Demitido sem perder pelo Cuiabá, Valentim desabafa sobre críticas de Cristiano Dresch

·10 minuto de leitura
Alberto Valentim foi demitido na primeira rodada da Série A do Brasileiro. Foto: Gil Gomes/AGIF
Alberto Valentim foi demitido na primeira rodada da Série A do Brasileiro. Foto: Gil Gomes/AGIF

Por Ricardo Assis

Em dez partidas no comando do Cuiabá, Alberto Valentim somou sete vitórias e três empates. Nesse meio tempo, o treinador foi campeão estadual e somou uma eliminação para o 4 de Julho na Copa do Brasil. Apesar dos bons números, o treinador acabou demitido do Cuiabá após empatar na estreia da Série A contra o Juventude em casa. 

A justificativa oficial de Cristiano Dresch, vice-presidente do clube, foi de que Valentim foi desligado do Cuiabá por conta da falta de padrão de jogo. O treinador, no entanto, discorda veementemente da explicação de Dresch, e, em entrevista ao Yahoo, apontou os reais motivos do desligamento. Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

Ricardo Assis: Quais são seus planos para o resto da temporada? Planeja voltar a trabalhar no mercado brasileiro?

Alberto Valentim: “Eu estou muito motivado a voltar a trabalhar, mesmo com a decepção de ter sido demitido agora pelo Cuiabá. A ideia é voltar o quanto antes. Lógico que é preciso antes entender o que o clube que está interessado quer de mim para dar continuidade na minha carreira”.

Leia também:

Você tem preferência por trabalhar no Brasil?

Para mim é indiferente. Eu gostaria de voltar a trabalhar no Brasil sim, mas se pintar oportunidade fora eu vou estudar da melhor maneira possível. Se for um país legal, uma proposta com boas condições de trabalho, eu não descarto, mas a princípio eu gostaria de trabalhar aqui sim.

Qual o balanço que você faz do seu trabalho no Cuiabá?

Eu fui campeão invicto, assim como no Vasco na Taça Guanabara. Tivemos uma eliminação precoce logo na minha chegada na Copa do Brasil, infelizmente. Alguns fatores complicaram essa partida... Foi muito em cima da minha chegada, eu não pude estar presente pois estava com COVID e isso atrapalha muito. Quando o treinador está perto, é outra coisa. De todo modo, fomos campeões invictos e iniciamos o Campeonato Brasileiro com um empate. O Cuiabá não foi campeão ano passado, e não me interessa dizer que o clube era o favorito a ganhar o título. Eu fui campeão no Botafogo e no Vasco sem ser favorito. Ser campeão não é fácil, ganhar é muito bom, então eu valorizo muito esse título que eu conquistei no Mato Grosso.

Qual é o impacto do COVID para os técnicos? Como tem sido trabalhar com o calendário mais apertado e com protocolos diferentes?

Na verdade, eu fiquei ano passado muitos meses sem trabalhar e nessa volta, no início do trabalho no Cuiabá, demos muita sorte de não ter problemas com COVID. Nós não chegamos a perder nenhum atleta com COVID. De todo modo, é muito ruim isso. Você pode ter se preparado a semana inteira, e acaba sendo pego de surpresa com um teste positivo, então isso realmente atrapalha todos os clubes e treinadores. Recentemente nos vimos o River improvisando um volante no gol, isso atrapalha muito o trabalho de qualquer treinador.

Você dirigiu o Cuiabá por menos de 60 dias e sofreu críticas após sua saída por conta da falta de padrão de jogo. É possível montar uma equipe vencedora, com padrão de jogo em menos de dois meses?

Meu time tinha sim padrão de jogo. Lógico que as coisas vão melhorando com o passar do tempo... Até porque muitos jogadores foram chegando ao longo da minha gestão. Eu já deixei muito claro que estou disposto a mostrar meu trabalho, até porque todos os meus treinos são filmados. A gente trabalha muito em cima de filmagens de trabalhos com drone, então eu posso mostrar, provar que o Cristiano [Dresch] falou uma coisa que não é verdade. Eu tenho a minha filosofia de trabalho, a minha forma de trabalhar, todos os meus treinos são direcionados buscando aproximar isso à qualidade do jogo. Eu posso provar isso quando tiver a oportunidade de mostrar. Um cara (sic) não pode falar isso. Eu sou um treinador que não está há muito tempo nessa área, mas eu já ganhei títulos, fui vice-campeão brasileiro com o Palmeiras, só trabalhei em times grandes no Brasil. Ele não pode falar isso dessa maneira, até por isso eu estou disposto a desmentir, mostrando que fiz o meu trabalho. Humildemente eu faço isso, porque é muito ruim ver uma declaração dessas sendo que eu sempre respeitei a diretoria. Eu ouvi deles que sou um treinador muito aberto ao diálogo, então eu simplesmente estou à disposição para mostrar o meu trabalho no Botafogo, Vasco, mais recentemente no Cuiabá, se quiserem.

