Declarações de Bolsonaro sobre racismo geram reações de políticos, sociedade e entidades

Fernanda Alves, Ruan de Sousa Gabriel, Victor Faria e Eliane Oliveira
·3 minuto de leitura
Reprodução
Reprodução

As declarações do presidente Jair Bolsonaro durante a reunião de líderes do G20 de que há um movimento político para destruir a diversidade e dividir os brasileiros e que ‘tensões raciais são alheias à História’ do Brasil repercutiram entre entidades, políticos e na sociedade.

A historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz diz que fica impressionada em “como esse governo quer refundar o ‘mito da democracia racial brasileira’, que já devia estar enterrado e extinto”:

— Esse foi um modelo criado nos anos 1930 e muito estimulado durante a ditadura militar, que produziu muita cegueira cultural, política e social, pois impediu aos brasileiros que reconhecessem como o racismo faz parte e está imiscuído de forma complexa nas nossas relações estruturais e institucionais. É por isso que o governo faz propaganda mostrando crianças brancas ou recorrendo ao modelo da mestiçagem. O problema é que mestiçagem no Brasil não significa apenas mistura, uma vez que combina-a com uma tentativa de eternizar a subordinação, a hierarquia e uma política perversa de esteriótipos. Os dados oficiais mostram a existência de um genocídio negro no Brasil. Já o famoso negacionismo do presidente não é sinal de “liberdade”, mas de um profundo desrespeito diante do assassinato de seus cidadãos negros.

O pesidente também usou o Twitter para fazer uma série de sete posts nos quais defende a ideia de que o país tem questões mais complexas do que os problemas raciais.

O deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ) disse em rede social que o Brasil está “consternado com o assassinato brutal” e questionou como “um presidente do país que tem o 2º maior número de negros no mundo, agir com tanta indiferença?”. Segundo Freixo, “só Bolsonaro, que saiu do lixo e pro lixo voltará, age assim”.

Colega de Freixo no Congresso, a deputada Benedita da Silva (PT-RJ) afirmou, no Twitter, que a “falta de consciência social do Bolsonaro está destruindo o país”:

“As questões raciais não são alheias ao nosso país, que teve o povo negro como escravo por 388 anos e, mesmo após a abolição, as desigualdades raciais continuaram”.

O artista plástico Nuno Ramos chamou as declarações de Bolsonaro de "sequência de disparates" e destacou a importância de discutir o que foi dito e não "naturalizar e fingir que não acontecei".

"Esse é o limite ético que o Brasil precisa encarar - não naturalizar, não diminuir, não fingir que não aconteceu. Nosso presidente não é apenas negacionista do clima ou dos problemas raciais - é um ativo e permanente estimulador do racismo e da destruição ambiental. Negar racismo diante do assassinato filmado de um cidadão negro, espancado "naturalmente" até a morte, com o som ao fundo da argumentação pacificadora de uma funcionária, como se a vítima merecesse a punição, não é apenas mais um disparate presidencial, mas um estímulo e uma defesa dessa barbaridade" disse.

Alessandro Molon, deputado federal (PSB-RJ), fez uma crítica a quem nega a existência do racismo e afirmou que “é isso que Bolsonaro faz”.

“Negar o racismo apenas o reforça e condena o país a continuar sofrendo suas consequências nefastas. É isso que Bolsonaro faz: ajuda a perpetuar as injustiças. O oposto do que deveria fazer”, publicou em seu Twitter.

O presidente da Comissão Nacional da Verdade da Escravidão Negra do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil , Humberto Adami, diz que a fala de Bolsonaro demostra que ele não conhece a população do Brasil:

— É uma ideia tacanha, absurda. A declaração embute um racismo que vem desde a escravidão negra no Brasil — afirmou.

O movimento americano Vidas Negras Importam também fez no Twitter um post em apoio aos manifestantes brasileiros. “Nos levantamos pela nossa família na Nigéria, vamos fazer o mesmo pelos nossos irmãos negros no Brasil!” O grupo repostou uma série de publicações do Movimento Vidas Negras, que também prestou solidariedade aos brasileiros.