Delator da operação Carne Fraca diz ter sido chamado de maluco por fazer denúncia

Por Stephen Eisenhammer
O auditor Daniel Gouveia Teixeira, delator da operação fraca 22/03/2017 REUTERS/Adriano Machado

Por Stephen Eisenhammer

CURITIBA (Reuters) - Quando Daniel Gouveia Teixeira, auditor fiscal do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, confrontou uma empresa processadora de carne com o que disse serem provas do uso excessivo de tutano, ossos e outros subprodutos de matadouros em alimentos para consumo humano, foi afastado subitamente do cargo de inspetor da fábrica.

O incidente, ocorrido quase três anos atrás na fábrica da Peccin Agro Industrial Ltda, no Paraná, levou Teixeira, que também é delegado sindical no Paraná, a dizer à polícia que suspeitava estar sendo minado por superiores corruptos, e seus amigos a começarem a chamá-lo de "maluco" por enfrentar uma dos setores mais poderosas do país.

    "Ser honesto e fazer meu trabalho me torna maluco", indagou ele em uma entrevista nesta semana. "Isso é loucura!"

    Teixeira, de 39 anos, é o delator que a Polícia Federal credita por ter desencadeado a operação Carne Fraca, uma investigação sobre supostas propinas pagas por empresas de carne a inspetores sanitários do país que é o maior exportador mundial de carne bovina e de aves.

    Em documentos apresentados na Justiça, a PF diz que as propinas foram pagas para encobrir violações de saúde graves de algumas empresas da indústria da carne, entre elas a venda de produtos estragados e contaminados com salmonela. A operação fez com que alguns dos maiores mercados da carne brasileira no exterior impusessem restrições a seus produtos.

    A Polícia Federal acusou mais de 100 pessoas, a maioria inspetores, de aceitarem suborno para permitir a venda de produtos rançosos, falsificar documentos de exportação e não inspecionar as fábricas de processamento de carne.

    Os procuradores ainda não fizeram acusações, e as alegações da PF ainda não foram comprovadas.

    A BRF SA  e a JBS , duas das maiores gigantes do setor alimentício, estão entre as dezenas de firmas visadas pela operação Carne Fraca. Ambas negam qualquer irregularidade.

    A operação levou à prisão de 33 servidores sanitários e empregados do setor até agora, e os agentes federais encontraram violações em ao menos 21 fábricas de processamento em todo o país.

Autoridades do setor, que gera mais de 130 bilhões de dólares anualmente, vêm tentando retratar as prisões como incidentes isolados.

    Luciano Inácio da Silva, corregedor do Ministério da Agricultura que analisa procedimentos internos, disse que a pasta está investigando as alegações de Teixeira, mas ainda não chegou a nenhuma conclusão. Ele citou a falta de recursos como motivo para o inquérito ministerial estar atrasado em relação ao da PF.

    Teixeira trabalhou como inspetor em Santa Catarina durante cinco anos antes de se mudar para o Paraná em 2012. Ele afirma ter intimado repetidamente unidades administradas por várias empresas do Estado, que está no epicentro da Carne Fraca, mas que cada vez que o fez sua chefe, Maria do Rocio Nascimento, o transferiu para outras fábricas.

    Maria do Rocio foi presa pela Polícia Federal no dia 17 de março devido à suspeita de ter recebido propinas de processadoras de carne para afastar inspetores de certas fábricas, de acordo com documentos da Justiça. Não foi possível contatar seu advogado, que não se pronunciou publicamente, para obter comentários.

    No início de 2014, Teixeira começou a inspecionar a fábrica de carne processada operada pela Peccin Agro. Após um mês de visitas quinzenais, ele disse ter notado que uma das linhas de produção estava sempre inativa.

    "As pessoas ficavam à toa", contou, acrescentando ter suspeitado que estavam só esperando sua saída para retomar o trabalho.

    Depois ele pediu à empresa documentos que listassem as matérias-primas que comprou e usou nas linguiças e outros embutidos, e concluiu que os papéis mostravam que a fábrica estava utilizando um excesso de "carne mecanicamente separada" (CMS).

    A CMS é uma mistura de tutano, ossos, nervos, artérias e outros restos. Seu uso para consumo humano é limitado devido aos receios sobre a ingestão de certos componentes. No Brasil, um documento do governo publicado na internet informa que o CMS não pode exceder 60 por cento do conteúdo de presuntos e linguiças.

    "Eles estavam usando mais de 85 por cento de CMS", afirmou Teixeira.

    As autoridades não confirmaram a quantidade de CMS usada pela Peccin, e a Reuters não conseguiu verificar a acusação de Teixeira de maneira independente.

    Em setembro de 2014, no mesmo dia em que confrontou a companhia sobre suas descobertas, investigadores disseram que a proprietária Idair Peccin ligou para Gil Bueno de Magalhães, superintendente do Ministério da Agricultura no Paraná. Magalhães, que como outros supervisores é um indicado político, afastou Teixeira da função na empresa.

    Em um comunicado postado no site de uma de suas marcas, a Italli Alimentos, Peccin disse que as acusações são falsas.

    Em novembro de 2014, Teixeira disse que foi afastado da inspeção de qualquer fábrica de processamento de carne por Nascimento e transferido para seu cargo atual --inspetor de medicamentos veterinários.

    (Reportagem adicional de Thais Skodowski em Curitiba)