O time tinha um padrão de jogo, variações ofensivas com trocas de jogadores. Tínhamos nossos posicionamentos iniciais, fase defensiva, nossos conceitos, que eu batia muito na tecla. Então, pra quem quiser ver, eu estou aí para desmentir uma pessoa que não me respeitou como profissional.

Uma pessoa não pode chegar falando que o time não tinha padrão de jogo. Isso não é verdade. Com o material humano que eu tinha, com todo o respeito, jogadores que ele sabia que ainda iam chegar na Série A. O próprio Cristiano falava para mim que sabia que havia um limite no que o time poderia render pelo elenco que o Cuiabá tinha. Eu sempre respeitei muito isso, então o cara (sic) não pode chegar falando inverdades sobre padrão de jogo do meu time e a qualidade do meu trabalho. Eu não aceito isso.

Existe uma impaciência muito grande dos dirigentes em relação ao tempo de trabalho disponibilizado aos treinadores. É difícil desenvolver um trabalho tão rápido?

Isso é uma cultura nossa, infelizmente. Se você não ganhar, você tem o seu cargo ameaçado. Eu acredito que isso vá mudar, mas estamos a passos muito lentos ainda. Os dirigentes se comportam de uma forma muito emocional, levando em consideração o calor do jogo... Então é complicado. Eu gostaria muito que quando um dirigente viesse me contratar que ele me chamasse para eu mostrar um pouco do meu trabalho, como eu funciono como gestor. Isso seria interessante para passar a nossa linha de trabalho.

Sobre o Cristiano Dresch: teve uma outra questão polêmica que acabou saindo na mídia recentemente, em relação ao áudio vazado, contendo ameaças ao zagueiro Luiz Gustavo. Esse time de atitude tem lugar dentro de um clube de futebol? Isso é normal ou afeta o ambiente?

Em todos os clubes que eu passei, eu nunca tinha visto uma coisa dessas. Não é da minha conta, então a única coisa que eu falo é que, nas entrevistas dele em relação a mim, ele parece estar com raiva. Talvez por eu não ter escutado ele, em relação a quem ele queria que jogasse. Em todas as minhas entrevistas após minha saída eu falei de uma maneira muito profissional e tranquila, sem raiva nas respostas. Existe, sim, um descontentamento meu em relação as falas dele. Eu respondo com razão, sem ódio. O áudio dele, que eu ouvi, é de ódio puro. Então assim, eu não sei se essa é a melhor maneira de gerir um clube. Eu sempre tratei com muito respeito todos os jogadores. Eu gostaria inclusive que vocês perguntassem a qualquer jogador sobre a qualidade do meu trabalho, da minha gestão, sobre meu respeito em relação aos atletas. Pode conversar com qualquer um do Palmeiras, Botafogo, Vasco, Avaí, Cuiabá... Isso que importa para mim, a maneira como eu interajo e respeito os atletas e funcionários. Eu só consigo trabalhar assim.

Antes dessa demissão no Cuiabá, você também foi desligado sem perder uma partida pelo Pyramids. Foram situações parecidas?

Muito parecidas. O que eu preciso deixar muito claro para as pessoas é que eu sou muito aberto para o diálogo. O Cristiano sabe disso. Os outros dirigentes e comissões técnicas fixas de todos os times que trabalhei sabem disso. Eu sou muito aberto ao diálogo, a ouvir as pessoas que estão perto de mim, seja diretoria ou comissão técnica. O que eu não admito é me obriguem a escalar um ou outro jogador, me obriguem a tirar um ou outro jogador. Assim eu não consigo trabalhar, porque eu tenho um compromisso com os jogadores, com aquilo que eu falo para eles no vestiário durante o dia a dia. Os jogadores, que são muito inteligentes, sabem muito bem quando o treinador não está escalando quem deveria. Lógico que eu tenho minhas preferências, o que acredito que pode ser melhor para o time na parte técnica e tática, mas eu não aceito que interfiram de uma forma obrigatória, dizendo quem deve ou não jogar comigo. Eu não sou pago para isso, eu sou pago para treinar o time, para escalar e fazer com que o time jogue”.

