'Decretos Reais vol. 1' resume tudo o que fez de Marília Mendonça um sucesso inescapável

Há discos que, na busca desesperada pela sonoridade do seu tempo, da gíria certa ou da oportunidade memética, acabam ficando velhos antes mesmo de saírem. E há Marília Mendonça, que mesmo a morte num acidente de avião, em novembro passado, não conseguiu matar nos anseios dos ouvintes. Foi esta cantora que quebrou a internet ontem com o lançamento do EP póstumo “Decretos reais Vol. 1”.

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Reunindo gravações extraídas de uma live, “Serenata”, feita em maio de 2021, o disco resume à perfeição, em quatro faixas (uma delas, a junção de duas canções), tudo o que fez de Marília um sucesso inescapável: há algo ali de um Brasil profundo, bem mais antigo do que a própria artista (que teria feito 27 anos na quinta), ao qual ela conseguiu dar uma voz fresca. Um Brasil de uma sofrência que pode até se disfarçar, mas que não muda na essência

Vindo de uma cantora que começou a sacudir a música brasileira como precoce compositora, “Decretos reais” é um disco com uma baita consciência histórica. Mais do que um compilado de “clássicos da música sertaneja”, como vende o press release, ele é um inventário bem imaginativo daquilo que por aqui se convencionou chamar de brega: um tipo de canção fora da rota urbana e universitária, que bebeu da música caipira, do bolero, da guarânia, da jovem guarda e do pop de FM, para conquistar ouvidos, corações, mentes e bolsos do povo entre os anos 1970 e 80.

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Cheio de efemeridades dançantes na gravação de Leonardo, em 2002, “Te amo demais” ganha sua melhor forma na versão de Marília: sax, teclado oitentista e todo aquele clima de uma atemporal churrascaria, que sublinha a mensagem da letra – a de que não dá para sufocar o jeito pouco refinado de amar que o brasileiro tem. Brega castiço, revivido nos memes do bebum Jeremias Muito Louco, “Te amo que mais posso dizer” foi o grande hit do cantor Ovelha, em 1981 (verão de um rock dos anos 1960, “More than I can say”, de Bobby Vee). Ele renasce com uma mistura muito Marília Mendonça de órgão, guitarrinha chacundum, corinho feminino e – é claro – sanfona.

Abolerado e com som de sintetizador velho, “Não era pra ser assim”, sucesso de Zezé di Camargo e Luciano, se encaixa perfeitamente nesse estilo festeiro/sofredor de Marília – essa intérprete cuja sensibilidade permite fazer até um pot-pourri de “Sendo assim” e “Muito estranho”. A primeira, um brega de raiz, gravado em 1976 pelo paraibano Genival Santos. A outra, um hit das FMs de 1982, do niteroiense Dalto. A cantora costura as diferenças de um Brasil a partir do que o seu povo tem de mais semelhante: a sem-vergonhice nas paixões e nas desilusões.

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