Debate na Globo: corrupção, Roberto Jefferson, aborto e salário mínimo marcam de debate entre Lula e Bolsonaro

No duelo entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL) no último debate dos presidenciáveis antes do segundo turno, o embate sobre corrupção surgiu já no bloco que abriu o encontro promovido pela Rede Globo, desta vez iniciado pelo petista, ao citar rachadinhas e a compra de 51 imóveis com dinheiro vivo pela família do atual presidente. Era o rastilho de pólvora para virem à tona temas como a relação de ambos os candidatos como o ex-deputado federal Roberto Jefferson, que atirou contra policiais federais ao resistir à prisão no fim de semana passado. Bolsonaro contra-atacou, lembrando o Petrolão e chamando o adversário de "descondenado". Antes, um dos temas centrais desta reta final de campanha, o reajuste do salário mínimo, já tinha protagonizado trocas de acusações entre os dois.

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Sobre o assunto corrupção, analistas avaliavam que Lula ainda não tinha se saído bem nas respostas em debates anteriores. O ex-presidente, então, começou dizendo que tem "atestado de idoneidade".

— Grana no bolso o povo sabe quem levou: o Jair e sua família. A quantidade de imóveis e rachadinha não está na conta do Lula. Sou o único que tem atestado de idoneidade, fui julgado por um juiz mentiroso, ganhei 26 processos na Justiça Federal, dois na ONU, na Suprema Corte. Se prepara, o povo sabe quem é mentiroso e quem roubou — afirmou Lula.

Bolsonaro imediatamente retrucou:

— Você foi descondenado por um amigo do Supremo. É um bandido. Cadê (Antonio) Palocci, José Dirceu? Cadê essa turma toda? Estão trabalhando para sua campanha — afirmou.

Roberto Jefferson

Foi quando o debate se voltou para Roberto Jefferson (PTB). Após o episódio do fim de semana passado, Bolsonaro afirmou que não tinha sequer fotos com o petebista, um de seus aliados nos últimos anos. Lula, então, disse que o rival estava tentando esconder o apoio que tem de Jefferson.

— Ele acabou de tentar esconder Roberto Jefferson, o pistoleiro, o homem das armas, o homem de confiança que recebeu a PF a tiros — disse Lula.

O atual chefe do Executivo, então, respondeu tentando colar a imagem do adversário à do ex-deputado, relembrando o caso do mensalão.

— Roberto Jefferson é teu amigo, ele pegava grana de você para comprar voto de deputados na Câmara. Eu estava lá, vi a CPI, ele foi o delator, contou tudo. Assim fica difícil. O Roberto Jefferson explodiu seu governo, o mensalão. Atrás disso, veio o petrolão. Mais de 100 pessoas presas, você mesmo foi condenado em três instâncias. Você tinha que estar preso — afirmou.

Política externa

No desenrolar da disputa de narrativas sobre corrupção, a política externa brasileira também foi debatida. Lula disse que Bolsonaro não teria relação com país algum. Enquanto o atual presidente criticou investimentos realizados pelo governo do petista fora do Brasil.

— Sua política externa é com ditador, (Nicolás) Maduro, com Cuba. Você pegando dinheiro do BNDES nosso e mandando para fora. Por que Belo Horizonte não tem metrô e Caracas (capital da Venezuela) tem? Com dinheiro nosso. Por que você priorizou obras fora do Brasil?— questionou.

Lula ironizou, dizendo que parecia estar debatendo com um "cidadão estranho à política internacional".

— Ele sabe que nós fizemos a política externa mais eficaz. Fui o único presidente a ser convidado a toda reunião do G8, a criar o BRICS, o G20 - defendeu-se Lula. - Pai, perdoai os ignorantes, eles não sabem o que fazem. Porque se ele tivesse o mínimo de noção de política externa, ele teria lido o jornal Valor dessa semana e lido que o Brasil investiu R$ 10 (bi) e recebeu 12 bilhões — continuou.

