Defesa de Flordelis diz que morte de Anderson do Carmo foi planejada por filha biológica, que nega

O julgamento de Flordelis Santos, três filhos e uma neta pela morte do pastor Anderson do Carmo entrou no sétimo dia de juri. Desde a noite de sábado, defesa e acusação realizam os debates, penúltima etapa do processo e última antes dos jurados decidirem se absolvem ou condenam os réus. A decisão deve sair na manhã deste domingo. Na abertura dos debates da defesa, a advogada de Flordelis exibiu um vídeo afirmando que o assassinato de Anderson do Carmo foi um plano de Simone dos Santos e Flávio dos Santos, filhos biológicos da pastora.

Além da pastora, são julgados neste juri André Luiz Oliveira, filho afetivo que foi o primeiro interrogado neste sábado; Marzy Teixeira, filha afetiva; Simone dos Santos Rodrigues, filha biológica da pastora; e a neta Rayane Oliveira. Flávio dos Santos já foi condenado por ter sido o executor do assassinato. Ao fim da primeira fala, a defesa pediu a absolvição de todos.

Simone é a única ré deste julgamento que não é defendia pela banca de advogados de Flordelis. Sua defesa negou que tenha participação na morte e pediu sua absolvição. As imagens apresentadas pela advogada Janira Rocha, uma mulher narra por cerca de 10 minutos a vida de Flordelis e sua ascensão como pastora e política.

"Anderson do Carmo não foi morto por Flordelis, não foi morto por dinheiro. Foi pelos abusos cometidos contra Flordelis, Simone e suas filhas. Foi planejado por Simone e Flávio”, termina o vídeo.

A ex-deputada, em um raro momento, acompanhou a exibição da prova. Ao ver as imagens e fotos antigas, bateu o pé demonstrando nervosismo. Quando o vídeo começou a narrar os fatos mais recentes, ela abaixou a cabeça e passou a mão pelo cabelo entrelaçando os dedos na nuca - também demonstrando estar nervosa. Mais tarde, durante a fala de Rodrigo Faucz, advogado de defesa, ela murmurou: "Por favor, Deus, me ajude".

Os advogados sustentam que a motivação do crime não foi poder e dinheiro, como afirma a denúncia do Ministério Público. A advogada Janira Rocha alegou que os abusos sexuais é que motivaram o assassinato e afirmou que a comprovação de que eles ocorreram é que duas testemunhas de acusação admitiram que havia abusos na casa. Janira ainda citou, em sua sustentação, exemplo de mulheres famosas que demoraram anos a denunciar casos de estupro, como Hebe Camargo e Xuxa Meneghel.

Apesar do que foi dito no início da apresentação da sua defesa, mais cedo ao ser interrogada, Flordelis negou saber quem matou Anderson do Carmo. A ex-deputada respondeu às perguntas apenas da defesa e dos jurados. A advogada Janira Rocha conduziu o interrogatório e perguntou quem é o autor do homicídio do pastor Anderson do Carmo, marido de Flordelis.

— Eu não posso acusar ninguém. Não estava presente no local, não vi. Não posso afirmar — disse a pastora.

Apesar de não saber quem matou Anderson, Flordelis disse que a motivação foram os supostos abusos:

— É muito difícil pra mim falar, mas foi a ciência, os abusos. Os abusos na minha casa — disse a pastora. — Eu não tinha conhecimento. Eu amava meu marido. Ele era tudo para mim, era minha vida. Houve desconfiança uma única vez, com minha filha Kelly.

A defesa rebateu as provas do suposto envenenamento sofrido por Anderson do Carmo. Ao exibir as buscas na internet de Marzy e Simone por cianeto, o advogado Rodrigo Faucz afirmou que o MP não conseguiu comprovar a data que as buscas foram feitas.

O depoimento do perito Sami Abder tammbém foi relembrado. Convocado pela defesa, ele analisou os prontuários médicos de Anderson do Carmo, dos anos anteriores do crime, e afirmou não haver indícios de que ele tenha sofrido envenenamento. Flordelis e os outros réus são acusados de tentar matar o pastor antes do crime com substâncias tóxicas. Filhos afetivos de Flordelis disseram nos primeiros dias de julgamento que flagraram Simone Rodrigues, filha biológica da ex-deputada, colocar substâncias no suco e na comida da vítima.

