De saída, Pazuello defende “afastamento social” para conter pandemia

Ana Paula Ramos
·5 minuto de leitura
<p>Diante da pressão de aliados e do aumento no número de mortes pela covid-19, o presidente Jair Bolsonaro tem cogitado a troca do ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello.</p>
Diante da pressão de aliados e do aumento no número de mortes pela covid-19, o presidente Jair Bolsonaro tem anunciou a troca do ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello. (Foto: Getty Images)
  • Ministro da Saúde defende medidas rígidas de prevenção à covid

  • Eduardo Pazuello citou necessidade de afastamento social para conter pandemia

  • De saída do cargo, Eduardo Pazuello diz que deixou pasta "organizada"

Em entrevista coletiva nesta quarta-feira (17), o ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, defendeu medidas rígidas de prevenção à covid-19, incluindo a restrição do contato social.

Em uma mudança de tom após o anúncio da saída do cargo, Pazuello citou a necessidade do afastamento social para conter o avanço da pandemia. Ao longo de seu comando no Ministério da Saúde, ele evitou pronunciamentos contrários às ideias do presidente Jair Bolsonaro, que é contra o afastamento social.

Leia também:

Pazuello também afirmou que é preciso mudar hábitos de rotina e aprender a conviver com o coronavírus. Nesta semana, Bolsonaro anunciou a saída do militar do cargo. Em seu lugar, assume o médico Marcelo Queiroga.

"Nós vamos controlar a pandemia e com novos hábitos. Nós vamos mudar hábitos. Hábitos de usar máscara, de lavar as mãos, hábito de manter o grau de afastamento social, novos hábitos de horários, é necessário compreender isso", destacou Pazuello.

"O doutor Queiroga diz e vou repetir as palavras dele, começa [a prevenção] da conscientização de cada um, e não apenas da imposição das decisões do gestor. Cada um dos brasileiros tem que se conscientizar do papel e só juntos vamos poder evitar um grande número de óbitos e continuar a vida na maior normalidade possível", disse. "Vamos conviver com o coronavírus", acrescentou.

Em relação à transição da chefia do ministério, Pazuello afirmou que deixou a pasta “organizada” para o novo ministro.

"Temos pela frente uma transição de cargo de ministro que é apenas uma continuidade do trabalho. O Dr. Marcelo Queiroga reza na mesma cartilha, só tem um pequeno detalhe: vou entregar para ele um ministério organizado, funcionando e com tudo pronto. E ele como médico cardiologista e com todo conhecimento técnico vai poder navegar com essa ferramenta", disse.

O atual ministro, no entanto, admitiu que Queiroga pode trazer avanços ao Brasil que ele não conseguiu."Indo [Queiroga] a fortes mais longos do que talvez eu pudesse chegar com sua capacidade técnica", declarou.

Os dois visitaram nesta quarta a fábrica de vacinas da Fiocruz e participaram de um evento que marcou a entrega do primeiro lote, com 500 mil doses da vacina da AstraZeneca fabricadas pelo órgão.

Brasil tem recorde de mortes por Covid em 24h: 2.798

O Brasil registrou 2.798 mortes pelo novo coronavírus nesta terça (16) e teve o seu pior dia da pandemia, segundo o consórcio de veículos de imprensa formado por O Globo, Extra, G1, Folha de S.Paulo, UOL e O Estado de São Paulo.

De acordo com os números do consórcio, que reúne informações das secretarias de saúde dos estados até às 20h, cinco estados tiveram seus piores dias na pandemia: SP, RS, SC, PR e MS.

Brasil vive maior colapso sanitário de sua história

A escalada da Covid-19 chegou ao ponto mais crítico no Brasil, deixando quase todos os estados à beira do colapso na saúde. De acordo com a Fiocruz, trata-se da maior crise sanitária da história do país.

Entre as 27 unidades da federação, 24 estados e o DF estão com ocupação de leitos de UTI acima dos 80%. Entre esses estados, 15 tem ocupação maior que 90%. Roraima (73%) e Rio de Janeiro (79%) são as únicas duas unidades da federação com índices mais baixos.

Mapa da Fiocruz mostra maior colapso sanitário da história do Brasil - Foto: Reprodução/Twitter
Mapa da Fiocruz mostra maior colapso sanitário da história do Brasil - Foto: Reprodução/Twitter

Ritmo lento de vacinação contra covid faz Saúde colapsar

Se os números excessivos de mortes chocam, impressiona também o crescimento lento dos números de pessoas vacinadas pelo país, indo de encontro a uma tradição brasileira de vacinar em larga escala devido ao alcance do Sistema Único de Saúde (SUS).

Rio de Janeiro levaria dois anos para vacinar no atual ritmo

Se o ritmo atual de vacinação for mantido, por exemplo, a população total do estado do Rio, terceiro mais populoso do país, só será imunizada em pelo menos dois anos, ou 775 dias.

Para imunizar até o final deste ano toda a população do estado apta a receber o imunizante, com mais de 18 anos de idade, 12,7 milhões de pessoas, seria preciso mais que triplicar o número de aplicações diárias.

A projeção é do painel MonitoraCovid, produzido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que também prevê 995 dias, ou dois anos e meio, o tempo para que todo o País seja vacinado contra a Covid-19.

Os cálculos são do epidemiologista Diego Xavier, responsável pelo MonitoraCovid da Fiocruz, em entrevista ao jorna O Globo.

Ele alerta, no entanto, que a recente paralisação da vacinação no Rio e em outras cidades ainda não entrou nos cálculos, e a projeção de vacinar toda a população poderá ser ampliada.

Diego destaca que o Sistema Único de Saúde (SUS) tem condições de fazer as aplicações diárias necessárias, mas a logística depende da disponibilidade de vacinas e da coordenação eficaz entre todos os entes envolvidos.

Estados que mais vacinaram contra covid (em %)*

  1. Amazonas - 8.57%

  2. São Paulo - 6.43%

  3. Distrito Federal - 5.62%

  4. Mato Grosso do Sul - 5,6%

  5. Rio Grande do Sul - 5,46%

* Dados atualizados em 16/3/2021

Mudanças no Ministério da Saúde em meio à crise

Em paralelo a isso, os brasileiros conheceram também na terça o seu novo ministro da Saúde, o cardiologista Marcelo Queiroga, o quarto na gestão do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) — sendo todas as trocas durante a pandemia.

O novo ministro discursou na noite da terça, pouco antes do recorde de mortes ser anunciado. Defendeu o uso de máscaras e pediu para que brasileiros lavem suas mãos. Falou isso após defender que com essas medidas simples, somadas a um bom plano de vacinação, a economia não vai precisar parar.