Delação contra Cláudio Castro cita também Rodrigo Maia, aliado de Freixo

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A delação do empresário Marcus Vinícius Azevedo da Silva, homologada no final de 2020, atinge tanto o governador Cláudio Castro (PL), candidato à reeleição, como o secretário Rodrigo Maia (PSDB), aliado próximo do deputado federal Marcelo Freixo (PSB) nesta campanha para o Governo do Rio de Janeiro.

Silva afirmou em depoimento ao MPF (Ministério Público Federal), em agosto de 2020, que começou sua atividade criminosa em 2005 tendo como missão obter recursos para a campanha de Maia. O dinheiro viria de convênios firmados com a Prefeitura do Rio de Janeiro, à época comandada por Cesar Maia (PSDB), vice de Freixo.

O empresário narrou em acordo de colaboração sua versão sobre sua atuação criminosa em órgãos públicos do estado até julho de 2019, quando foi preso na Operação Catarata, que mirou desvios em projetos sociais tocados pela capital e pelo governo estadual.

Um dos capítulos finais, segundo ele, foi sua atuação junto a Cláudio Castro, iniciada em 2015. Ele afirma que o governador recebeu propina quando era vereador (2017 a 2018) e após se tornar vice-governador de Wilson Witzel, em 2019.

A existência da delação é conhecida desde setembro de 2020, mas seu conteúdo ficou sob sigilo por quase dois anos. As primeiras informações de Marcus Vinícius sobre Castro foram reveladas pela TV Globo durante sabatina com o governador na última quarta-feira (14) e detalhadas em reportagem do UOL desta sexta-feira (16).

Em nota, Castro afirmou que não comenta ações em segredo de Justiça, mas disse existir uma "indústria de delações" de criminosos para se livrar da cadeia. "O vazamento desse conteúdo é criminoso e visa única e exclusivamente interferir no processo eleitoral."

Maia disse que não conhece Marcus Vinícius e atribuiu a divulgação da menção ao seu nome a Castro. "A tentativa do governador Cláudio Castro de colocar as pessoas no mesmo balaio, não me intimida."

A delação é um meio de obtenção de prova, mas que não pode, isoladamente, fundamentar sentenças sem que outras informações corroborem as afirmações feitas.

As informações divulgadas sobre o governador se referem a um novo depoimento feito por Silva em julho deste ano ao Ministério Público do Rio de Janeiro, na ação penal contra pessoas sem foro privilegiado acusadas na Operação Catarata.

Durante o depoimento de 1 hora e 38 minutos, Marcus Vinícius fala por cerca de 20 minutos sobre Castro, em momentos distintos.

Diz que o governador recebeu US$ 20 mil dólares do empresário Flávio Chadud durante uma viagem a Orlando com familiares. Chadud era dono de empresas que tinham contratos com a prefeitura e a Fundação Leão 13, autarquia que ficou sob o guarda-chuva do então vice-governador a partir de 2019.

Marcus Vinícius também confirmou o pagamento de propina paga a Castro em junho de 2019, informação dada por Bruno Selem, outro delator. Os dois, porém, apresentam contradição em relação ao valor pago. Selem aponta o repasse de R$ 100 mil enquanto Marcus Vinícius, R$ 120 mil.

O empresário afirma também que Castro o nomeou como assessor na Câmara Municipal para que ficasse "escondido" em razão da exposição de seu nome após dez anos obtendo recursos ilegais para políticos na prefeitura.

"Fui alocado na Câmara dos Vereadores para não exercer nenhuma função. Fiquei liberado para cuidar do meu grupo empresarial e meus lobbys que já vinha fazendo", disse ele ao MPF em agosto de 2020, ao firmar sua delação.

No depoimento de 2020, Marcus Vinícius citou sua atuação em favor de Rodrigo Maia.

O empresário à época atuava como técnico da prefeitura no acompanhamento do convênio de ONGs com a Secretaria Municipal de Esporte e Lazer. Ele disse que foi convidado para o cargo pelo então secretário Gustavo Cintra, ligado a Rodrigo Maia.

"Não demorou muito, uns dois meses, fui chamado para uma reunião com ele. Ele falou: 'Marcus, você sabe como funciona o jogo. Nós temos aqui uma secretaria política e temos que trabalhar em função do deputado [Rodrigo Maia]. O deputado tendo mandato, o pai sendo prefeito, está todo mundo bem, todo mundo tem dinheiro'", relatou Marcus Vinícius.

"Já eram muitos anos lidando com ONGs a ponto de toda a prefeitura saber que eu operava. Sabiam que eu operava bem porque ninguém conseguia, teoricamente, encontrar os elementos para me alcançar numa investigação. A minha fama era de um excelente gestor técnico, como também um excelente operador", disse ele, em agosto de 2020.

Ele afirma que foi desta forma que, dez anos depois, chegou a Cláudio Castro.

VAZAMENTO VISA INTERFERIR NO PROCESSO ELEITORAL, DIZ CASTRO

Castro afirmou, por meio de sua assessoria, que não comenta ações em segredo de Justiça.

"O vazamento desse conteúdo é criminoso e visa única e exclusivamente interferir no processo eleitoral. Infelizmente no Rio de Janeiro há uma indústria de delações feitas por criminosos que querem se livrar da cadeia e acusam autoridades de forma leviana."

Rodrigo Maia disse que não conhece Marcus Vinícius e atacou Castro, a quem atribui o vazamento da menção ao seu nome.

"Não conheço esse delator e ninguém fala em meu nome. Se o Gustavo Cintra tiver cometido algum crime, que responda por ele. Espero que o Ministério Público continue investigando tudo, mas principalmente o governo do Rio de Janeiro. O governador Cláudio Castro lidera um governo 'jovem', mas que já iniciou podre", disse ele.

A Folha de S.Paulo não conseguiu contato com Cintra.

O advogado Marcio Delambert, que defende Chadud, disse que as delações de Marcus Vinícius e Selem são combinadas, mas sem qualquer prova.

"O delator disse que não presenciou e não estava no local. É uma obra de ficção na base do 'ouvir dizer'. Nunca fez pagamento no Brasil ou no exterior a qualquer agente público. São afirmações mentirosas para sustentar benefícios graciosos e manter a sua impunidade", afirmou o advogado.