Foi exibido ainda um parecer do perito do Ministério Público que disse não "ter ekementos técnicos de comprovação para determianr que a intoxicação por cianeto foi consumuda".

- Se o Ministério Público acreditasse no envenenamento, pediria a exumação do corpo. O própio perito do MP diz ser possível - alegou Faucz.

A defesa também pediu a absolvição de Flordelis e dos demais réus por todos os crimes que eles respondem. Caso os jurados entendam pelo contrário, os advogados pedem ela não seja condenada por homicídio qualificado: por motivo torpe (vingança pelo controle financeiro), por meio cruel que não se deu chance de defesa da vítima. A defesa alega que a motivação do crime foram os supostos abusos sexuais e que Anderson morreu de forma instantânea, apesar dos diversos disparos que o atingiu.

A acusação é dissociada com a realidade probatória. Seja por conta dos abusos, seja devido às ausências de provas, a defesa pede que a absolvam. Alguém para ser condenado, precisa ter provas fortes, mas não é o caso - falou Faucz ao juri.

A filha biológica de Flordelis dos Santos de Souza, Simone dos Santos Rodrigues, voltou atrás e não confessou ter sido a mandante da morte do pastor Anderson do Carmo, seu padrasto. A versão apresentada durante o interrogatório na tarde deste sábado é diferente da que ela vinha sustentando até então. Ela foi a última ré a ser ouvida no sexto dia de julgamento do caso, no Tribunal do Júri de Niterói, na Região Metropolitana do Rio. Simone alegou que a morte de Anderson foi motivada por relatos seus a seu irmão, Flávio dos Santos Rodrigues, sobre abusos sexuais do pastor contra ela e uma de suas filhas.

A advogada Daniela Grégiorio, que defende Simone, alegou que o crime foi cometido por motivação sexual: Anderson do Carmo teria abusado sexualmente de Simone e a filha Rafaela Oliveira. A ré então teria contado a Flavio dos Santos sobre os episódios - ele já foi condenado por ser executor do crime. A defesa pediu a absolvição de Simone.

-- Qual foi o intuito dela ao contar para o irmão? Não sei. Sei que contou em uma medida desesperada porque percebeu que estava chegando na filha. Se a minha cliente cometeu algum crime foi ter contado ao irmão. Abusada pelo padrasto, tendo que ficar calada para viver, ela merece ir para cadeia? - afirmou Daniela aos jurados.

No início da noite deste sábado, o julgamento de Flordelis dos Santos chegou na penúltima etapa. O Ministério Público e a defesa dos réus fazem os últimos debates antes de o Conselho de Sentença decidir se os acusados serão condenados ou absolvidos. O juri é realizado no Fórum de Niterói e deve ter o resultado até a manhã deste domingo. Além da pastora, são julgados André Luiz Oliveira, filho afetivo que foi o primeiro interrogado neste sábado; Marzy Teixeira, filha afetiva; Simone dos Santos Rodrigues, filha biológica da pastora; e a neta Rayane Oliveira. No fim das alegações, o MP pediu a absolvição de André pela morte do pastor, mas manteve o pedido de condená-lo por tentativa de homicídio — por tentar envenená-lo — e por associação criminosa armada. Os demais réus responderão pelo assassinato de Anderson. O Ministério Público também pediu uma redução de pena para Rayane, por ela ter uma contribuição menor no planejamento do crime.

Cada lado terá duas horas e meia para pedir a absolvição ou a condenação dos réus. Poderá haver, ainda, pelo menos duas horas para réplica e o mesmo tempo para tréplica. Os mesmos advogados defendem Flordelis, Rayane, André e Marzy. Apenas Simone é representada por outra advogada, Daniela Grégiorio. Após os debates, os sete jurados, quatro mulheres e três homens, irão se reunir na “Sala Secreta” para decidir o futuro dos réus. Eles são moradores de Niterói e não necessariamente possuem formação jurídica.

Além do envolvimento na morte do pastor Anderson do Carmo em 2019, uma das acusações que os réus enfrentam é sobre uma tentativa de envenenamento do pastor antes de seu assassinato, o que também foi negado pela ex-deputada. Em uma mensagem enviada por um telefone da filha, Flordelis teria dito para dar um “arrozinho” para Anderson.

