Nelson Teich, o breve, deixa caminho livre para Bolsonaro forjar sua realidade paralela

O agora ex-ministro da Saúde Nelson Teich. (Foto: Andressa Anholete/Getty Images)

Jair Bolsonaro conseguiu uma proeza.

Assistirá o país que prometeu colocar acima de todos atingir à marca macabra se aproximar das 15 mil mortes (oficiais) pelo coronavírus sem um ministro da Saúde para coordenar os esforços para a contenção da pandemia.

Na melhor das hipóteses, atravessará a crise com três ministros da Saúde diferentes. O próximo que se cuide.

O número pode aumentar, enquanto Bolsonaro não encontrar um subordinado alinhado ao que ele entende sobre medicina: nada.

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Nelson Teich, o último a tentar a sorte, deixou o cargo nesta sexta-feira (15) antes de completar um mês no posto. Ele foi escolhido após semanas de fritura e troca de provocações em público entre Bolsonaro e o antecessor, Luiz Henrique Mandetta, um dos poucos integrantes do primeiro escalão do governo que passava mais tempo trabalhando do que nas redes sociais ilustrando o ego do chefe.

Na época da troca, o Brasil contabilizava 1,9 mil mortes por coronavírus.

Mandetta era detestado por Bolsonaro e admirado por governadores, secretários de Saúde e pela comunidade médica.

Teich nem isso.

Representantes dos estados se queixavam de que ele andava perdido e não sabia ainda a que viera. Quando descobriu, pulou fora.

Em sua posse, no dia 17 de abril, o oncologista afirmou que o foco de sua gestão seria nas pessoas. “Por mais que você fale em saúde, por mais que você fale em economia, não importa o que você fala, o final é sempre gente”.

Não queria dizer muito, mas ainda assim faltou combinar com o chefe.

Em 28 dias, Bolsonaro submeteu o ministro a ao menos duas situações constrangedoras.

A primeira, quando o escalou como papagaio-de-pirata no famoso discurso após a demissão de Sergio Moro do Ministério da Justiça. Teich quase dormiu em pé enquanto o chefe falava das aventuras amorosas do filho 05 pelo condomínio.

Pouco depois, ele mal disfarçou a contrariedade ao saber, pela imprensa, durante uma entrevista coletiva, que a equipe econômica do governo acabava de incluir barbearias, salões de beleza e academias de ginástica como atividades essenciais que poderiam funcionar normalmente ao longo da quarentena.

Na quinta-feira (14), Bolsonaro se reuniu com empresários e declarou guerra aos governadores. Sabia que a palavra “lockdown” já não era só uma palavra que não conseguia repetir, e sim uma possibilidade à mesa dos estados mais afetados pela pandemia.  

O presidente tinha outra ideia para enfrentar a crise: em vez de restringir a circulação, que tal alterar o protocolo do SUS e permitir a aplicação da cloroquina, o seu emplastro Bolsonaro, desde o início do tratamento contra o coronavírus. 

Teich desconversava quando cobrado a apresentar um plano de flexibilização do isolamento e alertava para os riscos do uso indiscriminado da cloroquina. 

“A cloroquina é um medicamento com efeitos colaterais. Então, qualquer prescrição deve ser feita com base em avaliação médica. O paciente deve entender os riscos e assinar o 'Termo de Consentimento' antes de iniciar o uso da cloroquina”, escreveu Teich no Twitter.

Para Bolsonaro, nada pode ser mais ofensivo do que ver alguém negar as propriedades milagrosas do medicamento. 

Em entrevista, o capitão exigiu que seus ministros deveriam estar afinados com ele. Parecia um filme repetido, e era.

O problema é que estar afinado com ele é estar desalinhado com a realidade, com as indicações médicas, com as evidências científicas. 

Antes da demissão, a colunista Denise Rothenburg, do Correio Braziliense, escreveu que Teich havia desabafado com amigos: estava difícil conciliar os desejos do presidente com o que preconiza a ciência. 

Em terra de fanático, bom senso é declaração de guerra.

A fritura eram favas contadas.

Dessa vez, não durou uma novela.

A ascensão e queda de Nelson Teich no ministério prova apenas que não tem ninguém mais perdido nesta pandemia do que Jair Bolsonaro.

Seria cômico, não fosse um morticínio.


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