Demanda por petróleo pode despencar em até 20 milhões de barris diários, alerta Agência Internacional de Energia

PARIS — A paralisação da atividade econômica por causa da pandemia do novo coronavírus está fazendo a demanda por petróleo despencar, informou a Agência Internacional de Energia (AIE). E com a disputa entre Rússia e Arábia Saudita, que decidiram aumentar a produção, a indústria deverá levar anos para se recuperar.

— Hoje, 3 bilhões de pessoas no mundo estão em isolamento. Como resultado disso, nós devemos ver a demanda cair — afirmou o diretor executivo da AIE, Fatih Birol, estimando a queda em 20 milhões de barris diários.

Segundo Birol, o declínio na demanda deve se acentuar ainda mais no segundo trimestre, em relação aos três primeiros meses do ano. Nesta semana, o diretor de negócios da Vitol Group afirmou que o consumo de óleo cru caiu entre 15 milhões e 20 milhões de barris dia, e, para o ano, a estimativa é de redução de ao menos 5 milhões, informou a agência Bloomberg.

Após os comentários de Birol, os preços futuros da commodity em Nova York despencaram 8,6%. A perspectiva negativa se somou ao pessimismo dos investidores com a decisão dos EUA de rescindir uma oferta de compra, após o Congresso não liberar fundos para a operação.

— Nós nunca vimos algo parecido com isso antes — disse Mike Hiley, presidente da OTC Futures. — O petróleo continuará preso nessa rotina, dados os choques simultâneos de oferta e demanda. Medidas de estímulo realmente não ajudam nessas questões. Só porque as pessoas têm mais dinheiro no bolso, não significa que irão comprar mais carros.

Falta de espaço para armazenagem

Com produção maior e demanda menor, a preocupação se vira para a estocagem. Segundo a consultoria IHS Markit, o mundo ficará sem espaço para armazenar petróleo dentro de três meses. Com as taxas atuais de demanda e produção, os estoques irão alcançar 1,8 bilhão de barris, mas a capacidade total disponível é de 1,6 bilhão. Caso esse cenário se concretize, os produtores serão obrigados a interromperem a produção por falta de espaço para armazenagem. E já existem sinais de que os preços atuais estão afetando a produção

— Com estes preços, nós veremos um grande declínio na produção de shale nos Estados Unidos, não há dúvidas sobre isso — afirmou Birol, acrescentado que haverá um “grande sofrimento na indústria de petróleo americana.

Mas os danos serão globais. A demanda por gás na Europa e na Ásia foi “fortemente afetada”. Por causa de restrições impostas na Índia, as companhias do país tiveram que adiar ou cancelar compras de gás natural liquefeito. Muitos exportadores deste produto, como Austrália, Catar e Argélia, irão sofrer.

— Nós devemos ver em todo o mundo muitas desativações de plantas de gás natural liquefeito — previu Birol.