alfa Ndiaye, um tirailleur, como eram chamados os soldados africanos que defenderam a França contra a Alemanha naPrimeira Guerra Mundial. Seu melhor amigo e companheiro de trincheira, MadembaDiop, acaba morto por um soldado alemão de olhos azuis. Alfa teme ter provocadoa morte de seu “mais que irmão” ao zombar dele e duvidar de sua coragem.

Disposto a aplacar a culpa que sente e vingar o amigo, Alfa começa aemboscar soldados alemães para matá-los e lhes cortar uma das mãos com seufacão. Ele leva as mãos decepadas de volta para a trincheira e as guarda comosouvenires. Aterrorizados com a mórbida coleção do “soldado chocolate”, ossoldados franceses começam a desconfiar que Alfa talvez seja um dëmm, um“devorador de almas”.

Em entrevista ao GLOBO, no ano passado, Diop contou ter escrito o livropor ser bisneto de um tirailleur que foi atingido por gás mostarda na “Grande Guerra” mas nunca abriu a boca sobre oque lhe acontecera no campo de batalha. Nascido em Paris, em 1966, e criado noSenegal, Diop leu tudo o que pôde sobre os tirailleurs. Percebeu que as representações dos soldadosafricanos que circulavam na França no início do século XX serviram paralegitimar a colonização com a velha desculpa da "missãocivilizatória".

— O general Charles Mangin chegou a dizer que os soldados da ÁfricaOcidental eram corajosos, mas "crianções" — disse Diop, queparticipou da programação paralela da Flip — Paradoxalmente, oExército francês usou a representação da “selvageria africana” como arma deguerra para aterrorizar os alemães. O uniforme dos tirailleurs vinha com umfacão. Em “Irmão de alma”, eu quis jogar com esses estereótipos.

Lançado em 2018, quando a França comemorava o centenário do fim daPrimeira Guerra e reconhecia publicamente os serviços prestados pelos tirailleurs, “Irmão de alma” foifinalista do prestigioso Prêmio Goncourt e venceu o Goucourt des Lycéens, cujosjurados são os alunos dos liceus. Até o final do ano passado, o romance já tinha vendidomais de 180 mil cópias.

“Irmão de alma” disputou o Booker Internacional com “La guerre despauvres” (A guerra dos pobres), do francês Éric Vuillard, “Los peligrosde fumar na cama” (Os perigos de fumar na cama), da argentina Mariana Enríquez,“In Memory of Memory” (Em memória da memória), da russa Maria Stepanov, “Cuandodejamos de entender el mundo” (Quando deixamos de entender o mundo), do chilenoBenjamín Labatut, e “De ansatte” (Os empregados), da dinamarquesa Olga Ravn.

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