Um conselho para Dallagnol: "lucro" e "combate à corrupção" não cabem na mesma frase

Procurador Deltan Dallagnol - José Cruz/Agência Brasil

O discurso de combate à corrupção no Brasil (ou em qualquer país do mundo) estará sempre fadado ao fracasso se não observar seriamente o significado de suas duas e únicas palavras-chave. Isso mesmo, “combate” e “corrupção”.

Se entre um substantivo e outro alguém achar que cabem excentricidades como “lucro”, “total líquido”, “projeção” ou “prestígio”, sinto dizer, mas a coisa tem tudo para descambar numa comédia dramática similar à do filme “Trapaça”, que concorreu ao Oscar em 2014.

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No filme de David O. Russel, dois vigaristas interpretados por Christian Bale e Amy Adams são presos e usados como isca pelo FBI para pegar peixes maiores. Tornam-se delatores-espiões para escapar de uma condenação maior.

O alvo principal era um prefeito de estrela ascendente que tenta alavancar a economia de Nova Jérsei com um acordo, digamos, heterodoxo com a máfia dos cassinos que sempre operou nos EUA e que passaria a ser legalizada na localidade. Para ele, o lucro da cidade compensaria o desvio moral.

Tudo vai para o vinagre quando um policial apressado e ingênuo, mas cheio de boas intenções, passa a forçar a barra, atropelar os ritos e acelerar operações para pegar todo mundo que ele já condenou de antemão pensando em se consagrar aos olhos do chefe e da opinião pública. O problema é que, a certa altura, ele se apaixona pela personagem de Amy Adams. Moral da história: quando o justiceiro passa a compartilhar os mesmos desejos dos investigados, o envolvimento leva ao chão todo o distanciamento e impessoalidade exigidos para banir a prática que ele jurava combater.

A coisa vai de vez para o espaço quando o investigador, tomado pela paixão e pela ideia de que o destino final compensava qualquer desvio ético, transforma o combate contra o crime, com armas e dinheiro público, em projeto pessoal.

Voltando à realidade, o discurso contra a corrupção no Brasil atual peca na determinação definida do artigo “a”. Corrupções é o termo adequado, e ele não reconhece apenas os desvios de desafetos políticos, mas também as de figuras que não queremos “melindrar” nem de candidatos a ídolos com base na Justiça seletiva. Se é seletiva ela não é justa; se não é justa, ela está contaminada.

Essa luta é ingrata, produz mais inimigos que amigos, e exige uma postura monástica para não cair na vala comum do cinismo. Se alguém imagina que ela pode render fama, dinheiro, superministério ou virar argumento motivacional para empresários que também querem ganhar dinheiro, a luta não é luta, é jogo dos sete erros.

O de Deltan Dallagnol, conforme as revelações do The Intercept Brasil, foi não apenas acreditar, como manifestou nas mensagens a colegas e familiares, que poderia explorar a boa fé de quem acreditou na cruzada anticorrupção para faturar como fatura uma empresa de formatura. Foi querer vender um produto vencido, que atribuía a um período irrisório da história todas as falcatruas cometidas no país desde que os primeiros portugueses chegaram aqui trocando espelhos por extermínio.

(Pode parecer um detalhe, mas fico curioso para saber se a troca de mensagem sobre o plano de carreira foi feita com telefone funcional, pago pelos contribuintes, se funcionários públicos lotados na Procuradoria poderiam fazer o trabalho de triagem para os negócios particulares dos chefes e quanto custaria mobilizar autoridades para uma operação providencial só porque “a hora é essa” de mudar os rumos de uma eleição. Fica a dúvida também sobre em que momento os brasileiros saberão qual será o destino mais adequado para o dinheiro recuperado dos desvios na Petrobras).

Em defesa do próprio trabalho como juiz, o agora ministro Sergio Moro (Justiça e Segurança Pública) argumenta que a Lava Jato quebrou um padrão de impunidade no país, esquecendo-se talvez da doce vida levada por empresários criminosos em troca da delação, ou fazendo vista grossa para o fato de que no Brasil as corrupções, grandes ou pequenas, eram antes e são ainda um patrimônio de grupos, agora aliados, envolvidos com candidaturas-laranja, amigos milicianos, rachadinha de gabinete, funcionários fantasmas, uso indevido de imóvel funcional e movimentações financeiras atípicas.

A cosmologia da cruzada moralizadora da Lava Jato ignora os antes e os depois da operação, e só quem ainda acredita em “mitos” é capaz de associar a postura crítica à leitura particular de seus arautos sobre a lei com complacência à corrupção, assim, no singular.

Pelo contrário: os erros crassos do chefe dos investigadores da Lava Jato, entre eles a relação de subserviência a um juiz que virou político, são uma oportunidade única de lembrar o caminho longo para sanar as pequenas e as grandes corrupções do país, seja a malandragem apurada em operações como a Zelotes (alguém ainda se lembra dela?), seja a malandragem de servidores públicos que usam a fé de um país inteiro como projeto pessoal calculado em “KKK”.

O resto da história é um spoiler do filme de David O. Russel.