Deboche de Mourão sobre áudios de tortura mostra que horror não ficou no passado

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BRASILIA, BRAZIL - NOVEMBER 19: Brazilian Vice President Hamilton Mourão, looks after Commemorates Brazilian Flag Day amidst the coronavirus (COVID-19) pandemic at the Planalto Palace on November 19, 2020 in Brasilia. Brazil has over 5.945,000 confirmed positive cases of Coronavirus and has over 167,455 deaths. (Photo by Andressa Anholete/Getty Images)
O vice-presidente Hamilton Mourão. Foto: Andressa Anholete (Getty Images)

O vice-presidente Hamilton Mourão respondeu com um deboche e uma risada ao ser questionado sobre a divulgação de áudios do Superior Tribunal Militar detalhando as sessões de tortura cometidas por agentes da ditadura militar.

“Vai apurar o quê? Os caras já morreram tudo, pô. Vai trazer os caras do túmulo de volta?”, disse, entre risos.

Para o general, os áudios fazem parte do passado e o passado faz parte dos livros de História.

Fosse verdade, o Ministério da Defesa não teria soltado, há menos de um mês, uma nota celebrando o golpe militar de 1964. A sombra desse período paira a cada nova homenagem a seus agentes. E a cada nova tentativa de sabotar o que de fato aconteceu no período e dourá-lo como tempos saudosos de ordem e de progresso.

Fingir que tudo jaz com a paz dos injustos sob o tapete da história é deixar uma grande porta aberta para sua repetição no futuro. Ou no presente.

Tortura, desaparecimento, execução sumária são crimes cometidos por agentes de Estado que ainda se repetem e seguem impunes no país que anistiou seus torturadores e permitiu que fosse eleito um presidente que já disse ser a favor da tortura e do fuzilamento.

Foi a um torturador, assim reconhecido pela Justiça, que esse antigo parlamentar do baixo clero dedicou seu voto em favor do impeachment de Dilma Rousseff. Um voto em memória do coronel Brilhante Ustra.

Mourão tem razão quando diz que não é possível trazer “os caras” de volta do túmulo. Parte dos acusados pôde fugir e morrer sem ser incomodada graças aos segredos levados ao túmulo. São esses segredos, ora encobertos, ora minimizados, quando não simplesmente desmentidos, que impedem o Brasil de iluminar a sua História e seguir adiante.

Como não tivemos um acerto de contas real com esse passado, ele segue rondando como cadáver insepulto. Isso acontece toda vez que a memória é torturada e ilustrada ao gosto do interlocutor.

Jair Bolsonaro, logo que assumiu, disse que não tinha muito o que construir no país que o elegeu, e sim desconstruir. Seu objetivo era fazer era fazer o Brasil semelhante ao que era há 40 ou 50 anos. O retrocesso é um retrovisor vendido como futuro. Como nos tempos em que os crimes praticados nos porões da ditadura eram encobertos, desdenhados, incentivados.

Não há chave de compreensão do presente quando a memória do passado é sabotada. Suas ferramentas enferrujadas seguirão produzindo terror e sevícias enquanto não forem encaradas por adultos, como adultos.

O deboche contra o pior dos crimes mostra bem de que lado seus herdeiros estão. Essa não é uma luta entre direita e esquerda. É sobre civilização e barbárie.