Salário mínimo

Minutos antes, o reajuste do salário mínimo havia dominado o embate inicial entre os dois. O assunto foi levantado pelo atual presidente, que prometeu R$ 1.400 de vencimentos mínimos a partir do ano que vem. Lula rebateu dizendo que, em quatro anos, o governo não deu aumento real aos trabalhadores. O petista vinha levando a seu programa eleitoral no rádio e na TV a polêmica gerada pelas declarações do ministro da Economia, Paulo Guedes, de que o salário poderia ser corrigido abaixo da inflação.

— Seu partido disse que eu não iria dar aumento no salário mínimo e nas aposentadorias, e daria fim ao 13º e às horas extras e às férias. Você confirma isso? — perguntou Bolsonaro. — Concedemos reajustes no mínimo igual à inflação. Mas tivemos a pandemia pela frente, uma crise mundial — defendeu-se depois.

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Lula, por sua vez, insistiu em seu argumento.

— A verdade nua e crua é que o salário mínimo dele (Bolsonaro) hoje é menor do que quando ele entrou. Eu aumentei em 74%, ele não aumentou, apenas concedeu a inflação e, em alguns anos, menos que a inflação — afirmou.

Na pauta de costumes, o aborto

O tom do debate sobre a pauta de costumes subiu quando o petista lembrou um discurso que atribuiu ao período em que o candidato à reeleição era deputado federal. Segundo o ex-presidente, Bolsonaro teria sugerido a distribuição de "pílula de aborto" no combate à desnutrição. O atual chefe do Executivo disse que era um discurso de 30 anos atrás e que pode ter mudado. Ele negou, porém, que tivesse sugerido o uso de um "pílula de aborto". E chamou o adversário de "abortista".

— Não confunda. Negativo. Pílula do dia seguinte. Trinta anos atrás, posso mudar. Você há poucos dias disse que aborto é questão de saúde pública. Você é abortista, Lula, convicto. E sempre trabalhou com isso. Suas ex-ministras de Direitos Humanos trabalhavam nisso. Lula, assuma que é abortista — atacou.

Seu rival, então, afirmou que respeita a vida.

— Primeiro, eu sou contra o aborto, e minhas mulheres são contra aborto. Eu respeito a vida, porque tenho cinco filhos, oito netos, e uma bisneta — defendeu-se.

Respeito à Constituição

No segundo bloco, em que os candidatos podiam escolher perguntar numa lista de temas pré-definidos, Bolsonaro escolheu abordar o respeito à Constituição, após uma semana tensa entre sua campanha e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em que alguns bolsonaristas chegaram a reclamar um adiamento da eleição.

— Há três anos e dez meses eu jogo dentro das quatro linhas da Constituição — afirma, repetindo um chavão. — Você defende invasão de terra, lá do João Pedro Stédile e do Rainha, você defende invasão de propriedade aqui na cidade, com o Boulos. Isso é respeitar a constituição?

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Lula, então, respondeu:

— Ele passa disse todo santo dia ameaçando o ministro da Suprema Corte, ameaçando fechar a Suprema Corte, ameaçando que não vai respeitar a decisão. Vive xingando pessoalmente os ministros da Suprema Corte.

Lula chama Temer de golpista

Ao rebater Bolsonaro sobre a recuperação econômica do país, Lula atacou o ex-presidente Michel Temer (MDB), a quem chamou de "golpista", lembrando o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), em 2016.

— Ele (Bolsonaro) se esquece que herdou a presidência de um golpista, que foi dado golpe junto com ele. Não foi da presidente Dilma, mas de um golpista, chamado Michel Temer — disse.

Na Saúde, da pandemia à compra de Viagra

No terceiro bloco, o petista abordou o tema da saúde e trouxe mais uma vez aos debates a gestão da pandemia da Covid-19 pela União. O ex-presidente começa falando que 200 mil pessoas morreram desnecessariamente devido à negligência do governo federal na emergência sanitária.

— O Brasil tem 3% da população mundial, entretanto, o Brasil tem 11% das vítimas — disse, enquanto Bolsonaro defendia que o Brasil teria sido "referência na aplicação de vacina”.

O duelo, então, descambou para acusações relacionadas a compras de Viagra pelas Forças Armadas.

— O Viagra é usado para tratamento de próstata — justificou o candidato do PL.