Demitido, embaixador da Bolívia acusa governo interino de 'revanchismo'

RICARDO DELLA COLETTA

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Aliado do ex-presidente boliviano Evo Morales, o embaixador da Bolívia no Brasil, José Kinn Franco, afirmou à Folha de S.Paulo ter sido demitido do cargo pelo governo interino de Jeanine Añez. 

De acordo com Kinn Franco, indicado em 2016 por Evo para comandar a missão diplomática em Brasília, as novas autoridades bolivianas lhe informaram da demissão, com efeito imediato, na semana passada. 

Com ele, também foram desligados da embaixada outros três funcionários bolivianos.

"O governo Añez, que nós consideramos golpista, está aí para convocar eleições. Mas estão atuando com muito revanchismo, com a demissão de pessoal em várias embaixadas no mundo", afirmou Kinn Franco.

Com as mudanças promovidas por Añez, segundo Kinn Franco, a embaixada atualmente está sendo chefiada pelo único funcionário boliviano que não foi demitido, que responde como encarregado de negócios.

Añez se autoproclamou presidente interina da Bolívia em 12 de novembro, após Evo ter renunciado e deixado o país para um exílio no México. 

Evo renunciou em meio a pressões de manifestações populares e das Forças Armadas. Ele se diz vítima de um golpe de Estado. Pouco depois da renúncia de Evo, Kinn Franco foi ao Congresso Nacional em Brasília, se reuniu com parlamentares de esquerda e disse que a saída do ex-presidente do seu país foi um golpe "organizado, programado e estruturado pela extrema-direita" boliviana. 

Na ocasião, ele afirmou que ainda tinha algumas tarefas a cumprir na embaixada e que renunciaria ao posto "em algum momento". 

Añez enviou na semana passada ao Congresso um projeto de lei para convocar eleições gerais para a escolha de um novo presidente e para a renovação da Câmara e do Senado. 

A regra proposta serviria também para declarar a nulidade das eleições de 20 de outubro. O pleito foi vencido por Evo, mas foi alvo de denúncias de fraude. 

As relações exteriores têm sido um campo prioritário do governo interino da Bolívia, que se afastou da linha que vinha sendo adotada pelo ex-presidente.

Añez nomeou recentemente, por exemplo, um embaixador para os Estados Unidos, posto que estava vago havia mais de dez anos.