Como era o ambiente de trabalho no Cuiabá? Você sentia que tinha autonomia de escolha dos jogadores? Essa pressão vinha apenas por parte do Cristiano Dresch ou do grupo político como um todo?

Vinha apenas por parte do Cristiano, e o ambiente era ótimo. Os jogadores ficaram incrédulos com minha demissão, e tentaram reverter ela. Não deixaram sequer eu sair da sala da comissão técnica na Arena. Eles chegaram até a ligar para o Cristiano, pedindo para que eu não saísse do clube. Os jogadores estavam satisfeitíssimos com o meu trabalho e isso é muito fácil de provar, é só perguntar para eles. Eu não sei se eles vão poder dar entrevista, não sei como as coisas estão funcionando no clube, mas eu tenho certeza de que, se vocês perguntarem para qualquer um, todos vão falar bem da minha gestão. Eu tenho certeza disso.

Os jogadores sabiam dessa questão da pressão externa?

Ninguém sabia. Eu guardei isso para mim, comentei apenas com meu auxiliar, o Warley. Eu não achava justo passar isso para os jogadores, eu não queria uma pressão maior para eles. Eles já têm uma pressão natural de atleta, e eu não queria transferir isso para eles, colocar esse peso neles. Eu guardei para mim e só depois expliquei a situação quando fui demitido, porque achei justo. Eu estava muito satisfeito com todos em relação a performance, rendimento e a entrega.

Você poderia falar qual era o jogador que ele queria que fosse colocado?

Não, não... Era uma preferência por alguns jogadores. Eu não quero polêmica, eu só quero deixar claro que meu trabalho tinha qualidade. Eu fui campeão invicto no Cuiabá. Eu não quero troca de farpas... As minhas entrevistas são de um cara (sic) que ficou chateado, triste com a demissão. Eu não quero alimentar discórdia, só mostrar a qualidade do meu trabalho. Eu quero voltar a trabalhar o quanto antes, eu quero que as pessoas lembrem dos meus trabalhos, que foram muito bons. Só trabalhei em time grande, e é isso que quero que os torcedores e vocês da imprensa lembrem.

Havia uma pressão por parte do Cristiano em cima dos jogadores, reuniões paralelas com o elenco?

O Cristiano era muito ausente. Ele não vai ao clube há mais de um ano, por questões pessoais. Eu não sei... Eu ouvi várias histórias, mas para mim não interessa porque eu sei que existem muitas inverdades. Eu só sei que ele não estava presente, e isso é mais um motivo para ele não falar do meu dia a dia”.

O Cuiabá está fazendo sua estreia na Série A esse ano. Você os vê preparados para se manter na elite, levando em conta o material humano e estrutura?

Segundo o Cristiano, o clube deve contratar bastante ainda. Eu sempre respeitei essa cautela deles, por se tratar de um clube empresa. Eu não sei como vai ser, se vão realmente contratar ou não, até porque não estou mais lá dentro. É difícil opinar de longe.

Para finalizar: Você foi alvo de fake news após sua demissão, algo que vem sendo cada vez mais comum no Brasil e no mundo. Foi algo que ganhou muita proporção, com até mesmo um jornalista consagrado como Milton Neves acabou postando sobre, em tom de piada. Como foi isso para você?

Fake News, né cara (sic)... Maldade das pessoas, só isso. Na minha casa está tudo super tranquilo, acredito que as pessoas inteligentes saibam que isso não passou de uma grande mentira, que o povo gosta dessas palhaçadas. Isso tenta prejudicar não só minha família, como a família Dresch também.

A reportagem contatou a assessoria do Cuiabá, buscando realizar uma entrevista com os atletas Marllon, Walter e Élton sobre a passagem de Alberto Valentim pelo clube. No entanto, a diretoria do clube mato-grossense vetou.

*Por conta de compromissos pessoais, Alberto Valentim ainda não conseguiu disponibilizar os vídeos citados para o Yahoo. Assim que for enviado, subiremos na matéria.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos