Debandada: equipe econômica de Guedes já perdeu 7 desde início do governo; relembre

Redação Finanças
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Foto: EVARISTO SA/AFP via Getty Images
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Segundo o Ministro da Economia, Paulo Guedes, a equipe econômica do governo está sofrendo uma debandada. Na última terça-feira, os secretários especiais Salim Mattar (Desestatização) e Paulo Uebel (Desburocratização) pediram demissão, somando-se a uma crescente lista de perdas que vem desde o início do governo de Jair Bolsonaro, em 2019.

Ao todo, sete pessoas defendidas por Guedes para comandar a estratégia econômica do Brasil na era Bolsonaro já abandonaram o barco, por decisão própria ou demitidos. Para alguns críticos, a debandada deixa o País sem rumo na esfera econômica. Para outros, mostra que o idealismo liberal de Guedes não resiste ao cotidiano burocrático da administração pública.

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Segundo o próprio ministro, Mattar e Uebel saíram justificando insatisfação com o andamento das privatizações e da reforma administrativa. "O que ele me disse é que é muito difícil privatizar, que o establishment não deixa", afirmou Guedes a jornalistas sobre Salim. "O que eu disse para ele é que para privatizar cada um tem que lutar, não adianta ficar esperando Papai do Céu."

Dono da Localiza, empresa de aluguel de veículos, Salim Mattar tinha a missão de tocar o plano de privatizações de Guedes, prometido desde a campanha eleitoral de Bolsonaro em 2018. O projeto ambicioso, que incluía privatizar todas as empresas estatais, empacou por resistência do Congresso e do próprio presidente, principalmente em relação a Banco do Brasil, Petrobras e Caixa.

Paulo Uebel, segundo Guedes, se contrariou com o atraso no encaminhamento da reforma administrativa. A discussão se arrasta no Congresso desde 2019, mas só agora, no segundo semestre de 2020, o governo deve encaminhar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que não inclui uma das demandas de Uebel: a redução de salários do funcionalismo público.

"Hoje houve uma debandada", afirmou o ministro, depois de argumentar que saídas recentes de outros membros da equipe não podiam ser classificadas dessa forma. Relembre os outros membros da equipe econômica que deixaram do projeto de Guedes e Bolsonaro desde o início do governo.

Joaquim Levy

A primeira baixa no dream team de Guedes veio em julho de 2019 por interferência do presidente Bolsonaro. Levy, conhecido como um "Chicago boy" por ter estudado no centro global do pensamento liberal, a Universidade de Chicago, assim como Guedes, era presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

O bom currículo, que inclui passagens como diretor geral e financeiro do Banco Mundial entre 2016 e 2018 e diretor superintendente do Bradesco entre 2010 e 2014, não impediu Levy de ser derrubado após entrar em rota de colisão com o hemisfério ideológico do governo. O economista também teve postos-chave nos governos do Partido dos Trabalhadores (PT) e foi Ministro da Fazenda de Dilma Rousseff.

Antes de pedir demissão, Levy ouviu de Bolsonaro que estava com sua "cabeça a prêmio". "Eu já estou por aqui com o Levy. Falei para ele: 'Demita esse cara na segunda-feira ou demito você sem passar pelo Paulo Guedes’", disse o presidente a jornalistas. "Esse cara" era o diretor de Mercado de Capitais do BNDES, Marcos Barbosa Pinto, acusado de ligação com o PT e que também pediu demissão.

Marcos Cintra

Três meses após a queda de Levy, foi a vez do então secretário da Receita Federal, Marcos Cintra, sair do governo – desta vez, demitido. Cintra caiu um dia após um assessor revelar em palestra que o governo trabalhava em uma proposta de imposto sobre transações financeiras nos moldes da antiga CPMF. O assunto irritou o governo, mas até hoje a equipe econômica tenta emplacar a ideia.

Não foi a primeira vez que Cintra incomodou a cúpula do governo. Em janeiro, apenas quatro dias após a posse de Bolsonaro, o secretário desmentiu o presidente publicamente ao afirmar que, naquele momento, não haveria mudança na alíquota do imposto de renda ou no Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF).

Em abril, o então chefe do Fisco afirmou ao jornal Folha de S.Paulo que, com o imposto sobre pagamentos em análise na equipe econômica, até mesmo fiéis de igrejas seriam tributados quando contribuíssem com o dízimo. O comentário irônico irritou a ala do governo ligada à bancada evangélica.

