Delegada assume escola da PF e defende debate sobre gênero e orientação sexual na formação de policiais

***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 06.03.2023 - Retrato de Luciana do Amaral Alonso Martins,  Diretoria de Ensino da PF. (Foto: Gabriela Biló/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 06.03.2023 - Retrato de Luciana do Amaral Alonso Martins, Diretoria de Ensino da PF. (Foto: Gabriela Biló/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - A Diretoria de Ensino da Polícia Federal, recém-criada e comandada por uma mulher, estabeleceu como meta ampliar a participação feminina entre os delegados, peritos, agentes e servidores administrativos, além da inclusão do debate sobre gênero, raça e orientação sexual na formação dos novos policiais.

Em entrevista à reportagem, a delegada Luciana Amaral Alonso Martins disse que o objetivo é criar condições para que mulheres não tenham que se comportar como homens na corporação para serem respeitadas.

"A gente precisa trabalhar para que a mulher ocupe espaços e se sinta confortável em ser mulher dentro da organização, sem precisar passar por um processo de transmutação comportamental para se sentir legitimada. Num ambiente com predominância masculina, muitas mulheres acham que precisam se comportar como homens para serem respeitadas", disse a diretora.

A entrevista ocorreu na sede da Academia Nacional da PF, complexo em Brasília, onde os policiais federais são formados.

A PF tem hoje cerca de 12 mil servidores. Desse total, 2.850 são mulheres. Nesse cenário, a diretora de Ensino sinalizou que um dos caminhos para aumentar o espaço e atrair mais mulheres para a carreira é mudar os formatos do concurso e da grade de formação. As mudanças estão sendo estudadas internamente.

Com menos espaço para testes físicos nos concursos, além de atividades na formação menos militarizadas, a diretora sinaliza ser possível aumentar o percentual atual de 15% de mulheres entre os delegados, por exemplo.

"Será que as mulheres não se interessam pela polícia porque a forma como a polícia é apresentada já faz com que ela tenha uma restrição? Quando mostro, eu crio no imaginário social que a polícia é algo mais militarizado?", questiona.

Há 19 anos na Polícia Federal, Luciana disse que sabe da dificuldade da ascensão de uma mulher dentro da corporação. Ela afirma acreditar que houve menos oportunidades para ela pela questão de gênero.

"A questão é o que foi oferecido para mim que foi considerado o meu gênero? Eu poderia ter tido outras oportunidades e que essa situação [gênero] foi considerada. A questão não é o que eu perdi, é o que me ofereceram ao longo da carreira que considerou o fato de eu ser mulher. No começo da minha carreira isso estava muito presente, havia espaços que eram entendidos como inadequados para mulheres. Ao longo do tempo isso foi sendo atenuado."

As novas mudanças nos concursos já devem ser sentidas no próximo ano. A intenção da diretoria é concluir todas as análises neste ano para que o novo edital traga as alterações.

Para ela, tão importante quanto ter mais mulheres ingressando na polícia é dar espaço também nas posições estratégicas. Na sua visão, esse movimento do atual governo de colocar mais mulheres no comando de superintendências é uma sinalização de mudanças.

A PF hoje tem 2 mulheres como diretoras e 9 no comando das 27 superintendências estaduais.

Nesse sentido, a diretoria está criando um curso de liderança feminina para preparar as servidoras para essas posições. A meta, diz ela, é que durante esses quatro anos do governo Lula mais mulheres chefiem unidades de nível estratégico e tático.

Durante a entrevista, a diretora acrescentou que criar uma diretoria de ensino evidencia a importância do ensino na construção do sujeito; dá ainda a importância do ensino no desenvolvimento das competências da Polícia Federal.

Ela criticou o ensino aplicado aos novos agentes no governo Jair Bolsonaro (PL). No ano passado o curso de formação durou dez semanas, tempo considerado baixo, sendo preciso uma formação complementar à distância das disciplinas que não foram ofertadas.

O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Passos, tem falado sobre a necessidade de uma "desmilitarização" da corporação. Para Luciana, isso deve ser entendido com a predominância de determinados temas em relação a outros.

"Quando ele [Andrei] fala da questão da desmilitarização, ele está falando do balanceamento entre o conteúdo operacional e o conteúdo de outras competências, como essas especialidades são apresentadas ao aluno. É um conteúdo mais prático, reflexivo? Durante a cerimônia de conclusão do curso de formação teve um brado, as pessoas se colocaram em posição de sentido, o sujeito foi sendo trabalhado ao longo desse processo", disse.

Outro tema que o diretor-geral tem citado como meta da nova gestão é melhorar a "qualidade da prova" produzida pela PF em suas investigações.

Segundo a delegada, serão as unidades especializadas as responsáveis por estabelecer a metodologia que será implementada nas formações dos policiais para alcançar objetivo proposto pela direção geral.

"O entendimento da direção, que o diretor Andrei já transmitiu, é de que isso é um tema que precisa melhorar, que hoje não é o ideal", diz ela.

Há também uma série de estudos sendo realizados com relação aos conteúdos que foram ministrados anteriormente, as cargas horárias oferecidas, as competências atuais; e quais grades são importantes para atender as reais necessidades.

Com a intenção de ministrar temas sobre as políticas de equidade de gênero, de raça e identidade sexual, a diretoria buscou uma parceria com a UnB (Universidade de Brasília) para encontrar caminhos de como trabalhar essa temática na formação dos novos policiais.

"As questões sobre a Amazônia, outra diretoria que foi criada recentemente, estão contempladas ou não? Essa nova diretoria de crimes cibernéticos está contemplada ou não?",questionou a diretora, mostrando que análises sobre a formação precisam ser feitas.