Decisão do Exército é 'altamente preocupante para instituições brasileiras', diz Celso Amorim

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BRASÍLIA — O ex-ministro da Defesa Celso Amorim, que ocupou a pasta no primeiro mandato de Dilma Rousseff, classificou como "altamente preocupante para as instituições brasileiras" a decisão do do Exército de arquivar processo que apurava a participação do general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, em um ato político com o presidente Jair Bolsonaro.

— Não são só as Forças Armadas que têm sua integridade amaçada. São as instituições democráticas. Como ex-ministro da Defesa eu lamento muito, porque eu vi como nós discutíamos as coisas com seriedade quando havia uma objeção séria das Forças Armadas a qualquer coisa tudo era sempre conversado, negociado, eu nunca vi uma coisa assim, uma imposição. Nunca houve isso. Então eu fico muito preocupado, muito triste — disse Amorim ao GLOBO nesta quinta-feira.

Para o ex-ministro da Defesa, que também chefiou o Itamaraty, a manifestação do Exército de não ver "transgressão disciplinar" na participação do general da ativa em um ato político colocam dúvida sobre a insenção das Forças Armadas que, segundo ele, são uma instituição de Estado, e não de governo.

— Obviamente deve ter sido uma ordem do presidente, por tudo o que se comenta, e eu acho lamentável porque afasta aquilo que os próprios militares sempre disseram, de que prezavam por princípio, que as Forças Armadas, o Exército, são uma instituição de Estado e não de governo. Isso vai por água abaixo, acabou. Virou uma instituição de governo — afirmou.

Na avaliação de Amorim, é "altamente preocupante" quando as Forças Armadas, em especial o Exército, deixam as regras, o regulamento, de lado "para acomodar certos interesses". Ele explica que Forças Armadas são uma força de última instância.

— Elas não podem arbitrar nada. Mas poderiam, por exemplo, se houver uma situação como ocorreu nos Estados Unidos, no Capitólio, convocado pelo Supremo ou pelo Congresso, o Exército poderia agir, uma vez que ninguém pode confiar no que vai fazer a Polícia Militar. Com essa atitude agora, esse poder de última instância fica afetado — observou.

No dia 23 de maio, Pazuello participou e discursou de um ato feito por Bolsonaro após um passeio de moto no Rio de Janeiro. O procedimento administrativo foi aberto porque militares da ativa não podem se manifestar politicamente.

Na semana passada, Pazuello apresentou sua justificativa oficial e afirmou que ato não era político-partidário porque que Bolsonaro não é filiado a nenhum partido e que não há campanha em andamento no país. O argumento foi reforçado pelo presidente, que, sem referir-se ao procedimento, disse no mesmo dia que o ato não teve "viés político".