Revés no MEC expõe a falta de referências técnicas da bolha bolsonarista

Matheus Pichonelli
·6 minuto de leitura
Bolsonaro e sua equipe druante cerimônia em 9 de junho. Foto: Andre Borges/NurPhoto (via Getty Images)
Bolsonaro e sua equipe druante cerimônia em 9 de junho. Foto: Andre Borges/NurPhoto (via Getty Images)

Imagine que você passou 30 anos atacando todos os governos eleitos a torto e a direito.

Nas redes, a fúria encenada lhe rende fama, palanque e a aura de “mito”.

“Tá aí uma pessoa que tem coragem de falar a verdade”, diziam os seguidores, que se avolumavam em momentos de crise.

Até que o conceito de crise formou uma tempestade perfeita, derrubou vidraças e portões de vidro dos frágeis processos democráticos. E você, que era pedra, ganhou uma faixa presidencial, uma vidraça e um tapinha nas costas dizendo: “vai que é tua, fera!”

É então que, entre tantos lugares-comuns, o grande clichê da vida adulta volta à testa como bumerangue: falar é fácil, quero ver fazer.

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Entre tanto falatório e promessas furadas (o fim do toma-lá-dá-cá e das escolhas ideológicas, lembra?), a montagem de um ministério minimamente sério era só o começo dos trabalhos. Nem que fosse para escalar o Geraldão, da turma do futebol, a dona Vanderleia, antiga inspetora da escola, o Virso, do escritório, e a Joaquina, do grupo dos passeadores de cães. Qualquer reunião de amigos pareceria mais ministério do que este escalado por Jair Bolsonaro, o tuiteiro que virou presidente. (Isso para não falar dos segundos escalões, onde um sanfoneiro faz as vezes de presidente da Embratur e mostra ao vivo seu diploma na escola Joel Santana em inglês fluente).

O caso de Carlos Alberto Decotelli é sintomático.

Anunciado numa quinta-feira como ministro da Educação, ele foi derrubado cinco dias depois após vir a público uma série de inconsistências em seu currículo. Vamos chamar de inconsistência para ficar no eufemismo.

Sob o escrutínio da imprensa, que fez o trabalho que a Abin (Agência Brasileira de Informação) não fez, descobriu-se que o professor escolhido para chefiar o MEC não tinha doutorado nem pós-doutorado e que sua dissertação de mestrado continha indícios de plágio. Ah, ele também não era militar da reserva da Marinha; lá ele prestou apenas serviço temporário, sem passar pelas escolas de formação oficiais, como mostrou a jornalista e escritora Thaís Oyama em seu blog no UOL.

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No meio da artilharia, a FGV veio a público dizer que Decotelli também não dava aulas lá. Foi desmentida pelo próprio*. Mas era tarde demais.

Bolsonaro chegou a julho, no meio da pandemia, tendo de procurar um novo ministro da Educação após o último fugir para os EUA. Os antecessores ou passavam mais tempo nas redes xingando opositores, ou não tinham ideia do que faziam ali ou tinham o currículo cheio de furos. Ou um pouco de tudo.

O leitor afastado de paixões e que acompanha a tudo isso incrédulo terá toda razão em se questionar se é possível alguém que vislumbrou um dia a possibilidade de ser eleito presidente não conhecer, mesmo que superficialmente, alguém que tenha de fato credenciais para assumir a missão -- hoje histórica, já que, enquanto o governo bate-cabeça, uma série de decisões fundamentais a respeito do Enem e do Fundeb precisam ser tomadas num contexto em que a evasão escolar já não é um fantasma.

A crise fica mais evidente quando se pensa que qualquer um tem só na lista de contatos de WhatsApp pelo menos três opções melhores e com mais envergadura para assumir o posto do que os que já nomeados pelo presidente.

Em 30 anos de vida pública, Bolsonaro não se cercou de nenhum amigo, assessor, consultor formal ou informal que pudesse telefonar para indicar ou pedir indicações de quadros que pelo menos tivessem alguma consistência curricular -- (talvez pedir referência na área fosse muito)? Ele realmente acreditava que seu círculo de relacionamento e convivência daria conta de tocar um país na base do voluntarismo e da lealdade às suas ideias aparentemente imutáveis e gravadas na pedra?

Com quem ele andou nesse tempo todo? (Se você pensou num certo esconderijo em Atibaia, não te culpo).

Fora desse ciclo, o que aconteceu com quem se aliou ao bolsonarismo mas não se dobrou, ao menos não totalmente, à cartilha bolsonarista que produz inimigos até na sombra e é incapaz de buscar consensos ou agregar divergências? Pergunte a Sergio Moro, Luiz Henrique Mandetta, Nelson Teich, o general Carlos Alberto dos Santos Cruz, entre outros.

Decotelli foi a bola da vez, mas o governo que pretendia servir já fazia escola.

Seus antecessores, Abraham Weintraub e Ricardo Vélez Rodríguez, também haviam inflacionado o currículo, mas caíram por outras razões. E, diferentemente do que anunciavam, Damares Alves, ministra dos Direitos Humanos, não era “mestre em educação e em direito constitucional” e Ricardo Salles, do Meio Ambiente, não só não havia estudado na Universidade Yale (EUA) como tinha sido condenado em uma ação por improbidade administrativa relacionada ao...meio ambiente.

Os prejuízos das escolhas por afinidade, e não por capacidade, são mais ou menos visíveis, mas já corroem a credibilidade do país. Que o digam os gestores dos fundos ambientais preocupados com a incapacidade técnica, para não dizer má-fé, dos responsáveis pelo setor.

Tudo se agrava quando se pensa que as inconsistências de Decotelli só vieram a público quando ele ganhou os holofotes para chefiar a Educação. Até outro dia, ele transitava anônima e tranquilamente com suas credenciais forjadas como presidente do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), órgão estratégico para políticas educacionais e que gerencia um orçamento de R$ 30 bilhões.

Em 2019, ele estava à frente do órgão quando foi feita uma licitação de cerca de R$ 3 bilhões para a compra de 1,3 milhão de computadores, laptops e notebooks para a rede pública. Como lembrou o jornalista Elio Gaspari, a coisa foi tão bem feita que 3565 colégios receberiam mais de um laptop por aluno -- no caso de uma escola de Minas, eram 3.030 aparelhos para 255 estudantes.

A Controladoria Geral da União sentiu o cheiro da encrenca e, assim como a nomeação de seu ex-presidente para o MEC, o FNDE cancelou a licitação pouco depois.

E pensar que até outro dia havia quem acreditasse na conversa de que o maior problema na educação do país era a “ideologia” nas escolas.

*Essa informação foi atualizada em 02/07 após o professor se posicionar sobre a nota da FGV e provou que tinha, sim, vínculos com a instituição.