Delação da viúva de Adriano da Nóbrega está nas mãos do chefe do MP; há indícios de crimes de pessoas com foro privilegiado no depoimento

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A delação de Júlia Lotufo, viúva do ex-capitão do Bope e miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega, está prestes a ser assinada, ou não, pelo procurador-geral de Justiça, Luciano Mattos. Há mais de um mês, Júlia procurou a Polícia Civil propondo uma colaboração em troca de sua liberdade. Ela responde pelos crimes de organização criminosa e lavagem de dinheiro e teve sua prisão preventiva convertida em domiciliar com o uso de tornozeleira eletrônica, em março deste ano.

O secretário de Polícia Civil, Allan Turnowski, levou o caso para Mattos, que aceitou que o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) ouvisse Júlia. Nesta quarta-feira, depois de a delação da viúva do miliciano ter ficado pronta, o promotor da 1ª Vara Criminal Especializada, Luís Augusto Soares, entregou os documentos da colaboração sem assinar. Ela prestou o depoimento para Soares, porque ele atua na vara específica que julga organizações criminosas e que decretou a prisão de Júlia. Segundo fontes, como a viúva de Adriano citou nomes de pessoas com foro privilegiado, Soares entendeu que não poderia assinar o documento que, após a aprovação do MPRJ, terá que ser homologado pela Justiça.

Caso Luciano Mattos assine a delação, a homologação terá que ser encaminhada para o Tribunal de Justiça (TJ), Superior Tribunal de Justiça (STJ) ou Supremo Tribunal de Justiça (STF), dependendo do foro de quem foi delatado por Júlia. Ainda existe a possibilidade de o procurador entender que não haja indícios suficientes contra pessoas com esse privilégio. Nesta situação, ele devolverá a delação ao promotor natural, que decidirá se aceita ou não o que a viúva de Adriano testemunhou.

Todo o depoimento de Júlia foi gravado. Caberá ao MPRJ confirmar o que ela disse por meio de provas documentais ou testemunhais. Há cerca de 10 anexos, segundo fontes, com informações sobre dezenas de homicídios ocorridos nos últimos 20 anos no Rio, principalmente aqueles que envolvem a contravenção.

Adriano da Nóbrega morreu no dia 9 de fevereiro do ano passado, supostamente numa troca de tiros com a polícia da Bahia, na cidade de Esplanada, no mesmo estado. Ele foi apontado pela Operação Intocáveis, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MPRJ, em 2019, como chefe da milícia de Rio das Pedras e da Muzema, na Zona Oeste do Rio, além de comandar um grupo de matadores de aluguel.

A delação de Júlia movimentou bastante a sede do órgão no último mês. Nos bastidores, o que se tem conhecimento é que a viúva do miliciano queria, num primeiro momento, falar sobre o esquema das “rachadinhas” — prática empregada por políticos ao exigirem parte do salário do funcionário dele — em gabinetes da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj).

Raimunda Veras Magalhães e Danielle Mendonça da Costa, mãe e ex-mulher de Adriano da Nóbrega, trabalharam no gabinete de Flávio Bolsonaro, quando era deputado estadual. Raimunda aparece no quadro de assessores do parlamentar desde janeiro de 2010, enquanto Danielle teria começado em novembro do mesmo ano. As duas foram exoneradas em novembro de 2018 por Flávio Bolsonaro. Atualmente, ele é senador.

Por causa disso, as tratativas da delação começaram com a promotora Olimpia Maria Lupi, assistente da Assessoria de Atribuição Originária Criminal, integrante do grupo criminal ligado diretamente ao procurador-geral de Justiça. No entanto, Júlia teria revelado que teria informações importantes sobre as mortes da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes.

A colaboração, assim, passou para as mãos das promotoras da Força-Tarefa do Caso Marielle e Anderson (FTMA). Embora as responsáveis pelas investigações, Simone Sibílio e Letícia Emile tenham encontrado contradições no depoimento da viúva do miliciano, elas iniciaram o termo de colaboração. Em seguida, o procurador-geral decidiu mudar, pela terceira vez, o promotor que se encarregaria da delação de Júlia. Há três semanas, Sibílio e Emile optaram por deixar o caso, por se sentirem alijadas do processo. Fontes disseram que elas alegaram “interferências externas” durante a delação, o que seria uma referência à Polícia Civil, que levou a testemunha.

Durante o processo, também houve a troca de advogados de Júlia. Inicialmente, quem conduziu a delação foi o criminalista Délio Lins e Silva. Do meio para o fim, a defesa da viúva de Adriano ficou nas mãos do ex-senador e procurador Demóstenes Torres.

O EXTRA procurou o MPRJ que informou que o caso está sob sigilo.

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