Debate sobre ordenação de homens casados pela Igreja deve ficar em segundo plano, diz especialista em religião

Renato Grandelle

RIO — O Papa Francisco apresentará na manhã desta quarta-feira a exortação apostólica "Querida Amazônia", um documento em que analisa o resultado do Sínodo para a região. Em outubro, 185 bispos da Amazônia, reunidos durante três semanas no Vaticano, aprovaram medidas como a interação do catolicismo com as tradições das populações nativas, além da ordenação de homens casados na floresta, uma forma de compensar a falta de sacerdotes.

Francisco Borba Ribeiro, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP, acredita que a aceitação de padres casados não terá prioridade na exortação — mesmo que contasse com sua bênção, a medida teria que passar pela longa burocracia do Vaticano.

O Pontífice, segundo Ribeiro, deve sublinhar sua pregação pela preservação do meio ambiente. Também reforçará que a Igreja, para recuperar terreno perdido para religiões pentecostais, deve aceitar a convivência com tradições indígenas.

O discurso sobre a religião, reforça Ribeiro, é internacional. Não atenta, portanto, contra a soberania dos países, como foi acusada por "grupos do Brasil". O governo Bolsonaro não escondeu o incômodo com a possibilidade que o sínodo exercesse alguma influência política na Amazônia.

A ordenação de homens casados foi um dos pontos mais polêmicos discutidos no sínodo, e teve vasta aprovação entre os bispos reunidos no Vaticano. Como o Papa deve se pronunciar sobre este assunto?

O tema causou furor e pode ser impactante, mas foi excessivamente valorizado. O ímpeto de mudança que o Papa procura dar para a Igreja não depende desse detalhe, mas, sim, de um encontro cada vez mais comprometido entre a religião e os fiéis, entre clero e leigos. E isso está presente no texto.

E qual será o peso do meio ambiente no documento papal?

O compromisso da Igreja com o meio ambiente, numa perspectiva socioambiental, é um gesto de inegável peso político. Esta posição é pública e segue a linha tomada pela encíclica 'Laudato Si" (a primeira da Santa Sé dedicada exclusivamente ao meio ambiente, elaborada pelo Papa em 2015). O próprio modo como o documento foi formulado, com amplas consultas e debates, com a participação das comunidades locais, especialistas e membros da hierarquia católica, já é um gesto político. Não depende do texto final, já tem um impacto evidente para a comunidade internacional.

Como o Papa abordará o trabalho da Igreja na Amazônia?

Francisco, apesar de todo o seu empenho social, denunciou várias vezes a redução da Igreja a uma ONG, que não se limitasse a promoção humana ou libertação política. A exortação “Querida Amazônia” será uma ocasião para propor que Jesus volte a ser o centro das atenções, mas sem perder de vista os temas sociais.

Muitas pessoas no Brasil, inclusive no governo, mostraram receio sobre a influência do Sínodo na questão indígena e na soberania nacional. Como isso será visto na exortação?

Nestas questões, Francisco segue as linhas mestras da tradição católica, que vêm ainda do período colonial. A Igreja sempre defendeu os direitos e a autonomia dos povos indígenas, mas com integração à sociedade ocidental. Sete Povos das Missões, sociedade indígena altamente desenvolvida economicamente, destruída por espanhóis e portugueses, e a expulsão dos jesuítas do Brasil pela Coroa portuguesa (ambos no século XVIII) são marcas dessa História. São João Paulo II, Bento XVI e Francisco também se pronunciaram a favor das comunidades indígenas em suas visitas à América Latina.

Por outro lado, todo o ensinamento social da Igreja vai no sentido da solidariedade internacional, que não implica em perda de soberania dos países, mas em uma responsabilidade compartilhada das nações para com o bem comum. A exortação se mantém nessa linha. Se ela desagradar a grupos no Brasil, deve ficar claro que não é a Igreja que faz oposição a eles, mas esses grupos é que se posicionam contra um Magistério católico que antecede a eles. A oposição parte deles, e não da Igreja...