Defender mulher de agressão é imposição moral, diz jornalista que arremessou celular de deputado

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O jornalista Leão Serva, 62, sabe que tomou uma atitude controversa na madrugada de quarta-feira (14), quando arrancou o celular da mão do deputado estadual Douglas Garcia (Republicanos) e arremessou o aparelho para bem longe do proprietário.

Ponderando as muitas facetas da situação, ele diz em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, feita por escrito: "Intervir em uma cena jornalística é defensável; defender uma mulher de agressão é uma imposição moral".

Mas isso não resume tudo. Ele condena os palavrões que falou (ao arremessar o celular, gritou: "Vai para a puta que te pariu, filho da puta!") e considera que sua atitude deve ser evitada.

A cena se deu logo após o debate entre candidatos a governador de São Paulo, promovido por Folha de S.Paulo, UOL e TV Cultura. Douglas Garcia se aproximou da jornalista Vera Magalhães, que é âncora do programa Roda Viva, da TV Cultura, e começou a hostilizá-la com agressões verbais.

Leão Serva, que havia mediado o debate e é diretor de Jornalismo da TV Cultura, percebeu a confusão, atravessou uma barreira de pessoas e deu de cara com o celular. "Então peguei e quis jogá-lo longe, onde não houvesse gente", relembra.

Garcia, que disputa o cargo de deputado federal neste ano e integrou a comitiva do ex-ministro e candidato a governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), registrou um boletim de ocorrência em que menciona os dois jornalistas, observando que o celular foi preservado, sem danos.

PERGUNTA - Por que o senhor tomou a decisão de arrancar o celular da mão do deputado?

LEÃO SERVA - Em primeiro lugar, é importante lembrar que adrenalina é uma substância cuja secreção corresponde a uma descarga elétrica poderosa. Eu não "decidi", apenas vi o que acontecia e agi.

Eu ia intervir em defesa da Vera [Magalhães] me interpondo entre os dois. Mas, quando atravessei a barreira de gente, dei com aquele celular bem na minha frente, ao alcance de minha mão, e percebi que ele era "a arma do crime". Então peguei e quis jogá-lo longe, onde não houvesse gente.

Em que momento o sr. percebeu que aquela era, na sua avaliação, a "única solução possível"?

L. S. - Ele é um homem forte, musculoso. E usava seu corpo para deixar o celular no alto. O corpo fala e, ali, dizia: o celular é o centro da cena. E o deputado estava ali para "lacrar". Nesse átimo, percebi que, ao agarrar o celular, eu interromperia a cena.

Mas, como ele se aproximou, eu dei dois passos e joguei longe, antes que ele me impedisse. Eu estava vendo a plateia e sabia que ia cair em um lugar sem gente. Naquele momento, interrompendo a lacração, acabou a cena.

O sr. faria de novo ou tem algum arrependimento pelo ato?

L. S. - Aquela cena rápida contém muitas ocorrências. Sim, eu jamais assisti passivamente à agressão a uma pessoa. E ali era uma mulher diante de um homem forte e muito agressivo. Eu interviria de novo.

Se fosse uma ação refletida, eu apenas o afastaria dali, e isso foi feito em seguida por um segurança. Jamais repetiria os palavrões, de que me envergonho. Eles não me representam.

O sr. é professor de ética e jornalismo opinativo. Cerca de 40 de seus alunos na ESPM estavam na plateia. Acha que sua atitude foi um bom exemplo?

L. S. - Esse será o tema de minha próxima aula. Entre as muitas facetas [do caso]: intervir em uma cena jornalística (uma questão eterna da ética) é defensável; defender uma mulher de agressão é uma imposição moral; tirar a arma de um criminoso é uma ação defensável; jogá-la longe pode ser uma solução.

Por outro lado, envolver-se fisicamente em um confronto é um erro; xingar alguém é um absurdo, deve ser evitado. Vou recomendar com clareza que eles estudem o caso como algo que devem evitar, mas que, se ocorrer, devem procurar pensar bem antes de agir.

Como tem sido a repercussão?

L. S. - Muito grande em mídias sociais, virei meme... E tema coadjuvante de um noticiário marginal da cena política. Acho que todos os envolvidos querem que a cena passe.

O sr. tem medo de que seu gesto legitime atitudes semelhantes contra jornalistas, numa falsa equivalência com o caso de entrevistados que se sintam pressionados?

L. S. - Objetivamente, centenas de agressões desse tipo têm ocorrido a jornalistas, inúmeros entrevistados agridem jornalistas, a começar pelo presidente da República, sem reação dos agredidos ou em sua defesa. Se essa alegação aparecer, será apenas por mais um cinismo.

RAIO-X

Leão Serva, 62

Mestre e doutor em comunicação e semiótica pela PUC-SP, com estudos sobre jornalismo e fotografia de guerra. É diretor de jornalismo da TV Cultura e professor de ética e jornalismo opinativo na ESPM. Foi secretário de Redação da Folha de S.Paulo de 1988 a 1992 e correspondente de guerra de 1992 a 1993.