David Yoon: 'Quando era criança, nenhum personagem se parecia comigo', diz best-seller coreano-americano

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RIO — Nascido em Orange County, Califórnia, e descendente de coreanos, o autor David Yoon estreou com tudo na literatura YA (jovens adultos) em 2019. Depois de publicar seu primeiro livro, "Frank e o amor" — considerado pela revista TIME um dos cem melhores livros YA de todos os tempos —, foi chamado de "próxima superestrela da literatura YA" pelo Entertainment Weekly. Um ano depois, Yoon engatou com mais um sucesso, que chegou recentemente ao Brasil pela editora Seguinte, "Amor, mentiras e rock&roll". Em ambos os livros, personagens coreanos são protagonistas de suas próprias histórias adolescentes, fato que, de acordo com o próprio David, não era nada comum até pouco tempo.

Em entrevista ao GLOBO via zoom, ele conta que cresceu sem referências de heróis ou figuras na TV, nos filmes e nos livros que se parecessem com ele. A invisibilidade tornou-se tão forte que ele mesmo não escrevia histórias com personagens coreanos, acabou desenvolvendo um bloqueio por estar inserido em um ambiente majoritamente branco. Com a ajuda da esposa, a escritora Nicola Yoon, David conseguiu superar o medo de colocar pessoas de cor como personagens principais de seus livros. Juntos, Nicola e David, criaram um selo e um projeto audiovisual especificamente para publicações de histórias de amor para jovens adultos com pessoas de cor como protagonistas.

O Entertainment Weekly te chamou de a próxima superestrela do YA. Por que YA? O que mais te atrai?

Eu não sei quem gosta de mim no EW, mas estou feliz que gostem. Eu não recebo muito bem elogios (risos). Escrevo YA porque gosto de lembrar o que é ser adolescente e é um momento excitante. É a primeira vez na vida em que você precisa descobrir que tipo de pessoa você quer ser, separadamente de seus pais ou professores, quem você quer ser nos seus termos e, sim, esse tipo de transformação acontece a todo momento na vida, quando você se forma na faculdade, quando você casa, tem um filho, perde um amigo, você precisa entender quem você quer ser, mas na fase da adolescência é a primeira vez que acontece.

Sobre "Amor, música e rock&roll", Sunny (personagem principal) e seus dois amigos são os únicos meninos de cor da escola. Por que marcar isso é importante? Como acha que pode ajudar outros adolescentes que leem suas histórias?

A razão para isso é na verdade um pouco egoísta. Quando eu era criança, não tinha nenhum personagem que parecia comigo em livros, na TV ou qualquer coisa e isso era estranho. Durante um bom tempo eu não me permitia escrever personagens que se parecessem comigo porque eu estava tão acostumado a ser invisível que eu não fazia. Mas as coisas mudaram muito, o que é ótimo, e agora é o momento perfeito para escrever e colocar você mesmo nos livros, não importa a orientação sexual ou como você aparenta, as pessoas estão receptivas. Eu quero escrever personagens que se pareçam comigo e com os amigos com quem cresci porque isso é verdadeiro para mim e mostra que pessoas de cor são como todas as outras, a gente se apaixona, comete erros bobos, somos divertidos e seres humanos como qualquer outro e eles não querem dizer nada, eles apenas são.

Quando e como você perdeu esse bloqueio?

Foi assustadoramente recente. Eu ficava nervoso. Quando eu estava estudando, as turmas eram majoritariamente brancas e os professores me perguntavam porque o meu personagem principal era coreano-americano. É uma pergunta complicada porque não tem resposta, é como se eles dissessem “por que você é você?” Não tem resposta, você é você porque você é. Então demorou um tempo para que eu superasse isso. Eu e minha esposa (a também escritora Nicola Yoon) trabalhamos isso juntos, nos encorajamos, ela teve sucesso com "O sol também é uma estrela" e "Tudo e todas as coisas" e isso é encorajador. Sem contar que precisamos de livros diversos, está acontecendo esse movimento, isso nos impulsionou também.