Mansueto Almeida

Ocupando o cargo de secretário do Tesouro Nacional desde o governo de Michel Temer, Mansueto pediu exoneração em julho de 2020. A saída do economista foi justificada oficialmente por um "desejo" do economista de trabalhar na iniciativa privada – recentemente, ele foi contratado como economista-chefe do banco privado BTG Pactual, que tem entre seus fundadores o ex-chefe Paulo Guedes.

Nos bastidores, porém, circulam rumores nunca confirmados de insatisfação de Mansueto com o governo Bolsonaro, especialmente com as discussões sobre uma possível flexibilização do teto de gastos para arcar com despesas do combate à pandemia de coronavírus. Críticos da proposta, como Mansueto, afirmam que flexibilizar o teto levaria ao descontrole da dívida pública e agravamento da crise.

Rubem Novaes

Em 24 de julho, o presidente do Banco do Brasil pediu para deixar o cargo em uma carta enviada a Bolsonaro e Guedes. A instituição bancária disse em nota que o pedido de demissão foi feito "entendendo que a companhia precisa de renovação para enfrentar os momentos futuros de muitas inovações no sistema bancário".

Sob o comando de Novaes, o BB também foi alvo de interferência do governo sob a administração de Bolsonaro. Em maio, o banco disse que iria cortar o financiamento de sites e blogs de notícias falsas por meio de publicidade programática após denúncia do grupo Sleeping Giants do Brasil. Em seguida, porém, voltou atrás quando o secretário de Comunicação do Planalto, Fabio Wajngarten, e de um dos filhos do presidente, o vereador Carlos Bolsonaro, disseram que iriam "interferir" na decisão. O BB acabou sendo obrigado a cortar a publicidade nesses sites por ordem do Tribunal de Contas da União (TCU).

Antes disso, em 2019, o banco retirou do ar uma propaganda que mostrava uma jovem negra careca, homens de cabelo rosa e homens no salão de beleza. Na ocasião, o jornal "O Globo" informou que o próprio presidente Bolsonaro mandou vetar a peça publicitária por incômodo ideológico. E na reunião ministerial de 22 de abril, o banco também foi alvo de críticas.

"O senhor já notou que o BNDES e a Caixa, que são nossos, públicos, a gente faz o que a gente quer? Banco do Brasil, a gente não consegue fazer nada e tem um liberal lá. Então, tem que vender essa porra logo", disse Guedes a Bolsonaro na reunião, cujo vídeo se tornou público em maio no âmbito das investigações contra o governo por suposta interferência na Polícia Federal, denunciada por Sergio Moro.

Caio Megale

O diretor de programas da Secretaria Especial de Fazenda acertou sua saída do governo no fim de julho. Escolhido para integrar a equipe econômica ainda no período de transição entre os governos Temer e Bolsonaro, Megale também trabalhou como secretário de Desenvolvimento da Indústria, Comércio, Serviços e Inovação no Ministério da Economia.

Ele garante que a decisão de deixar o governo foi pessoal e não foi motivada por qualquer divergência, mas o timing – que sugere uma "debandada" – levantou suspeitas. "Admiro a liderança do Ministro Paulo Guedes. Mas, do ponto de vista pessoal, era o momento", afirmou Megale ao G1. Antes de integrar o governo federal, ele foi secretário da Fazenda do município de São Paulo.

O que Bolsonaro acha da debandada?

"Em todo o governo, pelo elevado nível de competência de seus quadros, é normal a saída de alguns para algo que melhor atenda suas justas ambições pessoais. Todos os que nos deixam, voluntariamente, vão para uma outra atividade muito melhor", escreveu Bolsonaro em sua conta no Facebook nesta quarta-feira (12) após a saída de Uebel e Mattar.

"Privatizar está longe de ser, simplesmente, pegar uma estatal e colocá-la numa prateleira para aquele que der mais 'levá-la para casa'. Para agravar o STF decidiu, em 2019, que as privatizações das empresas 'mães' devem passar pelo crivo do Congresso", escreveu. "No mais, num Orçamento cada vez mais curto é normal os ministros buscarem recursos para obras essenciais. Contudo, nosso norte continua sendo a responsabilidade fiscal e o teto de gastos."

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