O assassinato do marido de Flordelis foi em 16 de junho de 2019 na garagem da casa da família, em Niterói. O laudo cadavérico atestou que a vítima tinha 30 marcas de tiro no corpo. Questionada por sua advogada Janira Rocha, a ex-deputada disse que não viu quem cometeu crime, mas atribuiu a “abusos” cometidos pelo pastor dentro de casa o motivo do homicídio.

— É muito difícil pra mim falar, mas foi a ciência, os abusos. Os abusos na minha casa — disse a pastora. — Eu não tinha conhecimento. Eu amava meu marido. Ele era tudo para mim, era minha vida. Houve desconfiança uma única vez com minha filha Kelly.

O Ministério Público abriu sua fala dizendo aos jurados que o julgamento durou seis dias porque se tornou dois: um dos cinco réus que respondem pela morte de Anderson do Carmo e outro do próprio pastor. Os relatos de supostos abusos sexuais foram tratados como “a mais nova tese” dos defensores e que “viola a memória da vítima”.

— Fizemos dois júris aqui. São cinco as pessoas que vieram ser julgadas, mas o que vimos foi uma tentativa da defesa fazer o Anderson sentar no banco dos réus. Morto não fala. Na visão do Ministério Público, essa tese de conveniência é violadora da dignidade e da memória da vítima. A vítima é Anderson, que foi encontrado com 30 perfurações, de cueca, na porta de casa. A tese dos abusos sexuais é a mais nova. A primeira que surge é o latrocínio, que durou um dia. Quer se fazer uma releitura e jogar nessa história pontos de abuso — afirmou Mariah Paixão, promotora do Ministério Público.

Foi exibido um vídeo em que Lucas Cezar dos Santos depõe ao Tribunal de Justiça sobre como comprou a arma usada na morte do pastor. A compra da pistola foi feita dois dias antes do assassinato de Anderson. Ele ainda lembra que Rayane e Marzy ofereceram R$ 10 mil e relógios do pastor para assassiná-lo. No depoimento, ele diz “achar” que o dinheiro viria de Flordelis, pois as irmãs não poderiam ter tamanha quantia disponível. Lucas já foi condenado pela participação no crime.

“A Marzy mandou um print para mim da conversa dela com a Flordelis. Era para eu simular um assalto, pegar as coisas dele e sumir”, contou Lucas à época.

Enquanto o Ministério Público apresentava seus argumentos, Flordelis permaneceu de cabeça baixa, como em grande parte do julgamento. Ao promotor lembrar a história de Moisés, neto da pastora, que teria sido “doado” de uma das filhas afetivas a Simone, a pastora balançou a cabeça de forma negativa.

— É uma história de um poder absoluto de alguém que se considerava uma Deusa e começou a ser questionada por dar privilégio a filhos biológicos, enquanto deixava os outros escravos de lado. Anderson era quem administrava as contas da família. Ela começou a achar pouco os 40% destinados a ela dos lucros — afirmou o promotor Décio Oliveira.

Para sustentar a tese de que Anderson do Carmo teria sido envenenado pelos réus antes de sua morte, o MP lembrou as mensagens recuperadas nos aparelhos dos réus. Em uma das conversas enviada por um telefone da filha, Flordelis teria dito para dar um “arrozinho” para Anderson. O MP também levou uma gravação do perito Luis Carlos Prestes que analisou os prontuários médicos do pastor. O médico afirmou “chamar muita atenção” ele ter seis atendimentos em um curto período com os mesmos sintomas.

“Cheguei à conclusão de que esses sinais e sintomas coadunam para arsênio, com uma intoxicação crônica. Uma vez inserido em doses subletais, causaria esses sinais e sintomas que ele apresentou no hospital. Não cheguei a essa conclusão apenas pelos sintomas, mas o arsênio pode se apresentar em forma solúvel que é facilmente misturado à comida, à água. Tem um aspecto de pó branco e isso facilita a intoxicação para que a vítima não perceba a mistura. Uma intoxicação crônica simularia sintomas genéricos” afirmou o perito à época.

Em seguida, o Ministério Público mostrou um depoimento em juizo de Simone em outro processo. Na época ela foi questionada do porquê ter pesquisado na internet sobre onde comprar “cianeto” e !alimentos que continham”.

“Pesquisei, mas não foram para matar o pastor Anderson. Estava assistindo uma série de investigação. Minha amiga falou que estava com um cachorro com câncer no quintal e iria matá-lo de paulada. Pesquisei alimentos que continha o cianeto. Nunca tentei envenenar o pastor”, disse a acusada na época.