Delegada sugere fraude em autópsia de jovem em Tabatinga (AM)

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MANAUS, AM (FOLHAPRESS) - Apesar de o seu nome constar na autópsia, a delegada da Polícia Civil de Tabatinga (AM), Mary Anne Trovão, afirmou não ter participado do exame do corpo de Antonio Rengifo Vargas, uma das sete mortes atribuídas à Polícia Militar em reação ao assassinato de um sargento da corporação, em 12 de junho.

O jovem, de nacionalidade peruana e colombiana, foi preso em via pública horas depois do assassinato do PM Michael Flores Cruz, 36, segundo testemunhas. Ele foi encontrado na madrugada do dia seguinte no lixão da cidade, ao lado de outros dois corpos, todos com sinais de tortura.

A declaração de Trovão corrobora o relato do empresário Antonio Rengifo Baldino, pai do rapaz. À reportagem ele afirmou que, por pressão de PMs, a autópsia do filho foi adulterada para esconder as marcas de tortura no corpo.

"A polícia estava em cima o tempo todo. Essas assinaturas aqui são falsas, as pessoas que constam aqui não estavam presentes. Nem a delegada nem esses dois peritos. Quem preencheu foi um médico na presença de um policial. E o policial dizia: 'Faça o que eu digo'", afirmou.

Assim como parentes e amigos dos outros dois jovens encontrados no lixão, o empresário não tem dúvidas de que seu filho foi torturado em morto pela PM. Ele assegura que o rapaz, um ex-recruta do Exército peruano, não tem envolvimento com crime e nem sequer estava na cidade no momento do assassinato do policial --a família mora em Santa Rosa, no Peru, do outro lado do rio Solimões.

O documento registra ferimentos por arma de fogo e arma branca, mas atesta que a morte não ocorreu por meio de tortura e não registra todas as lesões do corpo.

Por meio da assessoria de imprensa da Polícia Civil (PC), Trovão confirmou que não estava presente durante o exame, realizado na manhã de 13 de junho, um domingo, em uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) de Tabatinga. Ela não deu detalhes sobre as investigações afirmando que estão em sigilo.

A reportagem tentou localizar os dois médicos de Tabatinga que assinam o documento como "peritos ad hoc" por meio da assessoria de imprensa da Secretaria de Saúde do Amazonas, mas não houve resposta até a conclusão desta edição.

O comandante da PM em Tabatinga, tenente-coronel Eddie César, 48, confirma que seus policiais mataram quatro homens que teriam participado da morte do sargento Flores. Por outro lado, ele negou qualquer envolvimento na tortura e do assassinato dos três jovens encontrados no lixão.

Testemunhas e parentes ouvidos pela reportagem, no entanto, afirmam que apenas um homem morreu em confronto --o pistoleiro que matou o sargento, na área portuária da cidade. Outros três teriam sido assassinados sem reação. Além disso, todos os jovens encontrados mortos teriam sido presos pela polícia durante a tarde de 12 de junho.

Nesse mesmo dia, dois jovens desapareceram. Um deles, Holmer Amos, 22, foi visto entrando em uma viatura da PM.

O assassinato do sargento da PM ocorreu uma semana após o Comando Vermelho (CV) ter realizado uma série de ataques em Manaus e em outras cidades do Amazonas. Tratou-se de uma retaliação à morte de um dos líderes da facção criminosa pela PM, na capital amazonense.

A Defensoria Pública do Amazonas informou que, até o momento, não foi procurada por por familiares de vítimas da série de homicídios em Tabatinga. "Porém a população em geral vem demonstrando preocupação e manifestando dúvidas quanto às abordagens policiais (especialmente quanto à licitude da entrada em domicílio e do acesso a comunicações privadas/celulares)", informou, por meio de assessoria de imprensa.

O promotor de Justiça Sylvio Henrique Duque Estrada informou que o Ministério Público do Amazonas instaurou procedimento para acompanhar as investigações conduzidas pela Polícia Civil, que correm sob sigilo.

Esta é a terceira chacina atribuída a policiais militares ocorrida sob o governo Wilson Lima (PSC). Ele não respondeu ao pedido de entrevista.

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