Delegados aposentados da PF criticam o que chamam de medidas "autoritárias e ilegais" do STF

Alexandre de Moraes, ministro do STF e presidente do TSE

Por Gabriel Stargardter

RIO DE JANEIRO (Reuters) - Um grupo de delegados aposentados da Polícia Federal divulgou um comunicado criticando o uso da principal força policial do país "como instrumento para a implementação de medidas autoritárias e ilegais por parte de integrantes do Supremo Tribunal Federal", de acordo com uma cópia do documento vista pela Reuters.

A divulgação do comunicado de cerca de 100 delegados aposentados ocorre poucos dias após o ministro do STF Alexandre de Moraes autorizar buscas da Polícia Federal contra empresários apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PL), que, segundo uma reportagem do site Metrópoles, pregavam um golpe de Estado se Bolsonaro perder a eleição.

O episódio ajudou a alimentar as questões sobre o compromisso de Bolsonaro e seus apoiadores com a democracia brasileira, ao mesmo tempo em que levou alguns a acusarem Moraes de exagero judicial antes da eleição de 2 de outubro.

A nota dos delegados aposentados indica como a polarização política e a divisão geracional no Brasil também estão causando grandes tensões dentro da Polícia Federal.

Os delegados aposentados disseram que as medidas de Moraes são uma afronta aos direitos individuais dos cidadãos e que a decisão de autorizar a operação configura "um evidente abuso de poder praticado com o uso da força policial, o que fere a imagem e a reputação da nossa amada instituição Polícia Federal".

"Meras conversas em grupo privado de WhatsApp não constituem crimes de ameaça às instituições democráticas", acrescentaram.

A PF não respondeu imediatamente a um pedido de comentário. O STF não quis comentar.

A fonte da Polícia Federal da ativa que passou a nota à Reuters ficou indignada com os comentários de seus ex-colegas.

"Sinto vergonha", disse a fonte, que não foi autorizada a falar publicamente. "Turma que serviu à PF na época da ditadura. Sempre trabalhou ao arrepio dos direitos fundamentais, utilizando violência e tortura contra as minorias e contra quem pensasse diferente deles."

"Nunca prenderam ninguém na vida, só preto e pobre", acrescentou.

Bolsonaro, um ex-capitão do Exército, há muito defende a ditadura militar. Atualmente, ele está atrás do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas pesquisas de intenção de voto.

Depois de questionar repetidamente a credibilidade do respeitado sistema de votação eletrônica, Bolsonaro chegou a sugerir que pode não reconhecer o resultado da eleição se for derrotado.

Recentemente, associações ligadas a funcionários da PF na ativa se manifestaram publicamente para se contrapor aos questionamentos de Bolsonaro às urnas eletrônicas. Em 19 de julho, a Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF), a Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF) e a Federação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (Fenadepol) manifestaram "total confiança no sistema eleitoral brasileiro e nas urnas eletrônicas" em nota