No livros, você coloca alguns toques culturais. Como isso é importante para a comunidade coreana? Especialmente estando nos Estados Unidos e consumindo uma cultura ocidental.

Para mim, a cultura sempre aparece como pano de fundo e eu amo aprender sobre outras culturas, aprender como ficar exposto e imerso em outra cultura. É muito divertido saber como outra pessoa vive, especialmente sobre gastronomia (risos). Acho que adiciona uma camada de interesse ao livro. “Amor, mentiras e rock & roll” não é muito sobre Coreia, é mais sobre nerds, mas a questão cultural fica de plano de fundo, é importante para mim. Porque, como eu disse, quando eu estava crescendo eu tinha literalmente zero herois que pareciam comigo e eu só percebi isso há pouco tempo, acho que tinha bloqueado isso da mente, é um pouco triste. Está bem melhor agora.

Você teve contato com a cultura coreana na infância ou foi mais americanizado?

Eu cresci em Orange County, Califórnia, e lá era era quase completamente branco e eu me sentia meio deslocado. Depois, eu morei em diferentes cidades e agora moro em LA e minha mãe mora em Korea Town, então eu vou lá toda hora. Mantenho contato com meus primos e família no exterior, me sinto próximo deles, mesmo não podendo vê-los o tempo todo. Meu coreano é bem ruim (risos). E hoje em dia é interessante, com K-pop se tornando popular e "Round 6" se tornando popular, é estranho para mim porque quando eu era criança, eu acho que ser coreano era a coisa menos legal possível e de repente se tornou super legal e eu fico até meio desorientado. É encorajador ver que pessoas de várias culturas diferentes estão interessadas na cultura das outras.

Como acha que o K-pop e o K-drama e os livros ajudam na difusão da cultura pop coreana, em geral?

É simples. Se você nunca vir um tipo de pessoa na televisão, nos filmes ou livros, você cria um conceito de quem aquela pessoa é, e, provavelmente, você vai pensar errado sobre ela. E quanto mais você vê pessoas de formas diferentes, o conceito se torna mais sofisticado. Como não tinha ninguém como eu na TV, as pessoas tinham um conceito muito fechado de como são as pessoas asiáticas e, agora, com uma explosão do K-pop e K-dramas as pessoas estão recebendo mais imagens do que asiáticos são e isso é muito bom. O visual é muito importante para que as pessoas se acostumem a olhar esses rostos para que não pareçam estranhos.

Sobre a Joy Revolution Imprint e a Yooniverse Media, pode me contar um pouco dos projetos? Já tem data para os primeiros lançamentos?

Joy Revolution é nosso selo que é dedicado a histórias de amor para jovens adultos estrelando pessoas de cor. E isso foi inspirado pela vez que conheci minha esposa, Nicola, na faculdade no nosso primeiro workshop juntos. Nós descobrimos que somos românticos e que muitos filmes e livros que amamos nunca tem pessoas de cor como protagonistas e sempre quisemos fazer algo que contemplasse isso. É muito legal, a gente vai lançar o primeiro livro na primavera de 2022. Quanto nosso projeto audiovisual, é o mesmo princípio: pessoas de cor na tela sendo humanas. E nossa inspiração veio quando Nicola escreveu "O sol também é uma estrela", que se tornou número um em vendar e se virou um filme. Fomos da ideia, para o livro, para filme e aí você tem pessoas de cor em papeis principais româmnticos e isso é muito poderoso para nós. E eles não eram o ajudante, a namorada atrevida ou o médico, eles eram os principais.

Gostaria de trazer os projetos para o Brasil?

Eu amaria levar o projeto até o Brasil. Os leitores no Brasil são muitos, brasileiros são fanáticos. E se tivermos um show que fale com uma audiência através do globo, seria incrível.

Já está trabalhando em um novo livro?

Sim, tem muita escrita acontecendo. Tenho um livro adulto para sair em maio “City of orange” é meio pós-apocalíptico. Tenho mais um adulto para sair, que não posso falar muito, e eu e Nicola talvez estejamos trabalhando em algo juntos, um livro YA que eu também não posso falar muito sobre, mas tem sido divertido, espero poder trazer mais informações em breve.

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