Defesa Civil fará vistoria para verificar se prédio do Hospital de Bonsucesso tem risco estrutural após incêndio

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Um agente da Defesa Civil do Rio com um dos bombeiros que trabalham no rescaldo do incêndio no Hospital de Bonsucesso
Um agente da Defesa Civil do Rio com um dos bombeiros que trabalham no rescaldo do incêndio no Hospital de Bonsucesso

Técnicos da Defesa Civil do município do Rio vão realizar uma vistoria da estrutura do Hospital Federal de Bonsucesso, na Zona Norte, afetada pelo incêndio na terça-feira, dia 27. O objetivo é verificar se o imóvel apresenta risco estrutural. No entanto, o serviço só será feito após a liberação do local pelo Corpo de Bombeiros, que segue há mais de 24 horas trabalhando no rescaldo. O órgão isolou a área do incêndio e os acessos ao hospital lainda na terça-feira, e dão suporte ao trabalho dos bombeiros.

"Os bombeiros ainda estão trabalhando na fase de rescaldo, que exige muita calma, porque é uma etapa que precisa ser tecnicamente muito bem finalizada, para cessar todos os focos de incêndio, e então liberar a área para as equipes da perícia e da Defesa Civil", explica o subsecretário de Proteção e Defesa Civil, Djalma de Souza Filho.

Os problemas do Hospital Federal de Bonsucesso não são de hoje. A unidade não tinha certificado de funcionamento do Corpo de Bombeiros. Um levantamento da Associação Contas Abertas mostra que os gastos da unidade caíram 40% desde 2010, passando de R$ 218 milhões para R$ 131 milhões por ano. E não faltaram alertas sobre suas más condições estruturais.

Ao fim de uma vistoria realizada em 2019, por exemplo, técnicos do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS) apontaram falhas graves no sistema de prevenção a incêndio e “alto risco de explosão”, por conta do superaquecimento de dois transformadores. No mesmo subsolo onde as chamas surgiram, eles descreveram, em um relatório com fotos, vários problemas no sistema elétrico. Registraram ainda que hidrantes estavam desativados e com mangueiras danificadas.

Polícia Federal vai investigar incêndio

No início da pandemia, o hospital chegou a ser anunciado como unidade federal de referência no tratamento de pacientes com Covid-19 no Rio. Um de seus blocos foi adaptado para receber os infectados que precisassem de internação. Seriam de 150 a 200 leitos. O plano, no entanto, não foi adiante, por falta de pessoal. Por meio de uma nota, o Ministério da Saúde afirmou que o HFB conta com diversos projetos, alguns em andamento, “para uma série de reformas de urgência”. O órgão lamentou as mortes e destacou que apenas o trabalho de peritos poderá identificar a causa do incêndio — a investigação está a cargo da Polícia Federal.

Além disso, a pasta prometeu tomar “as devidas providências para garantir a segurança de todos funcionários e pacientes” e assegurou que “não serão medidos esforços para apoiar o hospital e retomar as atividades o mais breve possível”.

Inspeção mostra falta de cuidados

Na inspeção, técnicos do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS) também identificaram que havia superaquecimento em dois transformadores da subestação principal do hospital. Um deles chegou a atingir 148,6 graus e o outro, 128,6 graus. Foram verificadas ainda infiltrações, o que, segundo o relatório, poderia comprometer inclusive a estrutura do edifício.

A inspeção mostrou que a falta de cuidado era generalizada. Havia hidrantes desativados com mangueiras danificadas e sem condições de uso. Cabos estavam expostos, e equipamentos estavam obsoletos e em desacordo com normas técnicas. Os peritos também não encontraram sistemas de detecção de fumaça e sprinklers. Por isso, o hospital não tinha licença do Corpo de Bombeiros. Quase dois anos depois, o Bonsucesso continua sem certificação da corporação.

Para Chrystina Barros, pesquisadora do Centro de Estudos em Gestão de Serviços de Saúde da UFRJ, o incêndio no Bonsucesso remete a um histórico de falta de investimentos nas unidades de saúde que precisa ser alvo de investigação.

— Infelizmente, pelo histórico do nosso país, faltam fiscalização ativa e investimentos nas unidades. Mas tudo tem que ser apurado com muita calma, porque é comum que, nesses momentos, a gente responsabilize o gestor local, que fica na ponta. Mas, principalmente numa estrutura pública, sabemos o quanto de burocracia existe para que ele consiga fazer o gerenciamento de maneira adequada — ressaltou.