Delação gera disputa na Câmara de Vereadores do Rio

Luiz Ernesto Magalhães e Rafael Galdo
Rafael Alves em 2016, em visita a Jerusalém junto com o prefeito Marcelo Crivella, na época recém-eleito para administrar o município do Rio

A delação premiada sobre a criação de um “balcão de negócios” dentro da prefeitura já virou objeto de disputa dentro da Câmara de Vereadores. Depois de a oposição anunciar ontem que vai colher assinaturas para a instalação da CPI da Sacolinha, a própria base governista passou a cogitar a apresentação de pedido próprio de uma comissão de inquérito parlamentar para ter o controle das investigações. Ontem, o Ministério Público estadual disse que as denúncias do doleiro Sérgio Mizrahy estão investigadas num processo que corre em sigilo de Justiça por envolver o prefeito Marcelo Crivella, que tem foro privilegiado. Conforme o EXTRA revelou ontem, Mizrahy afirmou à Justiça que fazia parte de um esquema de liberação de pagamentos para empresas com débitos junto ao município em troca de pagamento de propina. Ontem, a prefeitura voltou a se calar sobre o caso.

Paulo Messina (PSD), Teresa Bergher (PSDB) e a bancada do PSOL, que tem seis vereadores, estão buscando as 17 assinaturas necessárias para protocolar, ainda hoje o pedido de abertura de CPI na Mesa Diretora. Integrante da tropa de choque de Crivella, o vereador Thiago K. Ribeiro (MDB), no entanto, admite que a ideia de uma chapa branca não pode ser descartada. Nessa hipótese, o objetivo é ver quem obtém apoio primeiro para controlar a comissão.

Ontem o EXTRA ouviu 12 vereadores que afirmaram estar dispostos a assinar a CPI. Além dos que pretendem entrar com o pedido, Reimont e Luciana Novaes, ambos do PT, e Rosa Fernandes e Átila A. Nunes, do MDB, vão endossar a iniciativa da oposição. Cesar Maia e Célio Luparelli, do DEM, Leandro Lira (Novo) e Fernando William (PDT) disseram estar indecisos.

— A Câmara tem que exercer seu papel fiscalizador. Ainda mais quando uma denúncia dá conta de que despesas do orçamento estão sendo usadas para propina, enquanto o 13º salário dos servidores está ameaçado — diz Tarcísio Motta (PSOL).

Rosa Fernandes observou que a denúncia investigada pelo MP é mais um problema numa gestão marcada por polêmicas.

— São problemas que geram instabilidade na cidade, tenho que apoiar — alega.

Teresa acredita que as revelações de Mizrahy justificam até a abertura de um processo de impeachment.

— Não é hora para o Legislativo silenciar. Os fatos são gravíssimos — diz.

Uma das empresas que teria sido beneficiada, segundo a delação, seria a Locanty, que teve 16 contratos com a prefeitura entre 2009 e 2012, mas eles não estão mais ativos. A prefeitura pagou só R$ 15,9 milhões dos R$ 46,5 milhões previstos. O contrato de maior valor era para fornecer reboques à Seop. O serviço foi marcado por polêmica. Motoristas de reboques e guardas foram presos acusados de receber propinas para não levar carros para os depósitos.

Mizrahy contou que Rafael Alves, irmão do presidente da Riotur, Marcelo Alves, era intermediava a liberação de valores devidos a empresas. João Alberto Felippo Barreto, dono da Locanty, voltou a negar pagamentos de propina a servidores.

Atualmente, uma empresa (VS Brasil) que já foi de João Alberto e outra (Laquis Comércio e Serviços, que hoje tem contratos de R$ 93,4 milhões com a prefeitura) criada por uma ex-funcionária dele prestam serviço à prefeitura. Ele garante que não tem vínculo com elas. Os atuais donos não foram localizados.

O Rafael Alves estreitou relações com Crivella após ajudá-lo a obter recursos para a campanha de 2016. Quando Crivella venceu as eleições, Rafael chegou a viajar com ele até Jerusalém. Ele não foi localizado para comentar a delação do doleiro.

Funcionário e ex-funcionário da Riotur

Nas redes sociais, Thiago Vinícius Martins Silva chega a descrever Jones Augusto Xavier de Brito como seu “best”, um amigo conselheiro de muitos anos. Com salários considerados baixos na Riotur, eles agora se veem citados, juntos, na delação premiada do doleiro Sérgio Mizrahy, que aponta a existência de um “QG da Propina” na Prefeitura do Rio. Para comprovar sua denúncia, o delator afirmou à Justiça que, nos dias 10 e 11 de maio do ano passado, dois funcionários da Empresa de Turismo do Município, que ele chamou de Johny e Thiago, estiveram na sua casa para “resgatar” cheques destinados ao pagamento de propina da Locanty. Ele garante dispor de vídeos do prédio onde mora para provar a denúncia.

Como o EXTRA e O Globo publicaram ontem, os nomes completos dos funcionários coincide com os dos dois amigos que foram lotados na Riotur. Thiago continua na empresa, atuando no gabinete da presidência. Jones já tinha sido da Riotur, mas depois passou pela Empresa Municipal Riocentro, da qual se desligou em julho deste ano. Atualmente, ocupa um cargo comissionado no governo do estado do Rio. Além de já terem passado pela estrutura de turismo e eventos da prefeitura, os dois têm em comum o gosto pelo carnaval e aparecem juntos em diversas agendas de escolas de samba, como a Acadêmicos do Grande Rio.

Em pelo menos duas de suas postagens em redes sociais, Thiago e Jones aparecem ao lado de Jayder Soares, patrono da tricolor de Caxias. E ambos também aparecem em fotografias ao lado de Rafael Alves, que chegou a ocupar, no ano passado, o posto de presidente de honra do Salgueiro, na gestão da então presidente da agremiação, Regina Celi. No último dia 27 de fevereiro, Jones publicou no Facebook uma fotografia com o empresário para desejar a ele feliz aniversário. E Thiago apareceu com Rafael num camarote da Sapucaí, numa imagem publicada pela “Revista Planeta Noite”. O EXTRA procurou os dois através de suas redes sociais, mas eles não responderam.

Crivella ataca O Globo, e entidades reagem

Em vídeo divulgado em suas redes sociais domingo à noite, quando já sabia que seria publicada a reportagem sobre a investigação do MP, Marcelo Crivella afirmou que, a partir de então, a prefeitura iria ignorar todos os pedidos de informação feitos pelo Globo. Segundo o prefeito, o jornal teria se transformado em “um panfleto político”. Ontem, em outra gravação, Crivella proferiu ofensas aos jornalistas do Globo que assinam a reportagem, também publicada ano EXTRA. Disse que fizeram “papel de canalha” e se referiu a um deles como “patife” e “sem caráter”.

O Globo repudia as ofensas contra seus jornalistas. Em nota, informou que lamenta a decisão de Crivella de ignorar seus pedidos de informação. “Ao não atender a essas demandas, o prefeito deixa de prestar esclarecimentos não ao jornal, mas à população do Rio de Janeiro, que o elegeu”, diz o texto.

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo e o presidente da Associação Nacional de Jornais, Marcelo Rech, repudiaram a decisão do prefeito.

— O prefeito age de forma pouco transparente. A prefeitura é estrutura pública e teria o dever de prestar contas para a sociedade — disse Rech.

A Abraji diz que a decisão de Crivella viola a Constituição.