Decisão de STF sobre Lula define jogo de forças para 2022

Matheus Pichonelli
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SAO BERNARDO DO CAMPO, BRAZIL - MARCH 10: Luiz Inacio Lula da Silva, Brazil's former president, puts on his face mask during a press conference after convictions against him were annulled at the Sindicato dos Metalurgicos do ABC on March 10, 2021 in Sao Bernardo do Campo, Brazil. Minister Edson Fachin, of the Federal Supreme Court, annulled on Monday the criminal convictions against former leftist President Luiz Inacio Lula da Silva on the grounds that the city of Curitiba court did not have the authority to try him for corruption charges and he must be retried in federal courts in the capital, Brasilia. The decision means Lula regains his political rights and would be eligible to run for office in 2022. (Photo by Alexandre Schneider/Getty Images)
O ex-presidente Luiz Inacio Lula da Silva. Foto: Alexandre Schneider/Getty Images

Uma pesquisa do instituto DataPoder divulgada nesta semana dá a dimensão do impacto da decisão do Supremo Tribunal Federal que anulou as condenações sofridas pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na 13ª Vara Federal de Curitiba. Com o entendimento, por 8 votos a 3, de que as ações contra o petista não eram relacionadas ao escândalo da Petrobras, ele reconquistou os direitos políticos e deverá disputar a Presidência pela sexta vez desde 1989.

Segundo o DataPoder, Lula seria, nas circunstâncias atuais, o favorito para bater o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Uma simulação de segundo turno indica que o petista venceria por 52% a 34%.

Na mesma pesquisa, em outra simulação, o apresentador Luciano Huck também aparece à frente do atual presidente (48% a 35%). João Doria (PSDB), Ciro Gomes (PDT) e até Sergio Moro (sem partido) hoje empatariam com Bolsonaro em um eventual segundo turno.

O gargalo está na primeira fase da corrida. 

No primeiro turno, com bases mais bem definidas, Lula e Bolsonaro têm ampla vantagem sobre os candidatos a candidatos a terceira via. O primeiro tem 34% e o segundo, 31% das intenções de voto. Na sequência aparecem Ciro e Huck, ambos com 6%.

João Amoedo (Novo), Doria, Moro e Luiz Henrique Mandetta, hoje no DEM, aparecem, respectivamente, com 5%, 4%, 3% e 2%.

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De grão em grão, o esforço para marcharem juntos em uma mesma plataforma, ensaiada na carta em defesa da democracia divulgada no aniversário do golpe militar, os presidenciáveis somam 26%. Cinco pontos a menos do que o atual presidente.

Falta um ano e meio para a eleição. Até lá, nunca é demais lembrar que tem muita água para correr. E chances, ainda mínimas, de que a suspeição de Sergio Moro no julgamento do petista, ainda a ser analisada pelo STF, mude o curso desenhado até aqui. Para isso, a acusação contra o ex-juiz precisa ser rejeitada e o juiz herdeiro dos processos, que podem migrar para São Paulo ou o Distrito Federal (isso será decidido só na semana que vem), aproveitar as provas para acelerar uma nova velha condenação. Até lá, os casos podem prescrever.

Até o momento, porém, a possibilidade de Lula disputar a Presidência já coloca em teste a hipótese de que Bolsonaro se beneficiaria de sua reabilitação. Isso porque ninguém, como ele, encarna melhor o sentimento antipetista.

Em 2018, com a crise econômica iniciada no governo Dilma Rousseff, as suspeitas de corrupção nas manchetes, a Lava Jato nas ruas e as condenações de Lula frescas na memória, Bolsonaro se apoiou na rejeição a tudo o que o partido rival representava para pegar um foguete em direção ao Planalto. 

Ao que tudo indica, os partidos políticos farão figuração em uma disputa, mais do que nunca, personalista. O atual presidente não tem filiação partidária desde que deixou o PSL. Huck é ainda o cara da Globo. E a diferença de desempenho entre Lula e qualquer outro quadro do partido nas simulações mostra o que o eleitor espera dele, não exatamente de sua legenda. (Doria, outro possível candidato, é antes um candidato de si mesmo do que do PSDB, onde nunca foi reconhecido como tucano de alta plumagem).

A rejeição, ainda alta, em torno de Lula já não faz o provável adversário favorito pela lei da gravidade. Não no caso de Bolsonaro, em quem 50% dos eleitores dizem não votar de jeito nenhum. O índice de Lula é 41%. Não é desprezível, mas ainda é inferior aos de Huck (48%), Ciro (57%), Doria (55%) e Moro (60%).

Em outras palavras: não faltam candidatos a terceira via, faltam candidatos com baixa rejeição. E, a essa altura, não há tempo para criar algum em laboratório até 2022.

Bolsonaro já sente o baque e, no pior momento da pandemia, com uma CPI fungando seu cangote e um Orçamento tóxico que o coloca entre a cruz da responsabilidade fiscal e a espada do apoio do centrão, dedicou em sua live de quinta-feira longos minutos a atacar a sua maior ameaça hoje à reeleição. Improvisada ou não, a estratégia bolsonarista é comparar o desempenho de um e de outro à frente do Planalto. É aí que as coisas se enroscam. Quando Lula deixou o governo, em 2020, o Brasil era a 6ª economia do planeta; hoje é a 12ª e, sob seu comando, se tornou o elemento tóxico em termos pandêmicos, ambientais e outros temas-chave.

Auxiliares mais próximos temem esse confronto sobre a gestão. À coluna Radar, da revista Veja, um desses auxiliares afirmou que Bolsonaro sequer governa, passa os dias contando piada e o desafio é mudar essa postura até a eleição.

Mesmo entre os donos do dinheiro, com quem Bolsonaro surfava em popularidade até pouco tempo, já há quem reveja a postura e aspire por dias menos turbulentos, com menos ameaças e clima de beligerância constante, no quadriênio 2022-26.

Hoje o antibolsonarismo fala mais alto e joga a favor do petista. Se será suficiente e permanecerá em fogo alto pelos próximos meses é uma outra conversa. O mundo, hoje mediado por redes sociais e baseado na economia 4.0, não é mais o de 2002, quando Lula se elegeu pela primeira vez. Também não é o mesmo de 2010, quando deixou o governo. Entender isso será desafio ainda maior do que manejar a rejeição do oponente, a preso a 1964, a seu favor.