Queda de Vadão veio com atraso, mas deveria ser só o primeiro passo

(Lucas Figueireido/CBF)

Nesta segunda-feira, exatos 29 dias após a eliminação do Brasil na Copa do Mundo da França, a CBF finalmente se pronunciou sobre a seleção feminina e anunciou a demissão de Vadão. Em poucos minutos, o nome do treinador chegou aos assuntos mais comentados do Twitter, com centenas de comentários comemorando sua saída.

A demissão veio com atraso, é verdade. Mas se a intenção da CBF é pensar na verdadeira reestruturação do futebol feminino, a fim de desenvolver o esporte a exemplo de outros países que se destacaram na Copa, este deveria ser apenas o primeiro de muitos passos.

Logo depois da queda do Brasil, no dia 24 de junho, a CBF anunciou que faria uma reunião com Vadão e o coordenador de seleções femininas, Marco Aurélio Cunha, para decidir o futuro da seleção. O encontro acabou adiado e a resolução só foi anunciada hoje, mas segundo a repórter Gabriela Moreira, do Grupo Globo, que deu o furo da demissão, a permanência de MAC ainda está sendo avaliada. Pelo menos por enquanto, ele segue no cargo.

Para quem acompanha a modalidade, é unanimidade: de nada adianta tirar Vadão sem mexer profundamente nas estruturas, mudando também os responsáveis por gerir a modalidade.

Como contou o jornalista Jamil Chade em reportagem do “UOL Esporte”, um grupo de especialistas apresentaram ainda em 2016 um conjunto de estudos e ideias para o desenvolvimento do futebol de mulheres.

Mais sobre futebol feminino no Deixa Ela Jogar:

Formado pelas ex-atletas Juliana Cabral, Marcia Taffarel, Leda Maria, pela pesquisadora Silvana Goellner e pela jornalista Lu Castro, o grupo formou o “comitê de reforma” e sugeriu, entre outras coisas, a criação de um departamento específico para o futebol feminino dentro da CBF. A entidade inicialmente aprovou a maioria das proposições, mas logo depois extinguiu o comitê por e-mail, sem maiores explicações. Até hoje, nada foi implementado.

Segundo o grupo, o que falta para o futebol feminino crescer no Brasil é vontade política e planejamento estratégico. Como disse a pesquisadora Silvana Goellner durante evento no Museu do Futebol há duas semanas, o problema tem nome e sobrenome: Marco Aurélio Cunha.

Pressionado pelos jornalistas devido aos maus desempenhos da seleção feminina, o dirigente repetiu categoricamente nos últimos meses que a CBF oferece “condições iguais” para homens e mulheres. Porém, o discurso fica só na teoria.

Além de ter mantido Vadão no comando mesmo com a série de nove derrotas seguidas e nenhuma evolução futebolística antes do Mundial — cenário impensável para qualquer seleção ou clube masculino neste país —, há outros problemas que demonstram o abismo no tratamento.

As seleções femininas sub-17 e sub-20, por exemplo, estão inativas há meses. Luizão, que até junho todos pensavam treinar a equipe sub-17, foi recentemente citado em reportagem do LANCE! como técnico da base do Juventus da Mooca. A situação é ainda pior no sub-20, já que Doriva Bueno saiu do comando em setembro do ano passado e a CBF ainda não anunciou seu substituto.

Em um país em que a principal volante da seleção tem 41 anos e acaba de disputar sua sétima Copa, ao menos em um futuro próximo, não há qualquer planejamento ou calendário para as jovens jogadoras.

Leia mais:

Como mostrou o blog Deixa Ela Jogar, o descaso também chega à esfera dos clubes. Realizado pela CBF pela primeira vez em 2019, o Brasileiro Feminino Sub-18 impôs uma verdadeira maratona às meninas, com seis partidas em dez dias, o que preocupou os preparadores físicos e técnicos ouvidos pela reportagem. Não dá para pensar no desenvolvimento da modalidade ou em renovação sem uma base fortalecida — que por enquanto inexiste, apesar do discurso de igualdade de condições.

A CBF precisou de 29 dias para demitir Vadão, o que só ocorreu porque, pela primeira vez na história, a grande mídia voltou seu olhar para a seleção feminina e ajudou a criar uma pressão inédita em cima da entidade. O nome do substituto ou substituta ainda não foi definido. De acordo com Gabriela Moreira, o nome da sueca Pia Sundhage, bicampeã olímpica pelos Estados Unidos, é o favorito.

Além disso, é fundamental que o sucessor ou sucessora tenha uma trajetória sólida na modalidade e tempo trabalhar e implementar sua filosofia de jogo. Lembrando que Emily Lima entrou no lugar de Vadão após a Olimpíada do Rio, em 2016, e ficou apenas dez meses no cargo, demitida sem nem mesmo ter disputado jogos oficiais.

Mas para além da escolha do novo nome, é preciso que no principal posto de comando do futebol feminino também esteja alguém experiente, que compreenda os desafios e os meandros próprios da modalidade e tenha vontade política para superá-los.

A Copa do Mundo foi um sinal claro de que o futebol feminino do Brasil ficou para trás, ultrapassado por novas potências como França, Inglaterra, Holanda, Austrália e Itália, onde as confederações e federações têm investido na base, incentivado os clubes e fortalecido as ligas e calendários.

Se o presidente Rogério Cabloco realmente quer uma mudança efetiva, não adianta apenas demitir Vadão. É preciso começar o projeto do zero, promover também uma renovação em quem gere a modalidade e não foi capaz de mostrar resultados satisfatórios nos últimos anos.