De Wimbledon a São Januário, o sopro de esperança veio do esporte

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Tennis - Wimbledon - All England Lawn Tennis and Croquet Club, London, Britain - June 28, 2021 The Royal Box on centre court stands and applauds Oxford University and Astra Zeneca scientist and one of the people behind the COVID-19 vaccine Professor Sarah Gilbert Pool via REUTERS/Joe Toth
Profissionais que desenvolveram a Astra Zeneca são homenageados em Wimbledon. Foto: Joe Toth/Reuters

Meu filho perguntou para a mãe por que passo as manhãs bufando.

Ela explicou: é porque ele é a hora que ele lê o jornal.

Dos clichês, meu favorito é o que diz: se você não está pessimista, está mal informado.

Ver TV, à noite, não é menos custoso.

A tentativa de desanuviar e me distrair em intermináveis discussões sobre se foi pênalti ou não dura poucos minutos de contexto. E dá-lhe surra de realidade, essa que a bola não escamoteia.

As delegações dos times que disputam a Copa América, o torneio que ninguém quis receber, mas para o qual o Brasil abriu as portas como se não fosse, aqui mesmo, o epicentro do coronavírus, já têm quase 200 pessoas contaminadas.

Não por acaso já está sendo chamado de Cova América.

Mas foi pela TV, no começo da semana, que um indício de mudança, a partir do esporte, chegou como sopro de esperança.

Na segunda-feira 28, profissionais da saúde e cientistas que trabalharam no combate à pandemia no Reino Unido, entre eles pesquisadores que ajudaram a desenvolver a vacina de Oxford, foram homenageados na abertura do Torneio de Wimbledon. 

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Eles eram os convidados de honra do estádio e ouviram o locutor agradecer, em nome da população britânica, as pessoas que “contribuíram tanto durante este período sem precedentes em todas as nossas vidas”. Reconhecidos, os heróis foram aplaudidos de pé.

Vi e revi a imagem em silêncio, sem dizer nada (nem bufar).

Tinha acompanhado, naquele mesmo dia, a repercussão do belo gesto do atacante argentino Germán Cano na vitória do Vasco, em São Januário, contra o Brusque, no domingo, por 2 a 1.

Para a partida, o time carioca trocou a faixa diagonal escura de sua camisa pelas cores da causa LGBTQIA +.

Foi um marco.

De todos os campos da vida social, o futebol é ainda um dos grandes enclaves do preconceito e da homofobia. Não há registro, por exemplo, de jogadores que tenham assumido a homossexualidade. Não em segurança.

Pois assim mesmo o time cruzmaltino, um dos pioneiros na inclusão de negros no futebol no século 20, remou contra a corrente e peitou o preconceito. 

Germán foi além e, ao comemorar seu gol, levantou literalmente a bandeira de escanteio colorida em homenagem ao dia do orgulho LGBTQIA+. 

A foto, como se representasse a conquista da Lua num cenário inóspito e de arquibancadas ainda vazias por conta da pandemia, entrou para a história.

Nessas horas lembro sempre de uma história que ouvi de Juca Kfouri em um encontro com estudantes organizado pelo centro acadêmico da faculdade de jornalismo: logo após o golpe que instaurou a ditadura Pinochet no Chile, houve uma partido no estádio Nacional do Chile, que serviu como prisão e palco para torturas e massacres.

No local havia 40 mil pessoas para assistir Colo-Colo e Universidad Católica. A certa altura, a luz do estádio acabou. O medo paralisou a multidão por alguns segundos. Mas foi de lá que partiu um feixe de luz.

Com isqueiros acesos, os torcedores começaram a gritar por liberdade. Perceberam que, juntos, eram mais fortes —e que nem todos os camburões da ditadura conseguiriam conter ou punir os gritos.

Que as cenas deste começo da semana, em Wimbledon e em São Januário, sejam o grito dos novos tempos contra tudo o que nos sufoca.

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